Brasil entre blocos e fissuras: a reforma do multilateralismo em tempos de fragmentação

O posicionamento externo do Brasil nos últimos anos pode ser lido tanto como uma aposta na construção de uma nova hegemonia global, quanto como estratégia de atuação em meio ao declínio do multilateralismo. Em outras palavras, não se trata de defender a ordem internacional como ela foi, mas de disputar seus rumos enquanto ela perde coesão, legitimidade e capacidade de coordenação. Em geral, o atual governo brasileiro parece atuar para preservar arenas de coordenação – que, ainda que imperfeitas, são mecanismos de coordenação global de esforços por objetivos comuns – enquanto tenta deslocar o eixo de poder e representação em favor do Sul Global.

Essa leitura dialoga com um argumento relevante sobre a crise da governança internacional: o enfraquecimento de mecanismos multilaterais não é a causa da crise, mas um sintoma de uma disputa mais profunda de poder, interesses e legitimidade. Esse quadro tem sido tensionado, de forma particularmente visível, pela postura dos EUA –  sobretudo nas inflexões mais abertamente anti-multilaterais do trumpismo – ao combinar uma retórica de deslegitimação das instituições e preferência por medidas unilaterais agressivas (especialmente comerciais). É exatamente nesse tipo de contexto que o Brasil parece se mover.

Esse diagnóstico ajuda a interpretar o posicionamento do Brasil em duas frentes aparentemente distintas, mas politicamente convergentes: a liderança regional no Mercosul e a centralidade atribuída ao BRICS. Em ambos os casos, o país atua como um agente que busca preservar espaços multilaterais, ainda que fragilizados, e simultaneamente reformá-los por dentro. Na narrativa oficial do governo, isso é explícito: a política externa é apresentada como retomada de protagonismo via fóruns multilaterais, com o BRICS como um dos principais eixo central e o MERCOSUL como instrumento de integração regional e inserção internacional. A própria Secom destaca a presidência brasileira do BRICS em 2025 sob o lema de uma governança “mais inclusiva e sustentável”, além da presidência pro tempore do MERCOSUL no segundo semestre de 2025, com foco em coesão regional, mercado comum e agendas estratégicas1.

Esse movimento ganha densidade quando olhamos o tabuleiro concreto. No caso do MERCOSUL, o Itamaraty registrou em dezembro de 2024 a conclusão definitiva das negociações do acordo MERCOSUL-União Europeia (com todos os capítulos concluídos), e em 2026 avançou na discussão de sua implementação, ainda que sob resistência política dentro da EU (O Acordo Mercosul e União Europeia: Impasses e Promessas de Crescimento Econômico para a Região). A própria urgência europeia em acelerar esse acordo esteve associada ao ambiente de tarifas e tensões comerciais com os EUA. A despeito das distintas problemáticas do acordo, o posicionamento ativo do governo brasileiro em sua elaboração não diz respeito somente à sua estratégia econômica nacional – por meio da diversificação de suas parcerias comerciais ou a modernização do parque industrial via integração às cadeias produtivas do bloco europeu – mas à formação de um dos maiores acordos bilaterais de livre comércio do mundo em meio à um sistema internacional fragmentado.

No eixo BRICS, o movimento é semelhante, mas talvez com uma inflexão ainda mais explícita de reforma da ordem internacional, combinando reforma da governança global e construção gradual de instrumentos paralelos que viabilizam uma inserção mais justas de países do Sul Global na economia internacional. A presidência brasileira do bloco em 2025 foi formulada sob o signo de uma governança “mais inclusiva e sustentável”, com ênfase em reforma das instituições multilaterais e fortalecimento da voz dos países em desenvolvimento.

Os debates em torno do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) – o banco dos BRICS – ajudam a qualificar o argumento. O NDB pode ser entendido como expressão de uma estratégia típica de criação de instituições alternativas sem abandonar completamente as instituições existentes. A literatura sobre o banco mostra que ele amplia a arquitetura financeira internacional, fortalece coordenação entre países do BRICS e abre margem para instrumentos como financiamento em moeda local – o que pode reduzir dependências estruturais –, mas sem representar uma ruptura plena com a ordem financeira vigente (ver Godinho e Mattos, 2025)2. Em termos políticos, isso significa que o BRICS opera menos como substituto imediato do sistema e mais como pressão organizada por reequilíbrio dentro dele – dinâmica que se expressa também com indícios da tentativa de desdolarização de ativos e operações do banco.

É aqui que entra a questão dos EUA no governo Trump. O problema não é apenas a retórica anti-multilateral e agressivamente nacionalista – deixando de lado todas as outras atrocidades xenofóbicas, racistas e negacionistas que o governo reproduz –, mas sua tradução institucional: ordem de retirada do Acordo de Paris, saída da OMS, suspensão de negociações correlatas e, mais recentemente, anúncio de retirada de dezenas de entidades internacionais e da ONU, além de memorandos e medidas tarifárias. Se esse padrão de isolamento político persistir, a perda potencial dos EUA não é apenas comercial, mas de capacidade hegemônica. Hegemonia não é só poder material; é também capacidade de definir normas, pautas e procedimentos legítimos. Ao se retirar de arenas multilaterais, Washington pode preservar instrumentos de coerção bilateral no curto prazo, mas tende a perder presença justamente nos espaços de formação de hegemonia, na medida em que outros autores passam a disputá-lo enquanto outros atores passam a disputar novos espaços de hegemonia. Essa é uma erosão menos visível do que uma derrota militar ou econômica, mas potencialmente decisiva.

Nesse cenário, o posicionamento brasileiro ganha destaque na sua articulação do Mercosul, BRICS e outras frentes de cooperação, ampliando sua margem de manobra num mundo fragmentado – sem abandonar estes fragmentos de multilateralismo, mas propondo sua restruturação justamente quando parece estar cedendo.


  1. Secretaria de Comunicação Social (2026). Em três anos, Brasil consolida nova fase da política externa e amplia influência global. https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2025/12/em-tres-anos-brasil-consolida-nova-fase-da-politica-externa-e-amplia-influencia-global ↩︎
  2. Godinho, E., Mattos, B. S. (2025). The New Development Bank and the Ecological Transition: Decoupling Development Finance from Core Currency Hegemony? Institute for International Political Economy Berlin, Working Paper 260/2025. https://www.ipe-berlin.org/fileadmin/institut-ipe/Dokumente/Working_Papers/Working_Paper_260_2025.pdf ↩︎