Segurança energética, guerra e clima: em que ponto estamos?
Por Beatriz Simonetti 17/04/2026 8 min
A militarização e geopolitização da agenda climática
Como a crise ecológica é, em essência, uma crise multidimensional, tão complexa quanto escalável, as agendas de mudança do clima tem sido facilmente instrumentalizadas para alcançar objetivos geopolíticos, políticos e econômicos distintos da mitigação ou adaptação climática. Nos últimos anos, testemunhamos a ascensão de argumentos e estratégias específicos de transformação econômica voltados à sustentabilidade e à mudança do clima, que dependem cada vez mais de questões de segurança, seja ela energética, nacional ou social. Argumenta-se, contudo, que, para além de uma reorientação estratégica, as estratégias modernas de descarbonização, em seu núcleo, têm o potencial de alimentar a segurança global e a rivalidade geopolítica (Brand e Wissen, 2024), com a ascensão da segurança militar “instrumentalizando” as agendas climáticas e de transição energética (Voung et al., 2024).
Alguns pesquisadores identificaram o surgimento do que cunharam como o “nexo segurança-sustentabilidade”, explicitando que, em diferentes contextos nacionais, um conjunto articulado de políticas e justificativas que combinam interesses estatais em dominância geopolítica com interesses corporativos em estabilidade das cadeias de suprimento tem sido apresentado como parte de estratégias de abastecimento sustentável, resiliente ou verde (Riofrancos, 2024). A raiz dessa interseção entre segurança e sustentabilidade talvez resida no fato de que, de uma perspectiva material, os chamados minerais críticos são essenciais para a manufatura de materiais relevantes tanto para a adoção de fontes de energia renováveis, como a produção de baterias, painéis solares e turbinas eólicas, quanto para aplicações de alta tecnologia em defesa e inteligência, como computação de alta velocidade, sistemas magnéticos avançados, entre outros.
O American Mineral Security Act de 2019 é um dos exemplos usados por Riofrancos (2024) - que pode ser bem estendido ao SECURE Minerals Act de 2026 - como marcos regulatórios dos EUA mobilizando políticas industriais lideradas pelo Estado que fortalecem as cadeias de produção de minerais críticos, concebidas para, simultaneamente, responder aos interesses estatais de contrapor a dominância geopolítica e de mercado chinesa e assegurar as necessidades corporativas e setoriais de estabilidade da cadeia de suprimento, tudo isso enquanto se enquadram como uma alternativa “verde” ambientalmente superior às importações estrangeiras. A garantia de “preços economicamente sustentáveis” também é um enquadramento presente, sob a exploração de uma dualidade particular no significado de sustentabilidade que pouco tem a ver com preços orientados ambientalmente, mas sim com a obtenção de preços competitivos de longo prazo, sustentados, nos mercados globais.
De modo semelhante, as tensões geopolíticas dos anos 2020 também empurraram o panorama de políticas da UE em direção a prioridades de segurança e competitividade: em particular, os objetivos de descarbonização estabelecidos no Green Deal da UE agora são contrastados com objetivos de melhoria da segurança energética e da autonomia estratégica aberta (Kivimaa and Entsalo, 2026). Nesse sentido, a política industrial da UE também mudou de uma agenda orientada ao clima e à sustentabilidade para uma era de priorização da competitividade sustentável, da defesa e da segurança - como explicitado na agenda de prioridades da União Europeia para 2024-2029.
Esse entrelaçamento entre estratégias de segurança e sustentabilidade implica que parte do espaço da política ambiental internacional tornou-se um local de conflito em vez de cooperação, à medida que os Estados priorizam a competitividade nacional em detrimento da efetiva reestruturação socioecológica dos padrões de produção e consumo, a qual, argumentavelmente, envolve a redução de escala das cadeias globais de valor industriais em direção a modos de vida localmente baseados e menos intensivos em materiais.
Os impactos da guerra em sistemas de provisão de energia
Como mencionado brevemente, parte do processo de mudança de prioridades geopolíticas foi, e continua a ser, influenciada pelos conflitos militares dos anos 2020. Aqui, referimo-nos ao que alguns analistas denominaram “o novo choque gêmeo dos fósseis”, a saber, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e a guerra EUA-Israel com o Irã em 2026.
De acordo com a Agência Internacional de Energia, o conflito Rússia-Ucrânia em fevereiro de 2022 desencadeou a primeira crise energética verdadeiramente global do século. Como a Rússia é o maior exportador mundial de combustíveis fósseis, os preços da energia, em particular do gás natural liquefeito (GNL), dispararam. Embora agora tenham recuado dos recordes históricos, a tendência varia amplamente entre as regiões. Em muitas partes do mundo, os preços permanecem elevados e se espalham por toda a economia, afetando particularmente o custo de vida das famílias e o acesso à eletricidade. Esse conflito exacerbou a dependência da UE do gás natural russo.
É interessante notar, contudo, que uma parte considerável do déficit de gás natural da União Europeia foi coberta por uma mudança para a importação de gás natural dos EUA, em vez de uma transição efetiva para fontes de energia alternativas e renováveis. Isto é, apesar do choque, vastas quantidades de financiamento público e privado da UE foram permitidas - e incentivadas - a fluir para estruturas de provisão de gás natural, centros de dados de IA e expansão militar, enquanto as bases materiais da segurança energética - ou seja,os fundamentos para sistemas alternativos de provisão de energia, como redes renováveis e capacidade ampliada de armazenamento - permaneceram subfinanciados e deficientes.
Assim, não é surpresa que, de forma semelhante, devido ao conflito desencadeado no Oriente Médio pela guerra EUA-Israel com o Irã, a União Europeia esteja revivendo as mesmas dores de uma crise de segurança energética. As tensões em torno do Estreito de Ormuz, uma via navegável crucial para que o petróleo e o gás do Golfo alcancem compradores globais, levaram à interrupção da maior rota mundial de suprimento de petróleo e GNL, restringindo a oferta global de combustíveis fósseis (Ember Energy, 2026).
Fonte IEA (2026)
Ambas as guerras alteraram profundamente os padrões de comércio de petróleo e gás natural, evidenciando a necessidade de reestruturação das cadeias globais de combustíveis e dos sistemas energéticos locais. No entanto, também se argumenta que a guerra no Irã exemplifica essa mudança na lógica de segurança nacional em relação às renováveis (Center for Climate and Security). O fato é que as tensões crescentes envolvendo sistemas energéticos globais interligados e a inevitável crise de dependência energética podem estimular formas específicas de abastecimento de materiais críticos e de energia que são profundamente nacionalistas e geopoliticamente agressivas, ameaçando interromper a cooperação global necessária para enfrentar a policrise que define a contemporaneidade.
O preço da guerra para a economia e a transformação ecológica brasileira
Os impactos da guerra do Irã no Brasil estiveram principalmente associados ao preço dos combustíveis e aos seus efeitos nos setores de logística, transporte e comércio, em função do potencial de inflação desses produtos ao longo de todas as cadeias produtivas. Embora a pauta comercial do Brasil com o Irã seja limitada, há um peso relativo na importação de fertilizantes iranianos — insumo profundamente relevante para o agronegócio brasileiro. A dependência da agricultura brasileira do fornecimento internacional de fertilizantes, sobretudo provenientes da Rússia, é um dos pontos de fragilidade associados aos conflitos militares mencionados.
Assim, o impacto mais claro sobre a economia brasileira foi o inflacionário nos combustíveis, mas não sobre a provisão nacional de energia. O dilema petrolífero no Brasil põe em xeque a política de preços da Petrobrás de paridade internacional — um debate extenso e polêmico que, fundamentalmente, diz respeito à ousadia do governo em adotar medidas de soberania nacional e de proteção da economia e da população frente ao choque inflacionário.
Embora o Brasil ainda dependa da importação de GNL, os impactos das guerras sobre os sistemas de provisão de energia e sobre a segurança energética brasileira — definida como a disponibilidade ininterrupta de energia, em quantidade suficiente e a preços acessíveis para todos — não foram tão exacerbados, dada a realidade de diversificação da matriz energética brasileira. Neste sentido, a segurança energética no Brasil hoje depende mais dos impactos das mudanças climáticas e da estruturação de um sistema de provisão de energia que aproveite estrategicamente o potencial de geração de energia renovável do país. Atualmente, há um descompasso entre a geração e o consumo de energia elétrica, o que acarreta problemas. Sistemas de armazenamento de energia são fundamentais no contexto da transição energética para compensar a intermitência das fontes renováveis.
É notável que as economias estão cada vez mais interligadas e que os riscos de perturbações nas cadeias de valor - sejam decorrentes de fatores climáticos ou geopolíticos — também vêm aumentando. O posicionamento brasileiro diante deste fato deve, assim, refletir as lições aprendidas no contexto internacional, dando foco particular à (i) transformação dos sistemas de provisão social domésticos, de modo à torná-los menos vunlneráveis às dependências internacionais — por exemplo, por meio da diversificação e da descentralização - sem (ii) acirrar o posicionamento predatório sobre os recursos naturais globais, de modo a fragilizar os espaços internacionais de cooperação em função de bravatas expansionistas e ultranacionalistas.
No caso da proteção dos sistemas energéticos nacional, parcialmente dependente de importações de gás natural, uma política mais adequeada à segurança energética nacional pode tem como ponto de partida a diversificação e descentralização da matriz energética, fomentando (i) a produção de popular de energia, por exemplo por meio da produção comunitária de biogás por meio da gestão circular de resíduos orgânicos locais, somada (ii) à expansão e fortalecimento da provisão e armazenamento públicos de energia elétrica.
Referências
BRAND, U.; WISSEN, M. Eco-Imperial Tensions: Decarbonization Strategies in Times of Geopolitical Upheaval. Critical Sociology. p 08969205241252774. 2024. doi: 10.1177/08969205241252774
KIVIMAA, P.; ENTSALO, H. Synergies and Tensions between Decarbonisation, Security and Strategic Autonomy in EU Energy Policy. Environmental Innovation and Societal Transitions. v. 59. p 101109. 2026. doi: 10.1016/j.eist.2026.101109
RIOFRANCOS, T. The Security–Sustainability Nexus: Lithium Onshoring in the Global North. Global Environmental Politics. v. 23. n. 1. p 20–41. 2023. doi: 10.1162/glep_a_00668
VUONG, Q. H.; LA, V. P.; NGUYEN, M. H. Weaponization of Climate and Environment Crises: Risks, Realities, and Consequences. Environmental Science & Policy. v. 162. p 103928. 2024. doi: 10.1016/j.envsci.2024.103928