As veias abertas da América Latina continuam como feridas expostas sob novas formas de imperialismo, onde discursos disfarçados de democracia ocultam interesses econômicos.
Historicamente a América Latina passou por violentos processos de intervenções, interferências políticas e pressões econômicas com o objetivo de subjugar a região aos interesses de potências externas, em especial à Europa e à política externa estadunidense. Conjuntura esta que originou os alicerces da instabilidade política e econômica da região, cuja soberania e autonomia local permanecem como pontos de tensão na dinâmica geopolítica regional. Assim sendo, as veias abertas da América Latina — termo apresentado por Eduardo Galeano (1971) — expressa esse sentimento de marcas e cicatrizes abertas deixadas como consequência do violento processo de exploração realizado pelas potências internacionais, o qual reflete hodiernamente nos problemas estruturais da região.
Nesse contexto histórico, as veias abertas representam também o processo de drenagem de riquezas latinoamericanas para a região do Norte Global — conceito acadêmico utilizado para designar as economias industrializadas e consideradas desenvolvidas —, consolidando uma estrutura de subordinação para atender às necessidades econômicas e comerciais do centro do capitalismo global. Desse modo, estruturam uma conjuntura de subdesenvolvimento à região como um resultado direto do desenvolvimento externo destas potências, fortalecendo, assim, a prosperidade deste império.
Estas marcas na história política da região permanecem presentes na medida em que potências estrangeiras, como o caso dos Estados Unidos e o seu interesse nacional em dominar politicamente esta divisão, persistem em implementar operações econômicas e militares na América Latina como uma forma de ratificar a sua projeção de força e sua influência política a partir da coerção. Assim, os recentes acontecimentos de ataques à navios, ameaças políticas e o subsequente sequestro do presidente da Venezuela em janeiro de 2026, irrompe um importante alerta para toda a região sobre o potencial imperialista dos Estados Unidos e o seu interesse em subjugar a região aos imperativos de sua política externa.
Nesse sentido, o caráter intervencionista dos Estados Unidos vigora o antigo objetivo do país em controlar as Américas como uma zona de influência estadunidense, lhe possibilitando utilizar de ferramentas de poder e projeção de força — mesmo que desrespeite a soberania e autodeterminação dos povos — para manter a autoridade local e expandir projetos econômicos de seu interesse. Utilizando durante esse processo a “diplomacia do porrete” para garantir o alinhamento político da região e proteger seus interesses privados sob o falso pretexto de garantia da democracia e liberdade política para o território (Galeano, 1971), implementam ditaduras e realizam interferências na política doméstica dos Estados para que este interesse nacional seja assegurado.
O apogeu desta estratégia imperialista se expressou de forma recente por meio da invasão à Venezuela e sequestro do seu presidente, Nicolás Maduro, o qual acendeu um novo alerta à toda América Latina sobre o risco de defender a autonomia nacional, de proteger seus recursos naturais e recusar um alinhamento político com os Estados Unidos sob a possível pena de sofrer uma intervenção política semelhante. Desse modo, a projeção de estratégias imperialistas na região — como ameaça de invasão ao Canal do Panamá para garantir o controle operacional e comercial desta passagem, ameaças à Colômbia e ao México sob o contexto de combate ao narcotráfico e permanência de bloqueios comerciais e políticas hostis à Cuba — expressa uma latente preocupação histórica da região: seria esta uma nova tentativa de retomada à era das intervenções políticas na América Latina?
Nessa conjuntura, o conceito de imperialismo representa um importante elemento teórico para analisar o comportamento dos Estados dentro do sistema interestatal capitalista, uma vez que a busca pelo controle dos fluxos e dinâmica econômica se desdobra na correlação entre poder, capital e dominação. Elementos estes que são utilizados pelos Estados Unidos na região como uma ferramenta política para garantir e potencializar seus interesses econômicos nesse espaço geográfico. Neste caso da invasão ilegítima à Venezuela, o discurso democrático de guerra ao narcotráfico e promoção da liberdade política nacional representa apenas um disfarce para o real interesse do país nesta operação, as fontes petrolíferas e seu potencial econômico.
O ponto de preocupação para à América Latina se fundamenta na prerrogativa que no momento não há forças ou instituições que buscam romper com esta política externa imperialista dos Estados Unidos, uma vez que a configuração da ordem internacional vigente administrada sob a sua tutela coage os demais países a permanecerem inertes a estas ações que violam expressamente o direito internacional público. Por conseguinte, diante do contexto de ameaças políticas, tarifas e sanções econômicas estadunidenses como retaliação inicial a um certo não alinhamento com seus interesses econômicos na região, expressam uma preocupação de possíveis tentativas de intervenções internas conforme já realizadas no passado, haja vista que as cicatrizes permanecem abertas.
À visto disso, o conceito do hiperimperialismo também pode ser utilizado para salientar a conjuntura de dominação em curso na região, na medida em que se refere a uma tipificação do imperialismo estadunidense manifestado a partir do declínio e instabilidade do seu império que busca amenizar as perdas econômicas e políticas por meio do uso efetivo da força ou ameaça de operações militares (Cernadas; Erskog; Moreno, 2024). Assim sendo, a intervenção constante — mesmo que de forma indireta — por meio de sanções, pressão diplomática, ameaças de invasões e guerras preventivas, consolidam a estratégia de hiperimperialismo do país para assegurar a América Latina como uma zona de influência sob a sua tutela. Uma tentativa de retomar à política externa da Doutrina Monroe, que consolidava o objetivo do país em reafirmar o seu domínio político na região da América Latina, fazendo uma alusão ao Destino Manifesto que legitimava a expansão do império estadunidense e seu processo de expropriação e dominação de povos.
Por conseguinte, esta operação militar demonstra ser um contra ataque direto do império à toda América Latina, marcando uma nova guinada nas relações internacionais da região e uma tentativa de implementação de um novo ciclo de intervenções na política local. No qual o papel do discurso e da mídia pontuam uma importante configuração de poder na construção de narrativas revestidas falsamente por uma preocupação em garantir a democracia e o espírito da liberdade, como uma tentativa de ocultar o interesse geopolítico no controle das reservas petrolíferas do país e da região. Nesse sentido, a própria imagem divulgada poucos momentos após o sequestro do presidente venezuelano representa a construção dessa narrativa em tom de ameaça à região, uma vez que foi postado em rede social por Donald Trump como uma forma de alertar o risco à região de um não alinhamento aos interesses estadunidenses.
O constante sentimento de risco de intervenção e interferência em assuntos domésticos dos Estados permanece latente na América Latina, cujas marcas e cicatrizes passadas da exploração estrangeira e suas subsequentes consequências na estrutura política e econômica da região revelam a violência acometida em seu território. Ademais, a estratégia imperialista da política externa de Trump retroalimenta esse processo hediondo que desrespeita os princípios basilares das relações internacionais, como a autodeterminação dos povos e a soberania nacional, e reproduz o tom de ameaça para possíveis ações intervencionistas em toda a região como um meio para garantir a proteção de seus interesses econômicos e geopolíticos. Assim sendo, persiste a indagação histórica sentida nessa extensão geográfica: De que maneira é possível romper com os mecanismos de dominação imperialista impostos por esse império?
Referências:
CERNADAS, Gisela; ERSKOG, Mikaela Nhondo; MORENO, Tica; VENEZIALE, Deborah.(Coord.) Hiperimperialismo: un novo estágio decadente perigoso. Tricontinental Institute for Social Research, 2024.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. L&PM Editores, 2010.
MARTINS, Por Antonio. Venezuela: o império ameaça e está nu. Elaborado por Boi Tempo. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/ricardo-pazello/2026/01/16/sinais-do-imperio-a-agressao-a-venezuela-e-o-problema-do-imperialismo-na-america-latina/. Acesso em: 16 jan. 2026.
SALGADO, Tiago Santos. O sequestro de Maduro e a permanência do imperialismo na América Latina. 2026. Elabroado por Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-sequestro-de-maduro-e-a-permanencia-do-imperialismo-na-america-latina/. Acesso em: 16 jan. 2026.
