Na coluna “O que fazer quando votam contra o seu direito de votar”, relatei uma manhã fria em Viena, um trem rumo a Budapeste e uma palestra que desmontou algumas das certezas mais confortáveis que costumamos nutrir sobre democracia, eleitorado e educação. Ali, diante das evidências apresentadas por Svolik, ficou claro que uma parte substantiva dos eleitores sabe o que é democracia e ainda assim opta conscientemente por enfraquecê-la quando políticas específicas lhes parecem mais atraentes.
Essa constatação obriga qualquer reflexão séria sobre educação e democracia a reformular sua premissa básica: a pergunta já não pode ser se a educação em geral protege a democracia. A pergunta correta é outra: que tipo de educação, em que contexto institucional, para qual eleitorado, e competindo com quais forças sociais?
Esta coluna parte desse ponto. Ela não retoma os argumentos sobre o papel do eleitorado, já tratados em “O que fazer quando votam contra o seu direito de votar” nem o diagnóstico institucional da autocratização apresentado em “Que a resistência lhe traga liberdade, ainda que não lhe traga paz”. O foco aqui é mais específico, e talvez mais desconfortável: educação não é antídoto automático contra o autoritarismo; é uma arena política disputada.
A ilusão democrática da escola
O fim da Guerra Fria trouxe consigo uma euforia democrática ímpar na história mundial, e com ela uma crença quase consensual: educação de massas produziria cidadãos democráticos. A ideia, associada ainda aos trabalhos clássicos de Lipset, parecia simples. Bastaria escolarizar para imunizar sociedades contra recaídas autoritárias.
O problema é que essa narrativa ignora a genealogia da própria educação de massas. Como já sabemos hoje, os primeiros grandes sistemas educacionais de massa não foram concebidos para emancipar cidadãos, mas para disciplinar populações. A Prússia absolutista liderou o processo na Europa; na América Latina, foram oligarquias que expandiram a escolarização muito antes de qualquer democratização efetiva. Quando a democracia chegou, as crianças já estavam nas escolas, doutrinadas a obedecer o regime e a manter a coesão social.
Isso nos obriga a reconhecer algo incômodo: educação sempre foi politicamente funcional. A questão nunca foi se ela molda comportamentos políticos, mas a serviço de quem e de quê.
Educação não é variável binária
Um dos erros mais persistentes do debate público é tratar educação como uma variável binária: existe ou não existe. Na prática, seus efeitos dependem de contingências muito específicas, e ignorá-las leva a diagnósticos equivocados.
A primeira dessas contingências diz respeito à pedagogia e ao currículo. Aqui, a obra de Paulo Freire continua central, apesar de tão perseguida e estigmatizada no contexto nacional. A chamada educação “bancária”, que deposita conteúdos prontos na mente dos estudantes e naturaliza hierarquias, tende a reproduzir relações de dominação. Já abordagens emancipatórias, baseadas em diálogo e conscientização, incentivam questionamento da autoridade e participação política.
A história ilustra bem esse ponto. No século XIX, ao enviar estudantes ao exterior para aprender técnicas militares e administrativas, a dinastia Qing da China acabou expondo jovens chineses a ideias políticas e sociais profundamente transformadoras. O objetivo era fortalecer o regime; o efeito foi o oposto. O currículo e o método importaram mais do que a intenção inicial do Estado, e a China foi engolida por um período de revoluções profundamente transformador.
Evidências contemporâneas também reforçam essa intuição: intervenções mínimas de alguns minutos de educação cívica, quando bem desenhadas, produzem efeitos mensuráveis na rejeição ao autoritarismo. Não é a quantidade de escolarização que importa, mas o que se ensina, como se ensina e com que horizonte normativo.
Acesso desigual, cidadania fraturada
A segunda contingência é o acesso e a qualidade. Educação pode operar como mecanismo de controle mesmo sem doutrinação explícita, simplesmente quando é distribuída de forma desigual. Ao oferecer formação de qualidade às elites e educação precária ao restante da população, regimes reforçam hierarquias sociais e produzem desengajamento político.
No Brasil, essa lógica ajuda a compreender fenômenos históricos como o coronelismo. Onde o Estado falha em garantir educação inclusiva, indivíduos deixam de se perceber como cidadãos e passam a depender de redes locais de patronagem. A política se personaliza, a lealdade se desloca do regime para o intermediário, e formas regionais de autoritarismo prosperam à margem da democracia formal.
Garantir acesso equitativo à educação de qualidade, portanto, não é apenas política social. É política democrática estrutural: reduz dependências pessoais, enfraquece clientelismos e fortalece a identificação com uma comunidade política mais ampla.
Heranças autoritárias e limites da educação
A terceira contingência dialoga diretamente com o argumento desenvolvido em “Uma Herança Maldita”: o passado não passa. Mesmo após transições democráticas, decisões institucionais e padrões de socialização herdados do autoritarismo continuam moldando comportamentos e expectativas.
Como argumenta Paul Pierson, instituições carregam path dependencies. Currículos, práticas administrativas e culturas escolares criadas sob regimes autoritários impõem custos elevados à mudança posterior. Ao mesmo tempo, como mostram os trabalhos de Anja Neundorf, indivíduos socializados sob autoritarismo tendem a internalizar normas e crenças que limitam o impacto de experiências democráticas posteriores.
Daí a importância de pensar educação não apenas como política setorial, mas como projeto social abrangente, que envolva famílias, comunidades, mídia e instituições.
Quando educação não basta, mas ainda importa
A evidência discutida na coluna sobre o eleitorado impõe um limite claro: educação não elimina escolhas antidemocráticas conscientes. Muitos eleitores sabem o que é democracia e ainda assim optam por políticas que a corroem. Isso não invalida a educação como instrumento democrático, mas redefine seu papel.
Educação democratizante não é apenas descritiva. Ela precisa ensinar a identificar desinformação, compreender projetos populistas e reconhecer como práticas autoritárias afetam grupos sociais específicos, inclusive aqueles que acreditam estar se beneficiando delas. Mesmo assim, sempre haverá quem escolha abrir mão da democracia. A diferença crucial é quantitativa: uma educação bem desenhada reduz essa parcela a um grupo politicamente insuficiente para sustentar a autocratização via eleições.
Educação como arena, não como solução mágica
A conclusão é menos confortável do que gostaríamos, mas mais honesta. Educação não é antídoto automático contra o autoritarismo. Ela é arena de disputa política. Pode servir à doutrinação ou à emancipação, à reprodução de hierarquias ou à inclusão, à apatia ou à participação.
Seu potencial democratizante depende de desenho institucional, currículo, acesso, qualidade e da capacidade da democracia de oferecer experiências materiais e simbólicas que tornem seus valores críveis. Educação continua sendo uma das ferramentas mais promissoras para fortalecer a democracia, desde que abandonemos a ilusão de neutralidade.
Ignorar isso é repetir um erro recorrente das democracias: confiar que instrumentos, por si só, resolvem problemas que são, no fundo, de poder, conflito e escolha.
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