Avanços científicos e biotecnológicos têm transformado nossa capacidade de intervir na vida humana e, com isso, a promessa de erradicar doenças e eliminar o sofrimento torna-se, inegavelmente, sedutora. Entretanto, por trás dessa promessa, surge uma problemática na qual o encontro da ciência com discursos ideológicos perigosos podem resgatar um passado obscuro, mas, surpreendentemente, não tão distante. A eugenia, antes expressa em leis de esterilização forçada e em ideais de “raça pura” sustentados pelo racismo científico, não desapareceu. Essa transformou-se e encontrou novos espaços nos laboratórios, nos consultórios e na retórica política disfarçada de defesa da pátria.
No início do século XX, programas de esterilização forçada nos Estados Unidos atingiram milhares de pessoas consideradas “indesejáveis”: pobres, imigrantes, pessoas com deficiência e mulheres negras. O Brasil também teve seus ecos da “purificação racial”, em que intelectuais e políticas de higiene social, principalmente nas décadas de 1920 e 1930, endossavam o branqueamento da população e o controle reprodutivo como solução para o suposto atraso nacional.
A Ciência da “Perfeição” e o Desafio Ético
A medicina nos oferece a possibilidade de corrigir falhas genéticas, mas a linha entre a cura e a eliminação torna-se tênue quando se trata de condições que não são doenças, mas variações da existência humana. O argumento de evitar o sofrimento é poderoso e carrega com si uma grande responsabilização, mas ele nos força a questionar: será que o “problema” está nas pessoas com deficiência, ou na falta de acessibilidade e acolhimento da sociedade?
No cerne dessa discussão tem-se a teoria da deficiência social. Essa abordagem sociológica, encabeçada por Michael Oliver, defende que a deficiência é uma construção social, e não uma falha biológica do indivíduo. Por que não investimos em tecnologias e infraestrutura para que pessoas com essas condições possam ter vidas plenas, em vez de focar na erradicação até mesmo de seus genes? A tecnologia existe. Temos sim, a capacidade de contornar muitas adversidades, mas a decisão de não o fazer, em muitos casos, é política e social, e não científica. Em paralelo a isso, temos o avanço da tecnologia produtiva e da fronteira tecnológica, ao mesmo tempo em que as jornadas de trabalho para as classes não dominantes continuam exaustivas. O ponto central dessas questões reside nas forças capitalistas e na busca incessante por lucro e dominação.
O perigo se aprofunda com a tecnologia CRISPR, que fornece a capacidade de editar o DNA com precisão cirúrgica e abre portas para infinitas possibilidades, mas também para dilemas sem precedentes. Quem decide o que é um “gene ruim” ou uma falha genética? A ciência, sem o devido controle ético, pode cair no abismo de uma eugenia moderna atrelada a outros discursos políticos.
A Estética da “Pureza” e o Apito de Cachorro no Discurso Político
Paralelamente aos avanços médicos, a retórica da “superioridade genética” ressurge, mas com roupagens novas. O neonazismo e os discursos de supremacia racial, que deveriam ter sido enterrados com o fim da Segunda Guerra Mundial, ganham força em meio à ascensão da extrema-direita. Em vez de bandeiras com suásticas, a mensagem agora é mais sutil, usada em o que chamamos de “apito de cachorro” (dog whistle).
Um apito de cachorro é uma mensagem codificada, que parece inocente para o público em geral, mas que carrega um significado específico e político para um grupo particular. A recente campanha da American Eagle com a atriz Sydney Sweeney é um exemplo bastante gráfico desse tipo de mensagem. A campanha gerou controvérsias, com especialistas a classificando como “embutida de eugenia” devido à escolha da atriz, que é uma mulher branca, loira e de olhos claros. A reação republicana de “não pode mais ser loira e bonita?” é exatamente o que a retórica do apito de cachorro busca, que é desviar a crítica para uma discussão superficial sobre beleza, enquanto a mensagem ideológica se fortalece na base e ganha espaço na sociedade.
Para o supremacista branco, a imagem da atriz representa beleza atrelada à validação de um ideal genético “bom” e “puro”. Adicionalmente, a filiação de Sydney Sweeney ao Partido Republicano de Donald Trump fornece contexto sobre sua posição política em relação a determinados assuntos, chamando atenção de líderes da extrema-direita norte-americana. Em um momento anterior à propaganda, o próprio Donald Trump chegou a afirmar em entrevista que imigrantes cometem crimes porque “está nos genes deles”, uma declaração direta que evoca a lógica do racismo científico em sua mais pura forma. Em meio a isso, a polêmica da American Eagle, embora com tom negativo, impulsionou as ações da empresa em 10%, adicionando cerca de US$ 200 milhões ao valor do grupo, um número que escancara como o discurso eugenista pode ser lucrativo quando associados a determinados grupos extremistas.
A Eugenia de Classe e o Discurso Ambiental
Além da ciência e da estética, a eugenia encontra um terreno fértil na própria estrutura de classes. A pressão econômica sobre a classe trabalhadora, com jornadas exaustivas e salários que não refletem sua produtividade, torna a maternidade e a paternidade uma decisão extremamente custosa. Essa realidade força muitos casais a optar por não ter filhos, submetendo-os a procedimentos e medicamentos anticoncepcionais. É uma “escolha” induzida pela lógica do capital, que dificulta a reprodução da classe trabalhadora, negando a possibilidade destas pessoas deixarem descendentes.
A lógica neoliberal de individualização da culpa (a responsabilidade individual pela fertilidade) desvia a atenção das falhas sistêmicas do capitalismo, como a exploração da mão de obra e a desigualdade de renda. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade é condicionada a endeusar bilionários como Elon Musk, que ostenta mais de dez herdeiros. O contraste expõe uma forma silenciosa de eugenia, em uma seleção baseada em renda, onde a reprodução é incentivada para os mais ricos, enquanto é desestimulada para os mais pobres.
O discurso eugenista se manifesta aqui também através da ideia de que o “mal do planeta são os homens” e “só o fim da humanidade melhorará a natureza”. Esse argumento, que se utiliza de uma leitura rasa da realidade, desresponsabiliza o sistema capitalista e os bilionários, que emitem a maior fração dos poluentes para o lucro. A culpa, convenientemente, é atribuída a indivíduos comuns, e não aos verdadeiros culpados, que são os detentores dos meios de produção nas grandes indústrias e big-techs.
Os discursos aqui apresentados compartilham uma lógica de seleção, eliminação e busca por um ideal. Em vez de apenas perseguir um ideal próprio, a ciência acaba muitas vezes convertida em instrumento, servindo à política na construção de identidades e à economia na imposição de ideais de produtividade. A linha que divide esses mundos é tênue e cada vez mais difícil de ser vista, e é dentro desses espectros que a tecnologia que pode ser usada para reforçar preconceitos raciais, estéticos e de classe, se não houver forças que se entrem em contraposição às ideias que ressurgem.
Onde Traçamos a Linha?
Estamos em um momento crucial da história no qual a tecnologia genética oferece um potencial imenso para avanços exponenciais, ao mesmo tempo em que abre brechas para extremismos e violações de direitos humanos. A questão central não é se devemos ou não usar a ciência, mas sim como garantimos que ela seja de acesso a todos e não apenas a um ideal ilógico imposto por ideologias extremamente perigosas. Portanto, a vigilância contra o retorno da eugenia não pode se restringir a um único campo, sendo necessário questionar os discursos médicos que invisibilizam a deficiência, a retórica política que usa símbolos sutis para propagar a supremacia e a lógica econômica que transforma a reprodução em privilégio.
Cabe o questionamento sobre até que ponto deixaremos ideologias como essa adentrarem na sociedade de forma normalizada, bem como até quando continuarão sendo eleitas a cargos importantes ou apareçam na mídia pessoas que reforçam ideais de eugenia. Isso implica enfrentar estruturas de poder que naturalizam hierarquias sociais e biológicas, e reivindicar políticas que traduzam compromisso bioético em práticas concretas. Enfrentar a eugenia requer mais do que regulação científica – implica também questionar as bases políticas e econômicas que a sustentam.
REFERÊNCIAS
OLIVER, Michael. The Politics of Disablement: A Sociological Approach. 1. ed. Londres: Macmillan Education, 1990. 152 p. (Critical Texts in Social Work and the Welfare State). DOI: 10.1007/978-1-349-20895-1. ISBN 978-1-349-20895-1.
https://www.politico.com/news/2024/10/07/trump-immigrants-crime-00182702