Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026 o mundo assistiu com uma crescente apreensão a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. A operação foi realizada pelo primeiro Destacamento Operacional das Forças Especiais dos Estados Unidos, a Força Delta, sob as ordens do presidente Donald Trump. Maduro e Flores foram levados de helicóptero para o navio USS Iwo Jima tendo como destino final um centro de detenção em Brooklyn, Nova York onde estão detidos e aguardam o andamento do julgamento. Esse, que pode ser considerado como o primeiro grande evento na política internacional de 2026, nos faz refletir sobre cenários futuros marcados por ecos do passado.
Em meio a discursos que evocam o retorno do imperialismo e ao alarmismo em torno de uma nova Guerra Fria – ou mesmo da eclosão de um novo conflito mundial – impõe-se a necessidade de uma análise cautelosa. Embora a história da humanidade seja marcada por ciclos recorrentes de paz e conflito, nos quais padrões de cooperação, formação de alianças e manutenção de rivalidades tendem a se repetir, ainda que em contextos distintos, não podemos nos precipitar em tratar tais momentos históricos como modelos rígidos para a atuação dos atores que compõem o sistema internacional contemporâneo.
A lógica da divisão do mundo em esferas de influência, característica da Guerra Fria, permanece um instrumento analítico útil para compreender como as grandes potências percebem suas respectivas posições nos diferentes tabuleiros geopolíticos. Contudo, à medida que o cenário global muda, os jogadores e as peças que compõem esse jogo político também mudam. Novos atores ganharam centralidade enquanto outros assumem um papel mais secundário. Temos a classificação feita pelos Estados Unidos em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, que eleva a posição de China e Rússia ao patamar de rivais ou competidores estratégicos, contudo com um reajuste de forças que pende para a China, que assume o posto de principal ameaça aos interesses da ordem liberal mundial liderada pelos Estados Unidos – uma liderança que, por sua vez. encontra-se crescentemente contestada. Ademais, fatores como a ampliação do número de Estados detentores de armas nucleares, somado ao rápido avanço das tecnologias militares e o seu impacto no campo de batalha, alteram de forma significativa o cálculo estratégico, elevando os custos políticos e militares associados ao emprego da força.
Todavia, o elemento em comum às expressões anteriormente mencionadas reside no fato de que remetem a períodos históricos nos quais a política internacional era estruturada sob a lógica da disputa por poder entre grandes potências. Nesse sentido, torna-se fundamental destacar que essa competição não se manifesta de forma homogênea ou restrita a um único plano, mas ocorre simultaneamente em diferentes níveis – internacional, continental ou regional e, em determinados casos, também no âmbito doméstico – e atravessa distintas dimensões do poder nacional, como a política, militar e econômica, entre outras.
À luz dessa perspectiva, o episódio da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, voltada à captura do presidente Maduro, deve ser compreendida a partir das suas múltiplas camadas desse conflito. Esse artigo inaugura uma série de análises que se propõem a avaliar o conflito entre Estados Unidos e Venezuela a partir de diferentes níveis de análise. O presente texto tem como foco a Operação Resolução Absoluta de janeiro de 3 e seus desdobramentos políticos e como a operação pode ser considerada não apenas como um reflexo direto das disputas internas que permeiam o cenário político doméstico dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que contribui para intensificá-las.
A Operação Resolução Absoluta e a disputa interna pelo poder da palavra final no processo de tomada de decisão
A chamada “Operação Resolução Absoluta”, denominação atribuída pelo Departamento de Guerra – “antigo” Departamento de Defesa – dos Estados Unidos, caracterizou-se por sua execução rápida e eficiente. Estima-se que a operação tenha durado aproximadamente cinco horas no total, culminando na captura do presidente Madura e sua esposa em um tempo excepcionalmente curto, inferior a um minuto.
A escalada das tensões militares entre Caracas e Washington já foi tema de colunas anteriores do Dpolitik. Entre elas, destaco o texto intitulado “Da reaproximação à ruptura: a crise diplomática entre Washington e Caracas”, que apresenta uma linha do tempo dos acontecimentos que culminaram na primeira fase da ofensiva americana no Caribe. Essa etapa inicial da operação, analisada em maior profundidade no texto previamente citado mas que pode ser resumido como um período marcado pela mobilização e pelo emprego do aparato militar dos Estados Unidos em operações de interdição naval, com o abatimento de embarcações que supostamente transportavam drogas ilegais e eram tripulados por membros do grupo de crime organizado venezuelano Tren de Aragua – classificado pelos Estados Unidos como organização terrorista em janeira de 2025 – em águas internacionais próximas à costa venezuelana.
Essas operações, conduzidas entre os meses de setembro e outubro de 2025, foram seguidas por uma intensificação das medidas coercitivas por parte de Washington. Em novembro, o governo norte-americano anunciou o fechamento do espaço aéreo e, em dezembro, o presidente Trump deu a ordem fosse implementado um bloqueio “total e completo” de todos os navios petroleiros sancionados que entrassem ou saíssem da costa venezuelana. Esse cerco por via aérea e naval, aliado á táticas de monitoramento da rotina do então presidente velezuelano e sua esposa, foram os elementos centrais para a rápida execução da operação de captura de Maduro, acusado pela Corte de Justiça dos Estados Unidos de quatro tipos de crimes diferentes, sendo a principal acusação a de que seria um narcoterrorista e líder do “Cartel de los Soles”, organização narcoterrorista supostamente composta por membros do alto escalão do governo venezuelano.
Em pronunciamento à imprensa, Donald Trump declarou que a operação em questão vinha sendo planejada há meses. Contudo, tanto o processo de planejamento como a tomada de decisão final não foram submetidos à aprovação do Congresso dos Estados Unidos, o que suscitou questionamentos quanto à legalidade da ação à luz da Constituição norte-americana. O texto constitucional estabelece que intervenções militares em território estrangeiro devem ser previamente autorizadas pelo Parlamento.
Diante das acusações de ilegalidade levantadas pela oposição democrata, Trump respondeu de forma contundente, alegando que o “Congresso não era confiável” para lidar com uma operação dessa natureza. Em paralelo, o secretário de Defesa, Marco Rubio, declarou que a operação não se tratou de invasão militar, mas sim uma operação de aplicação da lei (law enforcement operation) e que os Estados Unidos não estavam em guerra contra a Venezuela, mas sim contra o narcotráfico. Rubio acrescentou ainda que os integrantes da Força Delta permaneceram em solo venezuelano por aproximadamente duas horas, tempo que teria sido estritamente necessário para a captura de Maduro e para a neutralização de eventuais ameaças dos agentes norte-americanos.

Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, são vistos algemados após pousarem em um heliponto em Manhattan, escoltados por agentes federais armados (Foto: CNN Brasil)
Em contraposição a essa narrativa, o Ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, declarou que a ação militar conduzida pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro resultou em cerca de 100, incluindo civis, além de ter atingido múltiplos pontos da capital, Caracas. Vale ressaltar que Cabello – responsável pelo comando das forças de segurança venezuelanas – é acusado de envolvimento com o narcotráfico desde 2015 pela justiça americana, além de acusações de violações sistemáticas dos direitos humanos. Segundo especulações veiculadas pela mídia internacional, Cabelli estaria sendo pressionado por autoridades dos Estados Unidos a não obstruir canais de diálogo e cooperação entre representantes do governo Trump e a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, com quem mantém um histórico de rivalidade no interior da alta cúpula do governo Maduro. Tais pressões estariam associadas à ameaça implícita de que Cabello poderia se tornar o próximo alvo em uma eventual ofensiva de Washington contra Caracas.
Balanço do primeiro ano do segundo mandato do governo Tump: conflitos de interesses, impasses políticos e crescente insatisfação popular
A Operação Resolução Absoluta vem adicionando mais combustível a um cada vez mais inflamado cenário de política doméstica dos Estados Unidos. No primeiro ano do mandato de Trump, a disputa entre o Executivo e o Congresso foi marcada por episódios de embate, que resultaram no mais prolongado “shutdown” – como é chamada a paralisação geral do governo americano, caso o orçamento anual do governo não seja aprovado dentro do prazo- da história dos EUA. Devido ao impasse na aprovação do orçamento, que foi resultado dos protestos da oposição democrata contra os severos cortes em áreas prioritárias como a saúde que ocorreram ao longo do ano, o governo ficou paralizado por 43 dias, quando se chegou a um acordo.
Paralelamente, cresceu a insatisfação popular com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla inglesa), órgão do Departamento de Segurança Interna responsável pela aplicação da política migratória do novo governo. Críticas intensificaram-se diante de relatos de prisões de estrangeiros em situação regular e, em alguns casos, de cidadãos americanos, muitas vezes sem um mandato judicial válido. Esse confronto atingiu um novo patamar após o episódio do dia 07 de janeiro, quando a cidadã americana Renee Nicole Good foi morta a tiros por um agente do ICE enquanto protestava contra uma operação da agência de law enforcement que ocorria no bairro onde morava na cidade de Minneapolis, no estado de Minnesota. O episódio desencadeou uma série de protestos na cidade e em outras partes do país e impôs sérias divergências entre a visão das autoridades federais e locais acerca do uso da força por parte dos agentes do ICE.

Pessoas marcham durante uma manifestação contra o aumento da fiscalização da imigração, dias após o assassinato de Renee Nicole Good por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), em Minneapolis, Minnesota (Foto: CNN Brasil)
Em uma disputa de narrativas, autoridades federais alegaram que o agente teria agido em legítima defesa. Esse caso ganhou uma ampla repercussão e intensificou os debates acerca do papel do ICE e a condução da política migratória do governo Trump. Essa disputa de narrativa tem sido uma das principais ferramentas das autoridades federais para enquadrar as ações do governo de maneira a sempre favorecer os interesses da Casa Branca. Alguns analistas de política internacional, como o professor Oliver Stuenkel em entrevista ao podcast “o Assunto”, do portal de notícias G1, leem a investida do governo Trump contra o regime de Maduro como uma maneira de aplacar os conflitos internos e a insatisfação popular, unindo a população contra um inimigo em comum. Essa é uma estratégia de retórica muito comum e frequentemente utilizada por lideranças americanas em momentos de crise.
Ademais, a justificativa para a operação de captura de Maduro não foi apenas baseada das alegações de associação criminosa, corrupção e abuso de poder, mas como uma medida de frear a crise migratória gerada pela crise venezuelana, que vem se estendendo desde 2014, mas que atingiu o seu ápice entre os anos de 2018 e 2019. Eleito pelo povo americano não uma, mas duas vezes com um forte discurso anti-migratório e, após a frustrada tentativa de construir um muro na fronteira com o México em seus primeiro mandato, no segundo mandato, Trump assume uma postura ainda mais assertiva, autorizando operações de deportações em massa, tendo como os principais alvos imigrantes de origem ou descendência latina.
Todavia, após a publicação da Estratégia de Segurança Nacional, documento que elenca as prioridades da política externa de cada gabinete presidencial, a administração Trump enquadra as relações com a América Latina e Caribe sob uma lógica da retomada da Doutrina Monroe. A Doutrina Monroe é o principal princípio ordenador das relações entre Estados Unidos e América Latina desde o século XIX, quando foi concebida inicialmente. Embora a Doutrina tenha passado por mudanças ao longo desse tempo, ela estabelece que nenhuma outra potência além dos Estados Unidos tem o poder de interferir no que passou a ser estabelecido como área de influência natural dos EUA. A partir desse momento, a segurança nacional dos Estados Unidos passou a ser diretamente ligada à segurança e à manutenção dos interesses americanos na região. Esse discurso foi retomado por Trump e Rubio durante a coletiva de imprensa após a operação realizada na Venezuela. Eles reiteram que o Hemisfério Ocidental “pertence” aos EUA e que nenhuma ação de adversários regionais assim como a atuação de rivais e competidores extrarregionais seria admitida.
Para o gabinete de Trump os EUA agiu no que lhe era de direito, segundos princípios tais quais o do Destino Manifesto, princípio que remonta o período da independência dos pais, quando os “pais fundadores” estabeleceram que era responsabilidade dos Estados Unidos a manutenção e o avanço da democracia no mundo. Embora tais atitudes americanas tenham sido recebidas na comunidade internacional com forte oposição de países de dentro e fora da América Latina, que reiteram que a soberania e integridade física dos países deve ser respeitada e a declaração do Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, classificando a atuação americana na Venezuela como uma grave violação ao direito internacional, Trump ameaça não parar na Venezuela. Países como Cuba e Colômbia são apontados pelo presidente americanos como possíveis futuros alvos de operações por parte dos Estados Unidos. Os países possuem suas vulnerabilidades políticas e de segurança próprias, mas compartilham em comum o fato de possuírem liderança críticas à figura do presidente Trump, o que, como mencionado em uma das falas dele acima, é uma atitude que não será tolerada.
Referências:
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O ASSUNTO: Venezuela invadida por Trump e a deposição de Maduro. Entrevistados: Leonardo Trevisan; Oliver Stuenkel. Entrevistadores: Natuza Nery. G1: 03 de jan. de 2026. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/7ic2CfzuA47m8OPVbdQKcq?si=a132baab97a64163.
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