Fins, meios e drones: O uso de drones kamikaze na Operação Absolute Resolve

O ano de 2026 trouxe consigo o gosto amargo do colonialismo e do intervencionismo militar, especialmente para a região da América Latina, cuja história do século XX ainda deixa rastros sombrios do autoritarismo.

No dia 03 de janeiro o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e sequestrados pelas forças militares dos Estados Unidos, sob a égide da Operação Absolute Resolve. Nesta coluna não será tratada a índole do então ex-presidente Maduro, ou a qualidade de seu governo perante o povo venezuelando. 

Ainda que o episódio tenha reacendido o debate sobre “Isso infringiu o Direito Internacional!”, precisaríamos voltar algumas várias décadas e perceber que o jogo sempre foi disposto dessa forma, principalmente quando os principais players têm poder de veto na Organização das Nações Unidas.

Nos principais portais de notícias e em páginas de especialistas militares, muito se falou sobre a agilidade empregada na operação, que claramente seguiu uma cartilha bem delimitada para se atingir o objetivo político em questão. E nesse ponto vale relembrar brevemente os ensinamentos do teórico da guerra Carl von Clausewitz, que dentre seus postulados presentes no livro “Da Guerra”, ele apresenta que a natureza fundamental da guerra se assemelha a uma “Trindade Paradoxal”, cujos elementos são a violência, o jogo do acaso e o propósito racional Dentre as figuras presentes nessa “trindade”, estão o povo, as forças armadas e o governo, e no caso desses dois últimos atores, o diálogo entre o cálculo racional do governo deve ser combinado com a capacidade das forças armadas, de modo a traduzir os objetivos políticos (fins), com a estratégia adotada (formas) e o emprego da operação tática (meios).

A Operação Absolute Resolve contou com a predominância do poder aéreo, ou seja, os EUA empregaram poder pelo e através do ar. Inicialmente, alguns meios (equipamentos) mais tradicionais foram muito destacados, como helicópteros, caças de 5ª geração, bombardeiros de longo alcance, aviões de comando e controle, além de aviões específicos para guerra eletrônica. Mas alguns vídeos civis trouxeram o debate para outros equipamentos: os drones, especificamente drones kamizaze. Em uma coluna anterior, eu especifico a nomenclatura de drones, além da classificação desses equipamentos segundo a OTAN. (Acesse aqui)

Tendo em vista as centenas de vídeos civis mostrando helicópteros estadunidenses sobrevoando Caracas sem nenhum grande problema, já se supõe que o momento inicial da operação contou justamente com a supressão (SEAD – Suppression of Enemy Air Defenses) da defesa aérea integrada (IADS, Integrated Air Defense System) venezuelana. Para isso, os EUA fizeram uma campanha maciça utilizando caças, mísseis e aviões de guerra eletrônica para “cegar” sistemas de radar e postos de comando venezuelanos. 

“À medida que a força se aproximava de Caracas, a Componente Aérea Conjunta começou a desmantelar e desativar os sistemas de defesa aérea na Venezuela, empregando armas para garantir a passagem segura dos helicópteros para a área-alvo”, disse o presidente do Estado-Maior Conjunto, general da Força Aérea dos EUA Dan “Razin” Caine, durante uma coletiva de imprensa no sábado. “O objetivo de nossa componente aérea é, sempre foi e sempre será proteger os helicópteros e a força terrestre, levá-los ao alvo e trazê-los de volta para casa.” Caine também disse que “inúmeros drones pilotados remotamente” estavam entre os recursos dos EUA empregados durante a operação.

Sendo assim, até o momento, com o que se pode extrair de dados e fontes abertas, além de análises especializadas, é fato que os meios principais e que realmente contaram para os EUA alcançarem seu objetivo políticos ainda são os equipamentos tradicionais, especialmente os helicópteros. Porém, por serem equipamentos de menor custo se comparado com um míssil de cruzeiro, tudo indica que eles foram utilizados como multiplicadores de força para a saturação da defesa aérea venezuelana.

Mas qual drone foi utilizado?

Os EUA já vem testando desde 2023 sua própria versão do drone iraniano Shahed-136, que também recebeu sua versão russa com o Geran

Um infográfico da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA com detalhes sobre o Shahed-136 e seus derivados russos. Fonte: TWZ.

Já em dezembro de 2025, os EUA inauguraram sua nova divisão para operação desses drones kamizake, que foram denominados como LUCAS, uma abreviação para Sistema de ataque de combate não tripulado de baixo custo (Low-Cost Uncrewed Combat Attack System).

O secretário da Guerra Pete Hegseth observa um drone LUCAS durante um evento no Pentágono em julho de 2025. Fonte: Exército dos EUA.

Apesar de manter a lógica de menor custo possível, é uma versão que melhora alguns aspectos técnicos se comparado com a versão russa, como a qualidade da câmera e coordenação autônoma.

Drones LUCAS em exposição no Pentágono em julho de 2025. Fonte: Forças Armadas dos EUA.

E por que isso importa?

Porque mostra que os EUA começam a operacionalizar o emprego de drones de baixo-custo. 

No início dos 2000, os drones de Classe III, como o RQ-4 Global Hawk e Predator, foram elementos importantes para a imposição política e militar dos Estados Unidos, especialmente no Oriente Médio, ao promover um distanciamento entre as tropas estadunidenses e aliados durante à Guerra Global ao Terror. Entretanto, esses drones são caros, à exemplo do RQ-4 Global Hawk que pode chegar a custar $223 milhões de dólares por unidade. Com experiências mais recentes, como a Guerra de Nagorno-Karabakh e mais recentemente a Guerra da Ucrânia, é observado a utilidade e a possibilidade de adaptação com drones menores (Classe I e II) para missões que anteriormente eram pensadas para os de Classe III.

Sendo assim, o que estamos vendo agora são os EUA aplicando lições tiradas a partir de observações, e se eles empregaram os grandes drones no início dos anos 2000, é importante estarmos atentos em como eles vão adotar o uso desses drones menores, uma vez que eles estão reorganizando e reafirmando seu lugar na segurança internacional.