Crise Humanitária em Gaza: A Fome e a Violência

Recentemente, relatório da ONU apontou aponta fome ‘catastrófica’ em Gaza. De acordo com a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), entre os meses de abril e julho de 2025, mais de 20 mil crianças foram internadas para tratar quadros de desnutrição aguda. Entre elas, acima de 3 mil foram classificadas como gravemente desnutridas. A crise humanitária foi agravada após o bloqueio de Israel, que cortou a ajuda humanitária da Faixa de Gaza. Anunciado no início de março, o governo de Israel defendia o bloqueio como uma forma de pressionar o Hamas a libertar reféns:

Desde 2 de março, Israel reimpôs um cerco total, fechando postos de fronteira e bloqueando bens e suprimentos. Um fluxo limitado de ajuda humanitária tem sido permitido no enclave desde 19 de maio, sob um esquema alternativo de distribuição humanitária apoiado pelos Estados Unidos (EUA) e por Israel, que a ONU rejeitou por violar os princípios humanitários. Desde a operacionalização desse esquema – a chamada “Fundação Humanitária de Gaza” (GHF) – o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) documentou pelo menos 875 palestinos mortos, com 674 vítimas nas proximidades dos locais da GHF e outras 201 nas rotas de outros comboios de ajuda. (Global Centre For the Responsability to Protect, 2025)

Apenas após 11 semanas de bloqueio, em maio, Israel voltou a autorizar a entrada de ajuda humanitária na região, fortemente pressionado por seus principais aliados internacionais. Até mesmo os Estados Unidos, que em abril defenderam na ONU bloqueio de ajuda humanitária por Israel em Gaza, demonstraram preocupação frente às imagens fortes resultantes do bloqueio da entrada de alimentos na região. União Europeia, Reino Unido e Japão também pediram medidas para deter o sofrimento humanitário em Gaza. Diante desse cenário, é possível levantar o questionamento: quando o mundo todo discute guerra, quem olha para a fome e o sofrimento humanitário em Gaza?

O dilema segurança x fome

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 2,1 milhões de habitantes de Gaza enfrentam escassez prolongada de alimentos, com quase meio milhão de pessoas em uma situação catastrófica de fome, desnutrição aguda, inanição, doenças e morte (OMS, 2025). Uma das piores crises humanitárias do mundo está acontecendo em tempo real. A fome está sendo usada como arma de guerra, atingindo milhares de civis e, em especial, crianças palestinas. De acordo com a UNICEF (2025):

Em julho de 2025, mais de 320.000 crianças, a população total com menos de cinco anos na Faixa de Gaza, corriam o risco de desnutrição aguda, com milhares sofrendo de desnutrição aguda grave, a forma mais letal de desnutrição. Os serviços nutricionais essenciais entraram em colapso, com os bebês sem acesso à água potável, substitutos do leite materno e alimentação terapêutica.

A necessidade de ajuda humanitária à população palestina vem sendo colocada em segundo plano, sobreposta e condicionada pela estratégia e exigências de segurança de Israel. Para compreender como a negação de ajuda humanitária se constitui como uma forma clara de violência direta e estrutural à população palestina, podemos resgatar as contribuições do sociólogo norueguês Johan Galtung.

Os Estudos de Paz e o Conflito em Gaza

Ao olharmos para essa questão à luz dos Estudos de Paz, podemos retomar o debate apresentado por Johan Galtung, que aponta para a existência de três tipos de violência na sociedade: a violência direta, estrutural e cultural. Para o texto aqui discutido, serão apresentados os conceitos de violência direta e estrutural, pois estão mais relacionados com as características do conflito em Gaza.

No que diz respeito à violência direta, Galtung argumenta que ela pressupõe a presença de um agente que, além de impedir um indivíduo ou sociedade de alcançar determinado objetivo, atue também de forma deliberada para causar-lhes danos ou destruição. Assim sendo, a violência direta é visível, geralmente infligida por armas ou ataques físicos. No contexto do conflito em Gaza, temos a violência direta que pode ser observada por meio das ofensivas militares israelenses e os bombardeios em Gaza.

Já a violência estrutural é indireta e impessoal, e se dá em um contexto em que existem os dominadores – top dogs – que se beneficiam mais da estrutura do que outros indivíduos, os oprimidos – underdogs – que sofrem de um tipo de violência não direta, como a fome ou a miséria. Galtung classifica a violência estrutural como um dano não intencional a outros indivíduos, como a fome e a miséria. Contudo, no contexto da crise humanitária em Gaza, pode-se argumentar que a violência estrutural se dá de forma intencional, uma vez que Israel negou e bloqueou a ajuda humanitária à região como uma estratégia de guerra. A fome, assim sendo, vem sendo usada como uma arma no conflito.

As relações internacionais e a fome

Ao olhar para conflitos internacionais, em especial para a guerra, é comum que a opinião pública e o público não-especializado pense a violência de forma direta, conforme mencionado acima nas palavras de Galtung. No caso de Gaza, é televisionado e discutido as ofensivas militares entre as partes, as disputas entre o exército israelense e o Hamas, o bombardeio em Gaza e o prolongamento do conflito, que perdura desde 7 de outubro de 2023. A visão de estudiosos e especialistas em Relações Internacionais não difere muito dessa abordagem, uma vez que muitas análises do conflito focam em questões de segurança e reconfiguração da ordem internacional frente ao conflito. De fato, pensar as relações internacionais envolve discutir política, economia, história, cultura, sociologia e, claro, os temas de segurança. Afinal, a própria disciplina de Relações Internacionais nasceu no século XX como uma forma de entender a guerra e aprender como construir a paz, no contexto turbulento do mundo pós-1945. 

Apesar disso, pensar as relações internacionais também envolve sair do nível macro (daqueles temas que são mais discutidos pelo grande público) e olhar para o nível micro, ou seja, o nível dos indivíduos. O sofrimento infligido pela fome e a desnutrição, a negação de ajuda humanitária, precisam ser analisados e discutidos, pois conforme discutido acima, a fome é uma forma de violência. Enquanto o mundo discutia temas convencionais de política internacional, milhares de pessoas agonizavam de fome em Gaza. E essa ainda é uma realidade. Sendo assim, para pensar na resolução do conflito e na construção da paz na região, não apenas é necessário pensar como cessar a violência direta. Para Galtung, o fim da violência direta constitui um cenário de Paz Negativa. É apenas com o fim da violência estrutural que é possível atingir a Paz Positiva. Portanto, a construção da paz deve buscar combater a fome e a crise humanitária na região. Para além do fim das hostilidades entre as partes, é necessário garantir que a fome não seja um problema de longo prazo a ser enfrentado em Gaza. Por fim, a utilização da fome como arma de guerra levanta sérios questionamentos acerca do direito humanitário e da falta de ação do mundo frente a uma das maiores crises humanitárias dos últimos anos. Até que ponto o sofrimento da população civil pode ser justificado por questões de segurança e estratégia?

REFERÊNCIAS

CNN BRASIL. Crise humanitária em Gaza se agrava após um mês de bloqueio israelense. CNN Brasil, Internacional, 7 abr. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/crise-humanitaria-em-gaza-se-agrava-apos-um-mes-de-bloqueio-israelense. Acesso em: 17 ago. 2025.

FERREIRA, Marcos Alan S. V. et al. Estudos para a Paz: conceitos e debates. São Cristóvão-SE: Ed. UFS, 2019.

G1. Israel autoriza entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza depois de 11 semanas de bloqueio. G1 – Jornal Nacional, Internacional, 19 maio 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/05/19/israel-autoriza-entrada-de-ajuda-humanitaria-na-faixa-de-gaza-depois-de-11-semanas-de-bloqueio.ghtml. Acesso em: 17 ago. 2025.

GALTUNG, Johan. Violence, Peace and Peace Research. Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p. 167-191, 1969.

GLOBAL CENTRE FOR THE RESPONSIBILITY TO PROTECT. Israel and the Occupied Palestinian Territory. Global Centre for the Responsibility to Protect, 15 jul. 2025. Disponível em: https://www.globalr2p.org/countries/israel-and-the-occupied-palestinian-territory/. Acesso em: 17 ago. 2025.

ONU NEWS. Gaza: agências da ONU alertam para níveis alarmantes de fome e desnutrição. ONU News, 25 jul. 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/07/1850576. Acesso em: 17 ago. 2025.

UNICEF. UN agencies warn key food and nutrition indicators exceed famine thresholds in Gaza. UNICEF, 29 jul. 2025. Disponível em: https://www.unicef.org/press-releases/un-agencies-warn-key-food-and-nutrition-indicators-exceed-famine-thresholds-gaza. Acesso em: 17 ago. 2025.

UOL. ONU aponta fome “catastrófica” em Gaza; Israel nega. UOL Notícias, Internacional, 14 ago. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/08/14/onu-aponta-fome-catastrofica-em-israel.htm. Acesso em: 17 ago. 2025.

UOL; AFP. UE, Reino Unido e Japão pedem medidas contra a ‘fome’ em Gaza. UOL Notícias, Internacional, 12 ago. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/08/12/ue-reino-unido-e-japao-pedem-medidas-contra-a-fome-em-gaza.htm. Acesso em: 17 ago. 2025.