Transição energética: entre a mitigação da crise climática e a lógica da acumulação do capital

Compreender a transição energética – ou os tão citados processo de “descarbonização” e caminhos rumo ao “net-zero” – exige levar em conta como o capitalismo historicamente lidou com seus próprios limites.

Uma das ideias centrais na economia política é que o capital está constantemente em movimento – passando de dinheiro a mercadorias e de mercadorias de volta ao dinheiro. E não qualquer tipo de movimento, mas um movimento expansivo. Como o professor David Harvey1 lembra, a circulação do capital é “uma espiral em constante expansão” – isto é, ele se reproduz à medida que se expande. Isso se torna evidente quando consideramos o capitalismo na história: a reprodução ampliada do capital se expressa materialmente na conquista de áreas cada vez maiores ao redor do mundo, ampliando suas fronteiras onde antes não alcançara.

Desde o longo século XVI, a reprodução e acumulação do capital têm se apoiado no que o professor Jason Moore2 denomina a estratégia da “natureza barata”, incorporando cada vez mais fontes de trabalho, matérias-primas, alimentos e energia à reprodução do valor por custos reduzidos. Assim, a “natureza barata” pode ser entendida tanto como a exploração de trabalho escravizado ou do trabalho precarizado na contemporaneidade; quanto como a extração colonial de recursos naturais às atuais mega-exportações de commodities não processadas.

Sempre que o crescimento parecia esbarrar em barreiras aparentemente intransponíveis, o capitalismo conseguia reativar a acumulação ao criar, em novos espaços, condições favoráveis à sua reprodução. David Harvey explica como processos espaciais – da colonização à urbanização – servem para absorver excedentes de capital e de força de trabalho em momentos de crise, significando que, para “ajustar” (fix) sua crise endógena, o capital também se “fixa” (fix) em espaços. Esses “ajustes espaço-temporais” possibilitam colocar em marcha novos ciclos de acumulação que antes estavam constrangidos e impossibilitados de existir.

Mas o que isso tem a ver com a crise climática?

Pode-se argumentar que, hoje, a crise climática constitui a barreira mais recente à expansão capitalista. A percepção de que há contradições biofísicas e ecológicas ao crescimento ilimitado – combinada à recusa de muitos países em arcar com os custos de serem os territórios onde o capital extrai valor não pago para gerar consumo em outros lugares – pressiona o modelo que historicamente dependeu da exploração quase ilimitada de recursos naturais e humanos. A destruição do planeta também produz uma contradição estrutural para a reprodução do capital, identificada pelo professor James O’Connor3 como a ideia de que, ao depender de crescimento ilimitado, a expansão capitalista mina as condições de sua própria reprodução por superexplorar a base de recursos sobre a qual a acumulação se sustenta.

Ainda assim, essa pressão ecológica não conduz automaticamente a um afastamento da lógica do crescimento e da acumulação. Como argumentam os professores Ulrich Brand e Markus Wissen4, fenômenos de crise ambiental podem se tornar pontos de partida para novas soluções tecnológicas e institucionais que administram a crise, mas sem resolver as contradições fundamentais do capitalismo. Em sua perspectiva, tensões geopolíticas internacionais intensificadas pela crise ecológica – ou novas “tensões eco-imperiais” – e a competição por influência global vêm gerando estratégias seletivas de descarbonização: uma transição moldada mais por interesses estratégicos do que por limites ecológicos.

Assim, a transição energética, juntamente com a valorização de formas de capital natural, diz respeito ao surgimento de um novo padrão de exploração da natureza, no qual se tenta uma modernização ecológica da produção para sustentar um crescimento que permanece insustentável.

A última década revelou uma mudança no discurso da sustentabilidade: metas de adaptação, compensação, mitigação e desenvolvimento tornaram-se secundárias, sendo substituídas por metas de enfrentamento aos “gaps de investimento verde” como solução para a crise ecológica. Nelo Magalhães5 denominou este processo de Paradigma do Investimento Verde. Seguindo tal lógica, investindo em eficiência energética nos processos produtivos, substituindo recursos cujo uso é ambientalmente danoso e intensificando a financeirização da natureza, o capitalismo seria capaz de superar as limitações biofísicas ao crescimento e lidar com a eminente crise climática.

Entretanto, o que se observa é que não há uma transformação fundamental na lógica de apropriação da produção, nem uma mudança das fontes de energia exploradas, mas sim, mais uma vez, uma expansão das fronteiras de acumulação para novos domínios.

Os dados energéticos globais contam a mesma história.

Longe de haver uma redução no consumo de energia – ou uma transição entre fontes energéticas – observa-se o crescimento contínuo tanto nas fontes novas quanto nas antigas.

Valores em Exajoules (EJ). Elaboração da autora.
Dados: Energy Institute – 2025 Statisctical Review of World Energy

Exceto em períodos de crise econômica global – como a Crise do petróleo (1973-1974), a Crise financeira global (2008-2009) ou a Crise da covid-19 (2020-2021) – o consumo de energia sempre aumentou. É evidente a grande participação do petróleo, do gás natural e do carvão (fontes fósseis) apesar do crescimento da energia nuclear, da hidreletricidade e das renováveis (fontes “limpas”).

As adições sucessivas são visualmente claras: independentemente do aumento do consumo proveniente de fontes renováveis e “limpas”, não houve redução nem no consumo total de energia nem no consumo fóssil. Apesar das diferentes taxas de crescimento, a tendência geral é de expansão constante em todas as fontes. As renováveis estão sendo adicionadas ao uso existente de combustíveis fósseis, não os substituindo.

Em outras palavras, o mundo consome simultaneamente mais energia limpa e mais energia fóssil.

Esses padrões ajudam a deslocar o debate dos obstáculos técnicos para os obstáculos políticos. As possibilidades de qualquer transição energética dependem não apenas de limites biofísicos – como restrições climáticas ou a disponibilidade de minerais críticos – mas também dos conflitos entre diferentes grupos de interesse sobre as formas com a qual a transição deve ocorrer.

Como destaca o professor Brett Christophers6, projetos de combustíveis fósseis permanecem muito mais lucrativos do que muitas alternativas renováveis, e os governos continuam direcionando subsídios substanciais ao petróleo, ao gás e ao carvão. O investimento contínuo e massivo em combustíveis fósseis cria uma enorme inércia transformacional – ou melhor, uma “fossilização” do capital fóssil.

O poder político desses interesses entrincheirados fica evidente quando se considera o desfecho da Conferência das Partes (COP30) em Belém, na qual nenhum combustível fóssil é mencionado além da criação de iniciativas paralelas. Sem uma mudança significativa nos marcos regulatórios, a transição enfrentará contínua e inevitavelmente um paradoxo6:

“para financiar a transição para ser outra coisa, as grandes empresas de petróleo e gás dependem fortemente daquilo que elas atualmente são”.

Em suma, a transição energética em curso é emblemática da capacidade persistente do sistema capitalista de se adaptar a barreiras ao seu próprio desenvolvimento sem alterar fundamentalmente seu traço característico de acumulação expansiva.

Embora o aumento das energias renováveis possa sugerir uma mudança rumo a outras formas de desenvolvimento capitalista, o crescimento do consumo energético total indica que o crescimento fossilista permanece dominante e que a acumulação prevalece sobre a transição. Isso evidencia que o deslocamento rumo à energia “verde” se assemelha mais a uma extensão da busca do capital por novas fronteiras de acumulação do que a uma transformação real do metabolismo social global – isto é, dos padrões de uso de energia e transformação material por partes específicas da sociedade capitalista.

Sem mudanças regulatórias substanciais, uma reconfiguração das relações de poder globais e o questionamento de por que, para quem e para quê a energia está sendo consumida em magnitudes crescentes, apenas perpetuaremos – e não superaremos – as contradições da exploração capitalista da natureza.


  1. David Harvey é professor emérito de Antropologia e Geografia da City University of New York.
    Ver Harvey, D. (2014). Seventeen contradictions and the end of capitalism. Oxford University Press, USA.
    Ver Harvey, D. (2019). Marx, capital and the madness of economic reason (Paperback edition). Profile Books. ↩︎
  2. Jason W. Moore é geógrafo histórico e historiador na Universidade de Binghamton.
    Ver Moore, J. W. (2014). The End of Cheap Nature or: How I Learned to Stop Worrying about “the” Environment and Love the Crisis of Capitalism. In Structures of the World Political Economy and the Future of Global Conflict and Cooperation.
    Ver Moore, J. W. (2016). The Rise of the Cheap Nature. In J. W. Moore (Ed.), Anthropocene or Capitalocene? Nature, History, and the Crisis of Capitalism (pp. 1–11). PM Press. ↩︎
  3. James O’Connor foi sociólogo e economista, professor na University of California, Santa Cruz (UCSC) e precursor do marxismo ecológico.
    See O’Connor, J. (1988). Capitalism, nature, socialism a theoretical introduction.       Capitalism Nature Socialism1(1), 11–38. https://doi.org/10.1080/10455758809358356 ↩︎
  4. Ulrich Brand é cientista político e professor de Política Internacional da Universidade de Vienna. Markus Wissen é cientista político e professor de Ciências Sociais na Berlin School of Economics and Law (HWR).
    Ver Brand, U., & Wissen, M. (2018). The limits to capitalist nature: Theorizing and overcoming the imperial mode of living. Rowman & Littlefield International.
    Para o conceito de tensões eco-imperiais, ver Brand, U., & Wissen, M. (2024). Eco-imperial Tensions: Decarbonization Strategies in Times of Geopolitical Upheaval. ↩︎
  5. Nelo Magalhães é um pos-doutorando na School for Advanced Studies in the Social Sciences, Paris (EHESS).
    Ver Magalhães, N. (2021). The green investment paradigm: Another headlong rush. Ecological Economics, 190, 107209. https://doi.org/10.1016/j.ecolecon.2021.107209 ↩︎
  6. Brett Christophers é geográfo econômico e professor na Universidade de Uppsala.
    Ver Christophers, B. (2022). Fossilised Capital: Price and Profit in the Energy Transition. New Political Economy, 27(1), 146–159. https://doi.org/10.1080/13563467.2021.1926957 ↩︎ ↩︎
  7. Brett Christophers é geográfo econômico e professor na Universidade de Uppsala.
    Ver Christophers, B. (2022). Fossilised Capital: Price and Profit in the Energy Transition. New Political Economy, 27(1), 146–159. https://doi.org/10.1080/13563467.2021.1926957 ↩︎ ↩︎