As negociações diplomáticas para a assinatura do acordo comercial entre os blocos econômicos do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e da União Europeia tiveram início oficial a partir do ano de 1999, representando um acordo com longo histórico de tratativas para a sua regulamentação. O maior potencial econômico do acordo é a criação da maior área de livre comércio do planeta, compreendendo uma interligação de mercados entre 31 países ao total por meio de apenas um só tratado. Apesar deste forte potencial de crescimento e expansão econômica para ambos representantes dos blocos, há alguns entraves políticos internos para os países europeus que dificultaram o processo de negociação e assinatura do acordo.
Nesse cenário, o agronegócio representa um ponto sensível para a consolidação do acordo devido a sua forte capacidade produtiva e competitiva da região dos países do Mercosul — com destaque especial para o Brasil e Argentina — e em contramão o setor na Europa teme essa mesma competitividade externa devido a forte estrutura do setor do Mercosul. Assim, em função deste ponto de tensão que a agricultura e o agronegócio exercem sobre o tratado comercial entre os dois blocos, as negociações oficiais perduraram por mais de duas décadas ao total.
Durante o mês de janeiro de 2026, os representantes dos blocos confirmaram a assinatura oficial do acordo, contudo o tratado ainda passa por debates internos no Parlamento Europeu para que seja analisada a sua real implementação. Dessa forma, permanece o questionamento se este acordo continuará apenas como uma promessa futura para o desenvolvimento econômico dos países membros do Mercosul, ou se passará pelo aval das instituições políticas da estrutura da União Europeia e efetivar o compromisso firmado entre as partes.
Nos últimos anos o setor da agricultura e agronegócio na Europa passou por uma série de adaptações à nova estrutura regulamentar que passou a implementar regras ambientais mais rigorosas para promover a transição verde no continente — processo de mudança estrutural de um modelo econômico baseado em altos níveis de poluição para um modelo com maior sustentabilidade ambiental e menos emissões de gás carbônico na atmosfera — com custos mais onerosos para os produtores. Nessa conjuntura, devido a diminuição de subsídios para a área, adaptações às novas exigências de regulamentação do mercado e aumento dos custos para produção, o índice de produtividade no setor apresentou tendências mais baixas junto com uma queda na remuneração setorial. De modo consequente, protestos e reivindicações de agricultores e do agronegócio na região eclodiram exigindo maior valorização do setor que é responsável pelo abastecimento de todo o bloco.
Os debates internos no continente sobre a assinatura do contrato com o Mercosul aumentaram as preocupações e críticas do setor sobre a implementação dos pontos defendidos do tratado, principalmente sobre a forte entrada da concorrência externa do agronegócio dos países representantes do Mercosul. Uma vez que temem esta competitividade com o setor externo devido a sua maior capacidade produtiva e com preços mais baixos, os agricultores locais protestam reafirmando a importância da soberania alimentar no continente — conceito referente ao direito dos povos e sociedades de escolherem as suas políticas agrícolas e de produção, com destaque para a defesa da produção local em detrimento ao regime alimentar globalizado e mundial. Assim, estes protestos e contestações dos setores supracitados representam não somente entraves políticos para a concretização do acordo comercial com o Mercosul, haja vista que refletem também as pressões internas do bloco que não estão favorecendo o setor na região.
Em contrapartida, para os países vinculados ao Mercosul o agronegócio representa a maior expectativa de crescimento e expansão para novos mercados dos quais possuem vantagens competitivas mais favoráveis comparativamente. Outrossim, o acordo representa também uma possível diminuição da dependência econômica e comercial da região em relação aos Estados Unidos e à China, possibilitando, portanto, um novo dimensionamento de oportunidades comerciais para novos mercados e ampliação para novos parceiros diplomáticos. Nessa conjuntura, o Brasil se destaca como uma dos principais países com maiores vantagens comerciais com o tratado, uma vez que as pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) valida a previsão e expectativa para os setores de exportação de carne suína e bovina, exportação de óleos vegetais, frutas, grãos e expansão do mercado nacional de calçados.
Ademais, ainda em relação às expectativas de crescimento e desenvolvimento econômico do Brasil por meio da concretização dos compromissos firmados no acordo entre os blocos, se destacam a expectativa de aumento até o ano de 2044 em 0,34% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, aumento de 0,76% de investimento externos no país e 2,65% do aumento das exportações dos produtos nacionais em direção ao continente europeu (Ministério das Relações Exteriores, 2026). Outrossim, evidencia-se também uma modificação positiva do desenvolvimento econômico brasileiro, na medida em que se projeta um aumento de 0,42% nos salários reais do país — que representa o salário nominal deflacionado — além da diminuição de 0,56% do nível de preços ao consumidor (Ministério das Relações Exteriores, 2026). Ratificando, assim, o potencial que o acordo possui para o contexto comercial e econômico do Brasil.
Diante deste cenário, o acordo tem como objetivo promover uma área comercial com eliminação e redução das tarifas e barreiras aduaneiras no comércio de bens e serviços, facilitando o fluxo comercial neste espaço geográfico e potencializando a aproximação diplomática entre os dois blocos. Nesse cenário, haveria a eliminação de quase 90% das tarifas aduaneiras no comércio entre os representantes dos respectivos blocos econômicos por meio de uma transição paulatina dentro de 4 a 10 anos para suavizar este processo de abertura comercial entre as duas partes. Ademais, devido às fortes pressões da política interna europeia — principalmente em relação à França que possui cerca de 70% de seus alimentos nacionais produzidos pela agricultura familiar —, o acordo segue com uma aprovação de salvaguarda para alguns setores da Europa. Nesse contexto, os acordos de salvaguarda dizem respeito a medidas de proteção comercial temporária implementadas por um país para proteger a indústria nacional da entrada massiva de novos produtos importados por meio de tarifas ou cotas de importação.
Dessa forma, o acordo segue sob discussões no Parlamento Europeu devido ao entrave político envolvendo os setores de agricultura e agronegócio da região que temem a desestruturação do serviço a partir da forte competitividade externa do Mercosul. Representando, assim, um ponto de tensão no continente para seguir com a aprovação e implementação dos compromissos diplomáticos firmados entre os respectivos blocos econômicos. Para o Mercosul, o acordo representa não somente um potencial de crescimento econômico, mas principalmente um reforço no processo de inserção comercial do bloco na economia internacional, além de promover uma integração entre comércio e desenvolvimento sustentável.
Entretanto, apesar destes potenciais desenvolvimentistas para a região do Mercosul, os entraves no Parlamento Europeu reforçam a promessa histórica do acordo que ainda não foi implementado. Assim, os países do Mercosul persistem na incerteza e na expectativa para a sua aprovação na estrutura política da União Europeia para que esta promessa de crescimento econômico seja realizada.
Referências:
Ministério das Relações Exteriores. FACTSHEET Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/politica-externa-comercial-e-economica/agenda-de-negociacoes-externas/factsheet-acordo-de-parceria-mercosul-uniao-europeia. Acesso em: 29/01 de 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Ipea. Acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia traria benefícios econômicos para o Brasil. 2024. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/14875-acordo-de-livre-comercio-entre-mercosul-e-uniao-europeia-traria-beneficios-economicos-para-o-brasil. Acesso em: 29 jan. 2026.
Os Ganhos do Agro com o Acordo Mercosul-União Europeia. São Paulo: CNN Brasil, 2026. (28 min.), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zgf4dj1iDCs. Acesso em: 29 jan. 2026.
