Recentemente publiquei uma análise de conjuntura internacional para o Österreichisches Institut für Internationale Politik, em que verso sobre a possibilidade de uma autocracia proveniente não do agigantamento do executivo, nem de um golpe militar, ou mesmo de uma revolução civil, mas sim da captura do Estado pelas Big Techs, um grupo de hiper-elites econômicas, majoritariamente americanas, que controla um número alarmante de funções outrora estatais em múltiplos países. A reflexão lá conduzida foi frutífera, e me fez pensar nas implicações para o Brasil do mundo pós-democrático desenhado por Peter Thiel, que em 2010 já imaginava que o mundo poderia ser reestruturado por tecnologia, sem precisar de votos. É dessa reflexão que nasce a presente coluna.
Nos últimos vinte anos, a lógica do Vale do Silício se infiltrou na máquina do Estado americano de forma inédita. O que começou como terceirização e parcerias público-privadas se transformou em dependência estrutural: plataformas privadas não são mais apenas prestadoras de serviço, mas infraestrutura crítica do governo, da inteligência à execução de políticas. O Vale do Silício passou a oferecer não apenas ferramentas, mas o próprio motor de operação do Estado, tornando-se indispensável para funções essenciais.
O fenômeno pode ser descrito como um loop de privatização e dependência. O governo terceiriza funções complexas para empresas tecnológicas; o que gera dependência; a dependência cria influência; e a influência facilita novas terceirizações. Ao longo do tempo, esse ciclo reforça o poder corporativo, enquanto reduz a capacidade do Estado de agir de forma independente. Hoje, empresas como Amazon, Google, Microsoft, Meta e SpaceX não apenas moldam políticas públicas, mas as implementam. Elas definem como dados são processados, como decisões estratégicas são tomadas e, em alguns casos, quais ações o próprio Estado pode executar.
A infraestrutura como poder
A diferença central entre exemplos históricos de capturas parciais do Estado Americano e os eventos presentes é a captura infraestrutural. SpaceX, por exemplo, não é apenas uma fornecedora de foguetes, mas em diversos aspectos substitui a NASA. Desde que a Space Shuttle foi aposentada, o transporte de astronautas e suprimentos para a Estação Espacial Internacional depende de cápsulas e foguetes privados. Em 2024, a SpaceX lançou 83% de todos os foguetes globais, e seus satélites Starlink representam 65% da constelação operacional. O poder de Elon Musk – proprietário e CEO da SpaceX – sobre o acesso ao espaço tornou-se superior ao de todos os governos do planeta, e com isso cada vez mais estratégico: ameaças de interromper lançamentos podem impactar missões governamentais, exercício militar e exploração científica, criando um desequilíbrio que historicamente seria impensável.
No setor financeiro, o GENIUS Act e leis relacionadas transformam stable coins privadas em moedas operacionais, transferindo riscos ao público enquanto os lucros permanecem privados. Aqui, a dependência estatal de plataformas financeiras privadas se traduz em feudalismo monetário: o Estado delega funções centrais da soberania monetária, algo que até então era monopólio de bancos centrais pelo mundo, altamente regulados e dependentes de decisões governamentais, a corporações, em troca de promessas de eficiência ou inovação.
Na nuvem e na inteligência artificial, Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud dominam a infraestrutura crítica. O governo dos EUA gasta bilhões de dólares anuais nessas plataformas, com contratos que tornam impossível a rápida migração ou substituição — o chamado vendor lock-in. Serviços essenciais, da análise de inteligência à gestão de benefícios sociais, dependem dessas plataformas, criando uma influência difícil de regulamentar.
Se a nuvem representa os músculos do Estado, a inteligência artificial é o cérebro. Ferramentas de AI interpretam dados, analisam risco, priorizam decisões e até predizem comportamentos, substituindo funções cognitivas antes exclusivamente estatais. O resultado é que a Big Tech passa a mediar a percepção e o julgamento do Estado, não apenas a execução de políticas. O risco aqui é epistemológico: governos deixam de possuir quadros interpretativos independentes, internalizando a visão corporativa do mundo como base para ação pública. Que fique claro, decisões importantes sobre políticas públicas, economia, e demais agendas que afetam a vida concreta dos cidadãos passam a ser tomadas por máquinas, usando algoritmos imprevisíveis para humanos, dado seu próprio design.
Exemplos concretos abundam. O Departamento de Imigração depende de plataformas de fusão de dados, IA e biometria para gerenciar deportações em massa; agências fiscais experimentam modelos de triagem automatizados; serviços de saúde usam algoritmos privados para decidir prioridades e alocar recursos. Em cada caso, a dependência não é apenas tecnológica: é estrutural e cognitiva.
O impacto não é apenas interno. Quando funções estratégicas migram para o setor privado, a democracia perde controle operacional. Eleições e mandatos políticos pressupõem que o Estado tenha capacidade de ação; quando a execução depende de empresas externas, a responsabilidade se dilui. Para o Brasil, isso significa vulnerabilidade estratégica: alianças baseadas em confiança política podem ser minadas por interesses privados que não coincidem com objetivos de soberania ou segurança.
Além disso, a Big Tech já atua para moldar políticas brasileiras, seja via lobby, financiamento de think tanks, participação em conselhos consultivos ou controle de plataformas digitais que estruturam o debate público. A dependência tecnológica de infraestruturas americanas — nuvem, IA, comunicação — aumenta a exposição a pressões externas e reduz a autonomia de decisão.
Caminhos para a resiliência
A resposta brasileira passa pela soberania digital: desenvolver infraestrutura própria, standards abertos, capacidades de cloud, dados e inteligência artificial. Não se trata de autarquia, mas de resiliência estratégica. Países como Dinamarca mostram caminhos possíveis: migrar sistemas administrativos para soluções open source para reduzir a dependência de fornecedores privados estrangeiros.
É claro que a capacidade brasileira nesse âmbito é inferior à americana, e a competição no mercado tecnológico é impensável, mas esse não é o proposto. Ao invés de competição pela hegemonia tecnológica, o que proponho é centralizar os esforços na produção de tecnologias importantes para a soberania tecnológica brasileira, de forma tal que se reduza a dependência do país com relação aos Estados Unidos—uma potência cada vez mais errática e imprevisível. O ponto é ainda mais emergencial dadas as recentes manifestações belicosas dos EUA com relação à América Latina—do corolário Trump à invasão da Venezuela.
Nos Estados Unidos, o ciclo continua. Sem intervenção estratégica, a privatização-dependência tende a se aprofundar, fortalecendo o poder corporativo sobre funções essenciais do Estado. Na prática, isso significa que a democracia opera sob condições de dependência tecnológica, enquanto as empresas privadas moldam, implementam e interpretam políticas públicas.
O desafio é claro: a próxima fronteira da soberania não é petróleo ou território, mas o controle sobre a infraestrutura cognitiva do Estado. Quem detiver nuvens, dados e algoritmos, deterá a capacidade de ver, decidir e agir — uma forma inédita de poder que transforma Big Tech americanas em soberanas globais.
Referências
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