A inteligência artificial como atualização da maquinaria capitalista descrita por Marx

Sob a promessa de inovação, sistemas algorítmicos aprofundam formas conhecidas de dominação e exploração do trabalho.

A inteligência artificial não inaugura uma nova etapa histórica do capitalismo. Ela atualiza, em chave digital, a função que Marx atribuiu às máquinas: reorganizar o trabalho para ampliar a extração de valor. Se a maquinaria industrial disciplinou o trabalho manual, a IA comanda o trabalho cognitivo. Não se trata de ruptura, mas de continuidade histórica. A automação algorítmica amplia a subsunção do trabalho ao capital, mediada por dados, plataformas e sistemas de predição.

A ascensão da inteligência artificial pode ser interpretada como uma continuidade das funções descritas por Marx para as máquinas. Assim como as máquinas industriais transformaram o trabalho manual, a IA impacta o trabalho imaterial e cognitivo no capitalismo. Matteo Pasquinelli reflete sobre o impacto histórico da tecnologia:

“A Questão das Máquinas foi, antes de tudo, uma reação da classe trabalhadora e uma expressão de sua demanda por controle e propriedade sobre o progresso tecnológico.”(PASQUINELLI, 2023, p. 80).

A IA automatiza processos e captura dados para transformar atividades humanas em fontes de valor econômico. Tiziana Terranova (2020) destaca que o trabalho digital, mediado por plataformas tecnológicas, intensifica a exploração, ao mesmo tempo em que disfarça suas formas mais visíveis. Essa reorganização do trabalho reflete a lógica descrita por Marx:

“Uma vez incorporado ao processo de produção do capital, o meio de trabalho passa por diferentes metamorfoses, cuja culminação é a máquina, ou melhor, um sistema automático de maquinaria… Esse sistema produz mais-valia.”(MARX, 2011, p. 692).

A IA, nesse cenário, reflete e amplifica os mesmos processos de exploração descritos por Marx sob uma roupagem digital, criando desafios inéditos para o trabalho no capitalismo informacional.

Na fase atual do capitalismo, o que Marx descreveu como subsunção do trabalho vivo ao capital encontra sua atualização nos sistemas de extração algorítmica operados por plataformas digitais. O capital fixo também está presente como infraestrutura computacional e informações em rede, mobilizadas não apenas para mediar o trabalho no meio físico, mas para capturar subjetividades, atenção, emoções, dados e comportamentos. Portanto, a nova máquina continua sendo vetor de organização da vida, reafirmando a função da técnica como instrumento de comando sobre o trabalho e o tempo.

Essa dinâmica remete à formulação de Marx (1988, p. 434), segundo a qual a grande indústria estabelece um sistema automático posto em movimento por um autômato, força motriz que se move por si mesma, que consiste em numerosos órgãos mecânicos e intelectuais, de tal modo que o trabalhador é relegado à função de simples vigilância e comando. Não se trata apenas da automação da produção, mas da automação da mediação: algoritmos filtram, ranqueiam e distribuem fluxos de informações e valor.

Vivemos sob um regime de extrativismo de dados, no qual informações pessoais, afetos e interações sociais são minerados como recurso bruto para a acumulação de capital. Essa operação reorganiza práticas sob a forma de capitalização algorítmica. Isto é, uma lógica em que o acesso a serviços essenciais depende da submissão a sistemas opacos de vigilância, ranqueamento e predição (MOROZOV, 2018, p. 177–178).

Essa configuração não expressa um “pós-capitalismo”, mas uma mutação interna do próprio capitalismo, que internaliza mecanismos de dominação em ambientes tecnicamente sofisticados e socialmente naturalizados. Esse sistema emergente é caracterizado por grandes empresas de tecnologia. Não participar implica exclusão — uma forma de coerção invisível e efetiva. Nesse contexto, as Big Techs não apenas oferecem serviços; elas se converteram na infraestrutura sobre a qual se reorganizam as formas de vida. Esse novo regime técnico dá forma ao Estado de bem-estar digital privatizado: uma arquitetura algorítmica que substitui parcialmente as funções do Estado, como educação, saúde e segurança, por mediações comerciais baseadas na captura de dados (Morozov, 2018). 

A nova maquinaria, algorítmica, longe de ser apenas um aparato técnico, constitui uma infraestrutura de subjetivação. Ela organiza e monetiza comportamentos, modulando decisões a partir de lógicas capitalistas de acumulação.

Nesse sentido, a força produtiva da sociedade, também é composta pela capacidade dos sistemas técnicos de capturar e organizar o tempo, o corpo e a atenção — ou seja, pelo grau de integração do capital fixo à vida comum. Trata-se de um regime tecnosocial no qual a mediação algorítmica se torna condição estruturante da existência, reafirmando a centralidade da maquinaria como operador histórico do capital. No capitalismo informacional, as máquinas evoluíram para formas mais sofisticadas, mas os princípios descritos por Marx permanecem aplicáveis. A IA, assim como as máquinas industriais, amplifica a produtividade e reorganiza o trabalho. No entanto, sua principal contribuição é o controle e a extração de valor por meio da captura e processamento de dados.

Assim como as máquinas descritas por Marx, a IA não gera novo valor diretamente. Ela apenas intensifica a exploração do trabalho humano ao expandir as capacidades de produção e gestão. No capitalismo informacional, o trabalhador é frequentemente invisibilizado, enquanto a tecnologia é promovida como a fonte primária de inovação e valor. Essa narrativa oculta o papel central do trabalho humano e perpetua as dinâmicas de exploração e alienação.

As análises de Marx sobre máquinas, trabalho e produção de valor fornecem um arcabouço teórico robusto para entender as dinâmicas contemporâneas do capitalismo informacional e o impacto da IA. Embora as tecnologias modernas apresentem novas configurações, os princípios subjacentes da exploração, alienação e transferência de valor permanecem inalterados.

A inteligência artificial não cria valor. Assim como a maquinaria analisada por Marx, ela apenas intensifica a exploração do trabalho humano ao ampliar capacidades de controle, gestão e extração. No capitalismo informacional, o trabalho é ocultado sob a narrativa da inovação tecnológica, enquanto dados, atenção e comportamento são convertidos em fontes de acumulação. As categorias marxianas seguem válidas porque a lógica permanece a mesma: a técnica não emancipa por si. Ela opera como instrumento histórico de comando, reorganizando o trabalho e a vida segundo as exigências do capital.

Referências:

  • MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. 12. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. v. 1.
  • MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018
  • PASQUINELLI, Matteo. The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence. London; New York: Verso, 2023.
  • TERRANOVA, Tiziana. Free Labor: Producing Culture for the Digital Economy. Social Text, v. 18, n. 2, p. 33-58, Summer 2000.