Por que os drones pequenos importam e por que o Brasil não pode perder (ainda mais) o timing

Desde que a humanidade alcançou os céus com os aviões, o risco de perder pilotos altamente qualificados sempre foi uma questão difícil. Então, desde os últimos anos da Primeira Guerra Mundial, começou-se a pensar e tentar conceber uma aeronave não-tripulada a fim de executar determinados tipos de missões. Apesar dos drones não serem notícia nova, tendo o século XX oferecendo tempo e espaço para testes, à exemplo do uso maciço dos Lightning Bugs durante a Guerra do Vietnã e mais tarde na Guerra do Líbano, foi o início do século XXI e a Guerra Global ao Terror que alçaram os drones a um novo patamar.

A Primeira Era de Drones (2001-2020), esteve centrada na habilidade de distanciar as tropas estadunidenses e aliados do front de batalha e caçar quem eles definiam por terroristas,  ao mesmo tempo em que reduzia o custo humano, que é um detalhe não apenas moral, mas econômico, uma vez que o treinamento de um piloto de caça F-16, por exemplo, além de ser demorado é financeiramente dispendioso. Apesar de alguns apoiadores terem a memória relativamente curta e o Nobel da Paz não ajudar muito, foi durante a gestão de Barack Obama que vimos a primazia dos drones, reforçada pela promessa do então presidente que o emprego dos drones fazia parte de uma “guerra justa, uma guerra travada proporcionalmente, como último recurso e em legítima defesa”, ao mesmo tempo que o distanciamento geográfico trouxe questões essenciais sobre a distinção entre combatentes de não-combatentes. 

Simultaneamente, os quase vinte anos da primeira era de drones trouxe o boom da proliferação, onde nesse período se estima que 113 países e outros 65 atores não-estatais tiveram acesso aos veículos não-tripulados. A Segunda Era de Drones (2020 até o momento) é a virada de chave para a proliferação, ou “democratização” do acesso à tecnologia dos drones. Mas é nesse período que não estamos mais nos referindo aos drones “clássicos” de antes, os drones passaram de grandes aeronaves, em tamanho e peso semelhantes aos veículos tripulados, para veículos menores, e até mesmo mais baratos. 

Fazendo um breve retrospecto, é importante frisar que cada país determina sua classificação de drones, a começar pela nomenclatura. No Brasil, o nome adotado é Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP), mas pela ONU, especificamente o Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento (UNODA) é utilizada a denominação Uncrewed Systems (US), com foco no sistema completo de armas, e Uncrewed Aerial Vehicle (UAV), com foco no veículo em si. Em termos de classificação, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) utiliza uma divisão em três classes, que normalmente é a mais usada na literatura em geral, o que não impede que cada país possa desenvolver sua própria forma de classificação.

Classificação de Drones   –  OTAN

ClasseCategoriaAlcance (km)EmpregoExemplo de Plataforma
Classe III (> 600 kg)HALE / MALE / CombateIlimitado (BLOS)Estratégico / NacionalGlobal Hawk
Classe II (150-600 kg)Tático IntermediárioAté 200 kmTático (Divisão / Brigada)Orlan-10
Classe I (< 150 kg)Pequeno (> 15 kg)Até 50 kmTático (Batalhão / Regimento)Punisher
Mini (< 15 kg)Até 25 kmTático (Companhia / Pelotão)DJI Mavic
Micro (< 66 J – baixo peso)Até 5 kmTático (Pelotão / Esquadrão)FPV / Skyton

Em 2025 quando se menciona drones, o pensamento corre para imaginar os modelos FPV (First-Person View) ou até mesmo os quadricópteros, mas há cerca de 20 anos, a história era bem diferente, e o que tem despertado o constante debate dentro da literatura especializada é o quanto da mudança dos modelos de drones utilizados no campo de batalha se configura como revolucionário, inovador, ambos ou absolutamente nada disso.

Se a Primeira Era de Drones foi marcada pelo distanciamento através do uso de drones Classe 3, como o Global Hawk, os últimos anos tem apresentado uma nova forma de se fazer guerra com os drones, sendo a  Guerra na Ucrânia um exemplo desse modelo disruptivo. Hoje os drones já são mais um dos equipamentos que um soldado pode carregar no seu material, fazendo com que o pequeno equipamento esteja junto com ele nas trincheiras, sendo seus olhos nos céus e um caçador silencioso. Entre alguns fatores, o aspecto da adaptação de plataformas comerciais (principalmente o DJI Mavic da China) e a produção interna de modelos FPV tem permitido esse aumento exponencial em seu emprego pelas tropas no front.

Nesse caso, a Ucrânia tem utilizado o princípio de massa, onde a quantidade tem o propósito de fazer a diferença em um cenário de clara assimetria de poder, ou seja, os drones vem atuando como multiplicadores de força. Antes, missões estratégicas (como bombardeios à centros de infraestrutura) eram realizadas tradicionalmente por drones Classe 3, no entanto, exemplares do Global Hawk podem chegar a custar 130 milhões de dólares, e não é uma perda financeiramente sustentável à longo prazo. Hoje, os drones menores, principalmente os de Classe 1, passaram a ter posição central dos arsenais regulares e também foram integrados ao apoio tático das brigadas no teatro de operações. Como ilustração, podemos tomar como exemplo a “Operação Spider Web”, realizada em 01 de junho de 2025, onde drones FPV formaram um ataque coordenado contra bombardeiros russos Tupolev, estacionados em bases aéreas nas regiões de Ryazan, Chelyabinsk, Murmansk, Kursk e Irkutsk. Apenas 177 desses pequenos drones foram capazes de danificar ou inutilizar aproximadamente 30% da capacidade aérea convencional russa.

Em fevereiro de 2024, o Ministério da Defesa da Ucrânia (Міністерство оборони України) já havia emitido um relatório em seu site apontando a ampliação da base industrial voltada para a produção dos drones, que cresceram de 7 empresas ucranianas produzindo drones em 2022 para mais de 200 em 2024.

A reorganização institucional foi fundamental para esse impulsionamento, e no caso ucraniano, isso se deu a partir do lançamento do programa Army of Drones ainda em 2022. Esse esforço integrou apoio governamental, com o Ministério da Defesa, o Ministério da Transformação Digital, além de investimento em startups e crowdfunding. No mesmo relatório em 2024, segundo o Primeiro Ministro ucraniano Denys Shmyhal, o programa tem a previsão de entrega de 1 milhão de drones às linhas de frente até o fim do ano de 2025.

E POR QUE ISSO IMPORTA PARA O BRASIL?

Por sua vez, no cenário brasileiro, há exemplos de empresas de tecnologia capazes de produzir internamente, como a Nest Design Aerospace, que em março de 2025 apresentou um modelo de drone movido à jato produzido inteiramente no Brasil; e a Xmobots, que já possui o Nauru 1000C ISTAR, de categoria 2, auxiliando o Exército Brasileiro no monitoramento das fronteiras brasileiras. 

É compreensível pensar no caso ucraniano como base de lições e contribuições para outros países, principalmente ao se analisar a articulação entre o que compreendemos da guerra convencional e as possibilidades das inovações tecnológicas, não obstante também seja imprescindível ter planejamento, pensamento estratégico e coordenação institucional.

A mudança de foco na tipologia dos drones empregados no campo de batalha — da ênfase em grandes veículos estratégicos (Classe III) para drones menores, mais baratos, de fácil reposição e com aplicações táticas imediatas (Classe I) — representa uma virada de chave tecnológica que o Brasil não pode ignorar. Se a Primeira Era dos Drones privilegiava poucos países, com acesso a plataformas caras e complexas, a Segunda Era trouxe uma espécie de democratização do poder aéreo. O país que souber adaptar seu aparato militar, sua indústria e sua doutrina à nova realidade pode se inserir num mercado em ascensão ao mesmo tempo que compreende as aplicações desses aparatos no campo de batalha, e o Brasil está em risco de perder (ainda mais) o timing.

Embora haja centros de excelência em pesquisa e inovação tecnológica espalhados pelo país, como os núcleos ligados à EMBRAPII (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e universidades públicas com expertise em engenharia aeronáutica, falta uma política nacional de integração, financiamento e escala. A ausência de um programa de Estado, que possa unir Ministério da Defesa, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e o setor privado, pode nos condenar à obsolescência em um campo importante no contexto das operações militares contemporâneas.

Mas não se trata apenas de guerra. A realidade brasileira apresenta múltiplos contextos nos quais a adoção inteligente e em larga escala de drones Classe 1 e 2 podem gerar impactos significativos em áreas sensíveis da segurança nacional.

Monitoramento ambiental e combate ao desmatamento: drones mini e micro poderiam ser distribuídos a equipes do IBAMA e do Exército em operações na Amazônia Legal, permitindo vigilância persistente e coleta de provas em tempo real.

Controle de fronteiras: com mais de 16 mil km de fronteiras terrestres, muitas delas vulneráveis ao narcotráfico, tráfico de armas e contrabando, o Brasil necessita de sistemas que garantam presença e detecção contínua — algo viável com drones leves operando de forma descentralizada.

Segurança urbana e combate ao crime organizado: drones FPV e micro podem ser utilizados por forças de segurança para reconhecimento de áreas conflagradas, vigilância tática durante operações e coleta de inteligência em zonas urbanas de difícil acesso.

Defesa Civil e missões humanitárias: equipamentos de pequeno porte também podem ser cruciais para localizar vítimas em deslizamentos, mapear áreas alagadas e entregar suprimentos em regiões isoladas. Um exemplo disso foi a utilização desses drones na tragédia do Rio Grande do Sul em 2024.

Essa pluralidade de aplicações reforça a ideia de que não se trata apenas de uma agenda militar, mas de uma agenda estratégica, transversal e urgente. A capacidade de produção nacional deve ser fortalecida, não apenas para atender às necessidades das Forças Armadas, mas também para garantir a soberania tecnológica, reduzir dependências externas e criar um ciclo de inovação, emprego e autonomia.

O Brasil tem capital humano, base industrial e demanda interna para se destacar nesse campo. Mas, para isso, precisa abandonar a postura reativa e assumir um papel ativo no redesenho das suas capacidades táticas e tecnológicas. O risco de não agir agora é ficar refém de fornecedores externos, perder relevância regional e manter-se preso a estruturas caras e lentas, incompatíveis com a agilidade exigida pelos conflitos e desafios contemporâneos.

REFERÊNCIAS

https://poa24horas.com.br/destaques/2024/04/ibama-capacita-pilotos-remotos-no-rio-grande-do-sul-para-uso-de-drones-dji-m300-rtk/

https://veja.abril.com.br/brasil/defesa-civil-alerta-contra-uso-de-drones-para-filmar-areas-alagadas-no-rs

https://warontherocks.com/2024/03/drones-are-transforming-the-battlefield-in-ukraine-but-in-an-evolutionary-fashion/

https://warontherocks.com/2024/11/drones-ai-and-the-changing-nature-of-warfare/

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14751798.2023.2178519

https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14751798.2023.2178571

https://www.research-collection.ethz.ch/handle/20.500.11850/690448

https://warontherocks.com/episode/marinepulse/35497/drones-on-the-frontlines-how-the-marine-corps-is-learning-and-adapting/?__s=vyxerbdahtezqh8thfkk&utm_source=drip&utm_medium=email&utm_campaign=WOTR+Daily+Newsletter%3A+August+14

https://www.bbc.com/news/world-us-canada-22638533