Ouro Negro, Sangue Novo: A reedição do colonialismo no século XXI.

O fascismo e o neocolonialismo televisionados em tempo real.

Inacreditavelmente, o ano de 2026 iniciou-se com um duro golpe em nossa América Latina, já há tanto tempo cobiçada por diferentes nações. Essas mesmas imputam grandes investimentos estrangeiros diretos e injetam dinheiro em nosso solo para, enfim, gerar uma remessa de lucro proveniente da extração de recursos e de êxitos corporativos. Não obstante, algo que hoje pode ser tido como “imaginário” permitia a realização desta dinâmica com balizas que outrora eram sólidas. Hoje se derretem e são atropeladas pela ganância corporativa, capitalista e fascista. A dinâmica em questão era o comércio internacional, que, por extensos e complexos motivos, é assimétrico e garante a manutenção do status quo de níveis de poder das nações que compõem o panteão dos poderosos, em detrimento da exploração de recursos naturais  e perpetuação da desigualdade dos países menos desenvolvidos. Vale ressaltar que, nos períodos pós-Guerra Fria, esta dinâmica permitiu, de certa forma, uma estabilidade internacional. Já o Direito Internacional, hodiernamente, assume um papel “imaginário”, como se não existisse – o que cria solo para a barbárie germinar. Aquilo que foi cultuado e tido como necessário para a paz mundial após a II Guerra Mundial (1939 – 1945) hoje parece ser obsoleto. A criação da ONU após o período mencionado, portanto, simboliza o triunfo do Direito Internacional, ou pelo menos, a garantia de que os países não seriam atacados de forma arbitrária, trazendo uma maior transparência nas expectativas das diferentes nações. 

No entanto, o mundo de hoje não é o mesmo que o de 1945. O multilateralismo e as instituições internacionais, que são ferramentas utilizadas pelos países para o cumprimento de expectativas e para a tentativa de promoção da paz, não são mais creditados como o caminho para um mundo mais próspero e estável, por parte do atual presidente norte-americano. O posicionamento de política externa dos Estados Unidos da América (EUA) reflete exatamente isto: o presidente, Donald Trump, não mede esforços para atacar tais instituições e comandou o seu país à saída de 66 organizações internacionais, segundo fontes oficiais do governo. É visível o seu desprezo por pautas multilaterais e as instituições internacionais, o que nos leva a acreditar que a política externa estadunidense será baseada no pragmatismo e na busca incansável da concretização dos seus interesses nacionais, mesmo que esses estejam a divergir daquilo que o Direito Internacional e as Instituições Internacionais pregam. Não à toa, Trump autorizou a megaoperação de captura e apreensão do ex-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a fim de tomar a posse do petróleo de seu vizinho sul-americano. Nesse sentido, este tipo de ação viola as balizas do Direito Internacional e também da própria Constituição norte-americana, o que pouco importa para o chefe do executivo, haja vista que seus objetivos geopolíticos – em sua lógica – estão acima desses pactos entre nações e sociedades. 

O mais chocante de tudo isso é que estamos em 2026 e podemos ver, escancaradamente, os ecos da colonização e do imperialismo se perpetuando e ganhando forma. Segundo veículos como o The Guardian, Trump já declarou que o petróleo venezuelano será controlado pelos norte-americanos, o que é um desrespeito à soberania do país vizinho e do povo venezuelano. Uma boa forma de compreender o que está ocorrendo é olhar para a história e para a experiência de outros países. Logo, fazendo um paralelo, o Brasil passou por uma situação análoga outrora em sua história como uma nação independente. Em seu texto, Amado Cervo – grande estudioso da política externa brasileira – escreve: 

Os europeus impuseram à periferia do capitalismo, à América Latina, ao Império Otomano e ao continente asiático, em um primeiro momento, e à África negra ao final do século, o modo de fazer comércio, de organizar a produção e até mesmo de criar instituições políticas e sociais. Eram os tratados bilaterais de então o instrumento desse ordenamento jurídico, político e econômico. (CERVO, 2003, p. 9)

Os tratados bilaterais, inclusive, eram tidos como “desiguais”, dando caráter à natureza deles. O Brasil, para se ter uma ideia, firmou alguns tratados de natureza comercial com a Inglaterra – à época, a nação mais poderosa do mundo – e, por meio deles, a nação europeia conseguiu controlar virtualmente nosso mercado. O Tratado de Amizade, Navegação e Comércio (1827) garantiu uma  renovação das tarifas preferenciais (que os ingleses tinham há um tempo) de 15% por mais 15 anos. Este tratado foi muito criticado pela elite brasileira por impedir o desenvolvimento de indústrias nacionais e gerar déficits orçamentários. Apesar de consentir, porque de fato os tratados foram assinados, o Brasil saiu penalizado pela exploração de sua economia pelos ingleses, perpetuando uma grande assimetria de poderio econômico. Uma experiência como esta mostra que uma nação A, quando mais poderosa que uma nação B, irá lançar mão de instrumentos que permitam, de forma direta ou indireta, o aumento de ganhos de poder relativos. A lógica do realismo, dentro dessa perspectiva, é fomentada. Logo, os países vão buscar incansavelmente a perpetuação de seus poderes e vantagens sobre os outros para que seu poderio possa ser cristalizado e expandido. 

Os Estados Unidos, enquanto uma das nações mais poderosas do mundo, veem a China e a Rússia como potências que desafiam sua hegemonia e, sob comando de Trump, lançam mão de quaisquer meios para resguardar esse aspecto. Invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente, além de mostrarem-se interessados em repetir o feito com Colômbia e Groenlândia. Além disso, impõem tarifas arbitrárias exorbitantes naqueles que divergem de seus interesses (contradizendo o livre comércio) e, dessa forma, penalizam e fragilizam a economia de outros países. A barganha e a cooperação, portanto, são deixadas de lado enquanto instrumentos que podem promover ganhos mútuos para as partes envolvidas em uma negociação. 

A Venezuela, assim, encontra-se em uma situação muito delicada, pois virou refém das vontades e interesses dos Estados Unidos. Não se pode dizer ao certo o que o futuro guarda para a nação latino-americana; no entanto, assim como outrora as nações colonizadoras fizeram com as nações do Sul global, os Estados Unidos devem se aproveitar de seus recursos naturais alheios para benefícios próprios. Sob um pretexto falso para invadir a nação com a maior quantidade de petróleo do mundo, Trump se apropriou das reservas de ouro negro e já declarou que fará a tutela desta commodity por tempo indeterminado. Ademais, segundo uma reportagem da CNBC, o presidente norte-americano afirmou que a Venezuela comprará somente produtos norte-americanos com a renda proveniente do petróleo. Indago um questionamento para o leitor: este tipo de condução política aproxima-se remotamente da atitude que outrora Portugal teve com o Brasil durante o pacto colonial? Ademais, se hoje foi a Venezuela, quais as garantias de que o mesmo (ou similar) não acontecerá com as demais nações latino-americanas ao longo do tempo? O controle virtual que a ganância de Trump imputa à Venezuela demonstra que o neocolonialismo está mais vivo que nunca e que os tempos atuais são de reflexão sobre o futuro que nós, cidadãos do mundo, queremos para as nações. Pois onde a barbárie germina, é impossível a paz prosperar. 

Referências:

CARROLL, Rory; ROGERO, Tiago. Venezuela cooperating fully and US will control its oil for years, Trump claims: US president says Delcy Rodríguez’s interim administration is doing ‘everything that we feel is necessary’. The Guardian, [s. l.], 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/jan/08/venezuela-oil-deal-rodriguez-trump-vance-claims-us-control.

CERVO, Amado Luiz. Política exterior e relações internacionais do Brasil: enfoque paradigmático. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 46, n. 2, p. 5-25, dez. 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbpi/a/zbz5ycSxKHRYZCRpkPqRyGF/?lang=pt.

CONKLIN, Audrey. Trump announces major oil deal with Venezuela: ‘We’re going to be buying a lot of American products’. CNBC, [s. l.], 7 jan. 2026. Disponível em: https://www.cnbc.com/2026/01/07/trump–venezuela-american-products-oil-deal.html.

ESTADOS UNIDOS. Department of State. Withdrawal from Wasteful, Ineffective, or Harmful International Organizations: press statement. [Washington, DC]: Office of the Spokesperson, 7 jan. 2026. Disponível em: https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/01/withdrawal-from-wasteful-ineffective-or-harmful-international-organizations.