Cercamento militar dos Estados Unidos na Venezuela: nova tentativa de intervenção?

A mobilização militar dos EUA próximo a Venezuela refletem a renovação do seu objetivo de pressionar os governos de esquerda na região. A resposta das forças armadas venezuelanas evidencia o aumento das tensões e o risco de um conflito iminente.

Desde meados do mês de janeiro de 2025 as forças militares estadunidenses iniciaram aproximações na região do Caribe com um alvo bem definido: o território venezuelano. A operação denominada como “Lança Sul” tem o objetivo de combater as redes de narcotráficos na região e impedir as operações comerciais e logísticas destes grupos na região da Venezuela, haja vista que Casa Branca acusa o governo venezuelano de comandar e apoiar grupos de narcotráficos no país para manutenção do governo chavista. Entretanto, a mobilização militar e a projeção de força a postos na região do Caribe apontam para uma operação militar em uma proporção maior — uma possível invasão militar ao país e ameaça a soberania estatal da Venezuela. 

A política externa estadunidense em relação à Venezuela representa um ponto de tensão desde os governos de Hugo Chávez — antecessor do atual presidente do país Nicolás Maduro — no qual o governo norte americano tentou por diversas vezes interferir e destituir o governo socialista no país implementado por Chávez. Nesse cenário, a maior expressão das interferências da Casa Branca no país foi a tentativa do golpe de Estado para destituir Chávez do poder no dia 11 de abril de 2002, no qual o representante foi majoritariamente aclamado pela população e pelas forças militares venezuelanas que culminaram com a sua retomada ao poder em 48 horas após o golpe. Esta tentativa falha da política externa estadunidense representa, desde então, um ponto de tensão para os Estados Unidos que se perpetuou com tarifas e bloqueios econômicos. Assim sendo, a atual presença e mobilização das forças militares dos Estados Unidos em direção à Venezuela representaria uma tentativa revisionada de intervenção no país?

Durante o contexto da Guerra Fria a política externa estadunidense se preocupou em garantir a estabilidade e manutenção do poder de influência sobre a América Latina para impedir uma aproximação soviética na região, considerando, portanto, um território sob a sua influência e com autoridade para implantar projetos e intervenções políticas caso necessário. Dessa forma, desde meados de 1950 o imperialismo norte americano marcou presença na região da América Latina por meio do apoio à implementação de golpes de Estado e regimes ditatoriais militares sob o pretexto de segurança nacional — narrativa construída tanto para se referir à segurança regional da América Latina no contexto da Guerra Fria e também para o seu território nacional — ocasionando violência, perseguição política e uma clara interferência externa na soberania estatal destes países. 

Nesse contexto, as relações dos Estados Unidos com a Venezuela também expressam esta narrativa construída pelos Estados Unidos de que a região da América Latina pertence a sua zona de influência política e, consequentemente, deve estar de acordo com os seus objetivos políticos e interesses econômicos. Portanto, desde a tentativa falha do país em realizar um golpe de Estado na Venezuela em 2002, a política externa norte-americana objetiva desestabilizar e destituir o regime chavista na região por meio de tentativas de interferências, mobilizações militares e declarações oficiais do governo. 

A partir deste breve levantamento histórico da relação entre os dois países, se torna válido uma reflexão sobre o interesse da Casa Branca com as recentes mobilizações das forças militares do país na região do Caribe em direção à Venezuela. Outrossim, também é pertinente o questionamento se esta movimentação militar estadunidense representa uma operação de segurança de combate  ao narcotráfico na região ou se representa uma nova tentativa de intervenção política no país. 

Interesse dos Estados Unidos nas operações militares na região

A recente presença das forças armadas dos Estados Unidos no Caribe representa uma das maiores mobilizações militares do país na região desde a sua invasão ao Panamá em 1989. Ademais, a retomada à base militar dos Estados Unidos em Porto Rico — território não incorporado dos Estados Unidos mas sob a sua influência política — com a presença de aeronaves, caças, navios e demais projeções de força, transparecem uma preparação militar de grande porte que poderia ser utilizada para outros fins além de operações de combate ao narcotráfico. 

Estas operações que ocorrem desde janeiro passaram a abordar e deflagrar fogo contra navios e embarcações venezuelanas em águas internacionais sob o pretexto de segurança, discurso de combate ao narcotráfico. Entretanto, ataques deste porte em águas internacionais representam um crime pelo Direito Internacional Público, sem legitimidade jurídica e política para implementação destes atos. Entretanto, o alvo principal das operações ainda aparenta ser o governo venezuelano. 

No mês de novembro de 2025 o governo estadunidense incluiu organizações venezuelanas na lista de grupos terroristas e passaram a ser os alvos iniciais e pretexto das operações militares deflagradas na região. O governo acusa o grupo Cartel de los Soles como um grupo de narcotráfico de terrorismo e tráfico de drogas, comandado por Nicolar Maduro. Nessa conjuntura, a classificação legitima — perante a legislação nacional dos Estados Unidos — a abater embarcações e grupos que possuem ligação com o Cartel de los Soles e com Maduro sob o pretexto de segurança. O governo Maduro, em contrapartida, acusa as operações militares de tentar desestabilizar e destituir o governo vigente sob o pretexto de guerra contra as drogas e ao narcotráfico. 

Apesar de acusações oficiais sobre o envolvimento do governo Maduro com o narcotráfico e o crescimento destes grupos no país, não há confirmações claras deste real envolvimento do presidente nas operações de narcotráfico na região. Assim sendo, as investidas militares nesta operação do “Lança Sul” podem representar também uma tentativa de desestabilizar o governo de Maduro e realizar uma nova tentativa de intervenção política no país. Ademais, a Venezuela possui uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, o que a torna uma região geopoliticamente importante para a economia política internacional do século XXI. Assim sendo, manter relações políticas e comerciais com um governo parceiro dos Estados Unidos na Venezuela seria um elemento importante para a política externa estadunidense, uma vez que o campo petrolífero representa um setor de interesse fundamental para o país. 

O recente Nobel da Paz concedido a Maria Corina Machado em 2025 — líder da oposição política venezuelana — e a sua dedicatória do prêmio a Donald Trump, remetem a uma possível aproximação política com o governo estadunidense. Também durante o mês do Novembro — mesmo mês da inclusão do grupo Cartel de los Soles como terroristas do narcotráficos supostamente comandados por Nicolás Maduro — Maria Corina lançou um Manifesto da Liberdade remetendo a uma reconstrução política do país após Maduro, confirmando que o fim da era chavista na Venezuela está próximo do fim. 

Destarte, há uma linha tênue sobre a mobilização militar dos Estados Unidos na região para ser utilizada para o combate ao narcotráfico no território do Caribe próximo à Venezuela, e a construção desta narrativa de segurança como novo pretexto para realizar uma nova tentativa de intervenção política no país. A reação do governo venezuelano neste contexto se concentra em mobilizar suas forças armadas, sua população e demais Estados parceiros para projetar uma estratégia militar caso haja um cenário futuro em que o país seja invadido pelas forças estadunidenses sob o pretexto de segurança e guerra às drogas. 

Considerando os aspectos militares, os Estados Unidos possuem projeção de força e posicionamento militar na região necessários para uma invasão terrestre à Venezuela. Ainda no final do mês de novembro de 2025, Donald Trump confirmou que um ataque terrestre ao país estaria próximo, reforçando as tensões na região e a retórica da tentativa de intervenção no país. Embora considerando aspectos diplomáticos desta relação, o discurso propagado por Donald Trump e as recentes operações militares possam remeter somente a um constrangimento e pressão para renúncia de Maduro, a forte presença militar e mobilização de guerra na região aparentam ser uma preparação militar para uma possível invasão ao país. 

Assim sendo, o acompanhamento sobre os desdobramentos políticos e militares na região são importantes para resguardar a autonomia política da América Latina, que desde os anos de 1950 passou por intervenções políticas dos Estados Unidos para garantir a sua influência e controle na região. Seria então a mesma política externa imperialista norte-americana na região? A recente dinâmica militar, a repercussão política e o histórico de intervenções externas no território indicam o interesse geopolítico dos Estados Unidos que ultrapassa a retórica da guerra contra o narcotráfico na região. 

Referências: 

BUGIATO, Caio; BERRINGER, Tatiana. Cooperação e conflito imperialistas: um debate teórico secular. Revista de Estudos do Sul Global, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 64-74, mar. 2021. Quadrimestral.

CNN. Trump sugere ataques contra cartéis da Venezuela por terra “muito em breve. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/trump-sugere-ataques-contra-carteis-da-venezuela-por-terra-muito-em-breve/. Acesso em: 29 nov. 2025.

G1. Governo Trump inclui Cartel de los Soles, que diz ser liderado por Nicolás Maduro, em lista de grupos terroristas. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/24/eua-cartel-de-los-soles-grupo-terrorista.ghtml. Acesso em: 28 nov. 2025.

SOFIA, Júlia. María Corina lança manifesto para Venezuela pós-Maduro e fala em ‘fim da era chavista’ Leia mais em: https://veja.abril.com.br/mundo/maria-corina-lanca-manifesto-para-venezuela-pos-maduro-e-fala-em-fim-da-era-chavista/. 2025. Elaborada por Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/maria-corina-lanca-manifesto-para-venezuela-pos-maduro-e-fala-em-fim-da-era-chavista/. Acesso em: 28 nov. 2025.

THE War on Democracy. Direção de Christopher Martin e John Pilger. Reino Unido: Youngheart Entertainment Granada Productions, 2007. (93 min.), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IkMut5f4tw0. Acesso em: 13 nov. 2025.