Meu avô materno, homem dotado de um conhecimento histórico ímpar e curiosidade afiada sobre assuntos de política doméstica e global, iniciava quase todos os nossos encontros com o mesmo aviso: era preciso ter cuidado ao “criticar os militares”. As aspas nunca foram gratuitas. Minhas críticas, desde cedo, eram dirigidas à ditadura militar e às práticas associadas a ela, não às Forças Armadas enquanto instituição. Ainda assim, o alerta sempre vinha.
Enquanto outros membros da família, da mesma geração do meu avô, deixavam escapar uma nostalgia mal disfarçada do período autoritário, ele se mostrava desconfiado, quase temeroso. Vivíamos, então, o início do governo Dilma, em um Brasil formalmente democrático e que, à época, parecia caminhar para se tornar cada vez mais democrático. Mesmo assim, aquelas reações tão distintas, a saudade de uns, o medo do outro, não soavam como resquícios distantes de um passado encerrado. Eram, na verdade, manifestações de um conflito político ainda vivo.
Naquele momento, eu não era capaz de compreender a profundidade das marcas deixadas pela experiência ditatorial. Talvez, mesmo hoje, ainda não seja plenamente. Tampouco conseguia articular os mecanismos que explicam por que essas marcas persistem, se fortalecem e atravessam décadas. Muito menos era capaz de prever como elas se transformariam, anos depois, em votos e apoio popular a políticos abertamente perigosos para a democracia. Essa compreensão só veio com o tempo.
Esta coluna é sobre isso: os efeitos do passado ditatorial no presente democrático. Mais especificamente, sobre como valores, visões de mundo e escolhas eleitorais são moldados em pessoas que viveram a infância sob a ditadura e a vida adulta sob a democracia. É também uma forma de reconhecer que, como quase sempre, meu avô estava certo: o passado não é tão passado como se imagina.
Os mecanismos da herança autoritária
Segundo a cientista política Anja Neundorf e seus coautores, existem quatro mecanismos principais pelos quais um passado autocrático continua a influenciar o comportamento político e eleitoral em regimes democráticos.
O primeiro é a internalização de normas. Trata-se do processo pelo qual indivíduos absorvem padrões de comportamento dominantes, inclusive comportamento político, sobretudo quando expostos a eles durante os anos formativos. Por meio da imitação dos gestos dos pais e da comunidade, da normalização da autoridade e, em alguns casos, da doutrinação explícita, quem teve a infância sob uma ditadura tende a reproduzir atitudes e valores daquele período muito depois de seu fim formal.
Mas a vivência democrática na vida adulta não deveria contrabalançar esse efeito? Em geral, não. Valores e crenças formados na infância enfrentam menos resistência cognitiva do que aqueles adquiridos mais tarde, quando a mente já dispõe de repertório crítico mais amplo. Além disso, outros mecanismos entram em ação, especialmente o da consistência cognitiva.
A consistência cognitiva, explicam os autores, sugere que, uma vez adotadas crenças centrais sobre autoridade política e formas de governo, os indivíduos tendem a resistir a informações que as contradigam. A revisão dessas crenças só ocorre quando experiências posteriores de socialização são fortes o suficiente para provocar ruptura. Caso contrário, o indivíduo filtra a realidade de modo a preservar aquilo que já acredita.
Quando experiências posteriores, crises econômicas, insegurança social, discursos políticos, acabam por reforçar visões autoritárias, entra em funcionamento o terceiro mecanismo: o reforço contextual. Nesse caso, padrões de pensamento e comportamento típicos do período autocrático são reativados e atualizados, incluindo opiniões políticas e preferências eleitorais. Vale lembrar que esse reforço pode ocorrer em qualquer esfera de socialização: família, escola, comunidade, cidade ou mesmo no plano nacional.
Esses três mecanismos explicam o porque é tão comum que fatos sejam ignorados quando desafiam uma visão de mundo pré-concebida, e recebidos com entusiasmo quando a reforçam. É claro que um efeito parecido ocorre mesmo em democracias polarizadas politicamente, mas não na mesma intensidade.
O quarto mecanismo diz respeito às expectativas materiais. Experiências de segurança ou privação material sob regimes autoritários moldam, mais tarde, a forma como indivíduos avaliam o desempenho das democracias. Se o passado é lembrado como um período de estabilidade, ainda que ilusória ou seletiva, frustrações no presente democrático tendem a ser interpretadas como prova de fracasso do regime.
Há ainda um quinto fator, menos explícito, mas igualmente poderoso: a tendência humana de lembrar o passado de forma mais positiva do que ele foi. Trata-se de um mecanismo psíquico de autopreservação, que acaba por fundir a memória do regime ditatorial com a lembrança afetiva da infância. O resultado é uma idealização do autoritarismo, não apesar da infância, mas por causa dela.
O passado que estrutura o presente
O passado, porém, não atua apenas sobre indivíduos. Ele também se mantém presente por vias institucionais. É aqui que entram o path dependency e os resquícios autoritários incorporados às estruturas do Estado.
Como argumenta Paul Pierson em seu artigo seminal dos anos 2000, decisões tomadas em contextos autoritários limitam as opções disponíveis no presente, mesmo quando essas opções já não são as mais adequadas a um regime democrático. Uma vez iniciado determinado caminho institucional, mudar de rota torna-se custoso, seja por hábitos acumulados, investimentos feitos, regras cristalizadas ou simplesmente porque a mudança ocorre de forma incremental.
Instituições não são reinventadas do zero: elas se transformam lentamente, passo a passo, a partir de estruturas anteriores. Quanto mais autoritário o ponto de partida, maior o número de incrementos necessários, e maior o tempo, para que a democratização se complete. Assim, mesmo em democracias formais, traços do passado continuam a moldar o presente.
Será o passado incontornável?
A boa notícia é que não. O passado pesa, mas não condena. A própria pesquisa que identifica os efeitos duradouros da experiência autoritária também aponta caminhos para enfraquecê-los.
Estudos conduzidos por Anja Neundorf e outros cientistas políticos mostram que a socialização política não termina na infância, ela apenas se torna mais difícil. Em outras palavras, valores autoritários podem ser desaprendidos, desde que a democracia seja capaz de oferecer experiências suficientemente fortes para competir com aquelas vividas no passado.
Isso passa, antes de tudo, por políticas públicas. Educação cívica consistente, uma noção de democracia que seja mais que apenas eleições e processos, ensino de história que não relativize a violência do autoritarismo e políticas de memória, como comissões da verdade, museus e reparações simbólicas, não são luxos identitários. São instrumentos democráticos de longo prazo. Onde o Estado opta pelo esquecimento, a nostalgia encontra terreno fértil.
Há também um fator material decisivo. Democracias que falham em entregar segurança econômica e previsibilidade acabam, involuntariamente, reforçando o quarto mecanismo descrito por Neundorf: a comparação enviesada entre um passado lembrado como estável e um presente vivido como caótico. Combater desigualdade, reduzir vulnerabilidades e oferecer proteção social não é apenas política econômica: é política democrática.
Por fim, há o elemento mais difícil de enfrentar: o institucional. Como argumenta Paul Pierson, democracias herdaram estruturas moldadas sob o autoritarismo e, muitas vezes, seguem operando dentro desses limites. Reformar instituições é lento, custoso e politicamente arriscado, mas não fazê-lo significa aceitar que o passado continue ditando as regras do presente.
Nada disso produz efeitos imediatos. Democracia não oferece atalhos, nem catarse. Ela exige repetição, paciência e um olhar maduro e consciente sobre o que a democracia pode ou não oferecer. Talvez seja exatamente por isso que meu avô desconfiava tanto da nostalgia: ele sabia, por experiência própria, que o autoritarismo promete ordem rápida, respostas simples para problemas complexos, mas inevitavelmente desaba, e com isso cobra caro.
Referências
Checkel, Jeffrey T. 2005. “International Institutions and Socialization in Europe: Introduction and Framework.” International Organization 59 (4): 801–26.
Neundorf, Anja, Natasha Ezrow, Johannes Gerschewski, Roman-Gabriel Olar, and Rosalind Shorrocks. 2017. “The Legacy of Authoritarian Regimes on Democratic Citizenship: A Global Analysis of Authoritarian Indoctrination and Repression.” Working Paper, University of Nottingham.
Neundorf, Anja, Johannes Gerschewski, and Roya G. Olar. 2020. “How Do Inclusionary and Exclusionary Autocracies Affect Ordinary People?” Comparative Political Studies 53(12): 1890-1925.
Neundorf, Anja, Steven Finkel, Aykut Öztürk, and Ericka Rascón Ramírez. 2025. Promoting Democracy Online: Evidence from a Cross‑National Experiment. OSF Preprints.
Pierson, Paul. 2000. “Increasing Returns, Path Dependence, and the Study of Politics.” American Political Science Review. 94 (2): 251–267.
