Artigo de Opinião Panorama geral

A Militarização Criminal na América Latina: Drones, impressão 3D e a nova face dos conflitos urbanos

Por Cinthya Araújo Gomes 29/05/2026 8 min

A Militarização Criminal na América Latina: Drones, impressão 3D e a nova face dos conflitos urbanos

Em outubro de 2025, durante a megaoperação com 2.500 agentes das forças de segurança do RJ nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, houve quem ficasse surpreso com o Comando Vermelho (CV) usando drones para lançar granadas e bombas de fumaça sobre a polícia. No entanto, não foi uma adaptação nascida do mero improviso, na verdade, a tática usada pelo CV foi o resultado de uma curva de aprendizado construída ao longo de anos e, segundo investigações da Polícia Federal, boa parte desse conhecimento veio de vídeos de combate da guerra na Ucrânia.

Além disso, o episódio não é algo exclusivo nessa operação e nem do Rio de Janeiro. É um padrão que tem sido observado desde Michoacán ao Morro da Providência, de Catatumbo ao Rio Grande do Sul. Os drones e armas 3D têm sido um ponto central na transformação da forma como o crime organizado latino-americano se arma, se posiciona e combate. 

A Ucrânia como sala de aula do narcotráfico

Para entender o que aconteceu no Rio de Janeiro em outubro de 2025, é preciso olhar para um lugar aparentemente distante: as trincheiras do leste europeu. Desde 2022, a guerra russo-ucraniana consolidou-se como o maior laboratório de inovação em drones da história moderna. Drones comerciais baratos ganharam espaço entre as tropas tradicionais, e as imagens desse processo circularam livremente pelas redes sociais, acessíveis a qualquer pessoa com uma conexão à internet.

Segundo informações dos serviços de contrainteligência ucranianos (SBU), sicários vinculados a cartéis mexicanos e colombianos chegaram a se alistar na Legião Internacional da Ucrânia com o objetivo de aprender táticas avançadas de guerra com drones FPV (First Person View). Um funcionário de segurança ucraniano resumiu o fenômeno de forma direta: “A Ucrânia se tornou uma plataforma para a difusão global de táticas FPV.”

O impacto dessa transferência de conhecimento já é mensurável. No México, o número de ataques com drones explosivos saltou de apenas 5 registros em 2020 para mais de 40 por mês em 2023. Entre 2021 e 2025, o ACLED documentou 221 ataques com drones explosivos atribuídos a cartéis mexicanos. No Brasil, o tipo de resposta do CV no Complexo da Penha, em outubro de 2025, representou o primeiro uso ostensivo de drones armados contra agentes do Estado no país, e, segundo analistas, certamente não será o último.

Do contrabando ao combate: a evolução em fases

O uso de drones pelo crime organizado não surgiu pronto. Ele passou por uma evolução em fases distintas, cada uma mais sofisticada que a anterior.

A primeira fase, observada no México entre 2009 e 2014, era logística: drones comerciais simples eram usados para entregar drogas, armas e celulares dentro de presídios, voando por cima dos muros, invisíveis às câmeras e aos guardas. No Brasil, a “Operação Mavick”, deflagrada no Rio Grande do Sul, desarticulou uma rede que importava drones do Paraguai e da China especificamente para esse fim. A lógica era de eficiência: eliminar intermediários humanos no contrabando prisional.

A segunda fase foi de vigilância e inteligência. Drones passaram a monitorar operações policiais em tempo real, mapeando posições de agentes, rotas de acesso e pontos de vulnerabilidade. No Brasil, a Polícia Civil de São Paulo apreendeu aparelhos que filmavam a rotina de agentes prisionais em 23 unidades carcerárias, com as imagens sendo divulgadas em redes sociais, uma operação de coleta de inteligência que rivalizaria com a de muitas forças de segurança estatais. Facções chegaram a usar drones para monitorar promotores e coordenadores de presídios específicos.

A terceira fase, a mais preocupante, foi a militarização. O Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) foi pioneiro nesse processo, chegando a institucionalizar a capacidade com a criação de uma unidade especializada, os chamados Operadores Droneros, com insígnia própria e treinamento dedicado. Em abril de 2025, um vídeo nas redes sociais mostrou o primeiro uso confirmado de um drone kamikaze por um cartel mexicano, atribuído ao CJNG. Na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN) usou drones para matar um menino de 10 anos em julho de 2024, o primeiro ataque letal com drone registrado no país, e chegou a distribuir avisos a moradores de Cauca e Valle del Cauca, alertando que bases militares e delegacias seriam atacadas por essa via.

Henry Ziemer, especialista do Center for Strategic and International Studies (CSIS) alerta que as organizações criminosas transnacionais estão inovando mais rápido do que as forças de segurança da região, e que uma quarta fase está por vir: ataques coordenados contra as Forças Armadas com menor risco operacional para o crime e capacidade de atuar em ambientes urbanos complexos.

A fábrica que cabe num apartamento

Paralela à corrida pelos drones, o crime organizado também se profissionaliza na produção de armas em impressoras 3D. As chamadas “armas-fantasma” são fabricadas a partir de arquivos digitais disponíveis na internet, utilizando plástico de engenharia e componentes metálicos de fácil acesso. Seu nome vem da característica que as torna especialmente perigosas para os sistemas de rastreamento tradicionais: não possuem número de série. Uma arma sem serial é uma arma sem história, impossível de rastrear até o fabricante, até o comprador, até a vítima.

No Brasil, entre 2024 e 2025, a Polícia Civil realizou ao menos sete apreensões em cinco estados diferentes, desmantelando fábricas que operavam dentro de apartamentos residenciais comuns. Em março de 2025, quatro impressoras 3D foram encontradas em um apartamento em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, junto com 59 carregadores de pistola e insumos avaliados em R$ 30 mil. Dois meses depois, em março de 2026, a Operação Shadowgun,  conduzida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro em parceria com o GAECO e o Ministério da Justiça, cumpriu 36 mandados de busca e apreensão em 11 estados, prendendo quatro pessoas e identificando ao menos 79 compradores entre 2021 e 2022, parte deles com antecedentes de tráfico de drogas e vínculos com milícias.

O líder da organização desarticulada na Shadowgun era um engenheiro especializado em controle e automação. Usando pseudônimos em plataformas online, ele produziu um manual com mais de cem páginas explicando passo a passo como fabricar as armas, da impressão das peças à montagem final, permitindo que qualquer pessoa com conhecimento intermediário em impressão 3D pudesse produzir um armamento semiautomático em poucas semanas, com equipamentos comprados livremente no mercado.

O fato é que em vez de importar o fuzil inteiro, operação cara e arriscada, as organizações criminosas passaram a imprimir as partes plásticas localmente e importar apenas os componentes metálicos mais difíceis de produzir. A cadeia de suprimentos foi fragmentada, distribuída e digitalizada.

Uma assimetria que o Estado está demorando para compreender

Há um paradoxo incômodo no centro dessa história. As tecnologias que o crime organizado está usando, drones comerciais, impressoras 3D, arquivos de design compartilhados online, são as mesmas que estão disponíveis para qualquer pessoa em qualquer loja de eletrônicos ou plataforma de e-commerce. A diferença não está no acesso à tecnologia, mas na velocidade de adaptação e na ausência de burocracia.

Enquanto forças de segurança precisam de aprovações institucionais, licitações, treinamentos padronizados e protocolos legais para incorporar novas tecnologias, uma facção criminosa pode comprar um drone, assistir vídeos do YouTube e do Telegram durante uma semana, e estar operacional. O CJNG, por exemplo, chegou a investir em suas próprias contramedidas anti-drone: membros da facção Mayito Flaco do Cartel de Sinaloa foram fotografados portando inibidores anti-UAV SkyFend com preço de mercado de aproximadamente US$ 100 mil, equipamento que muitas forças policiais latino-americanas ainda não possuem.

No Brasil, a resposta legislativa chegou com atraso, mas chegou. Em novembro de 2025, a CCJ da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que tipifica como crime a posse, o controle, o uso ou a ocultação de drones com fins ilícitos, com penas de 2 a 6 anos, podendo chegar a 12 anos quando o equipamento for usado para disparar armas ou lançar explosivos. A tramitação ganhou força justamente após a repercussão do ataque no Complexo da Penha. É o padrão clássico: a lei corre atrás do fato. E o pior nesse cenário, é a ideia de que a mera legislação fará o trabalho de enforcement ou dissuadir algum desses usuários e organizações de utilizar esses drones.

O dilema se torna ainda mais profundo, o criminologista e especialista em conflitos urbanos Peter Andreas argumenta, em sua obra Smuggler Nation, que o Estado historicamente perde na corrida tecnológica contra o crime organizado justamente porque o crime não tem obrigação de justificar seus investimentos ou seguir protocolos de aquisição. Cada nova barreira imposta pelo Estado gera uma inovação na resposta criminal, não por genialidade, mas por pressão darwiniana. Quem não se adapta, é eliminado pelo rival que se adaptou.

O que a América Latina está vendo hoje é essa lógica em velocidade acelerada, potencializada pela globalização tecnológica. Os drones que foram desenvolvidos para entregar pizzas e fotografar casamentos estão sendo usados para lançar granadas sobre policiais. As impressoras que foram criadas para democratizar a fabricação de objetos estão sendo usadas para democratizar a produção de armas sem rastreamento. E os vídeos de combate de uma guerra na Europa Oriental estão sendo usados como tutoriais para facções criminosas no Complexo do Alemão.

O que vem a seguir?

No curto prazo, o receio é de que drones coordenados por um único operador comecem a aparecer em operações criminosas de maior escala, como já ocorre em conflitos militares. No médio prazo, o uso de drones marítimos de superfície e submersíveis, uma evolução dos narcosubmarinos que já operam no Pacífico, pode se tornar o próximo vetor dominante no transporte internacional de entorpecentes. O que está claro é que a resposta não pode ser exclusivamente policial. Ela exige integração entre inteligência, defesa, regulação tecnológica e controle do espaço aéreo

O fato é que a tecnologia não nos salvará, mas por outro lado, quem nos salvará dela? Se o debate ainda ficar fixado em compreender se o que o crime organizado faz é inovação ou adaptação, continuaremos andando eternamente em círculos. As forças de segurança regulares precisam se não adquirir  a expertise de operar esses equipamentos, pelo menos estabelecer dinâmicas eficientes de combate à elas. Reitero que a tecnologia não deve ser tratada como a solução de todos os problemas, mas aparentemente também estamos deixando a criatividade humana no lado errado da história.

Referências

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/armas-feitas-em-impressora-3d-lider-de-quadrilha-e-preso-em-sao-paulo/

https://inews.co.uk/news/world/brutal-cartels-scaling-up-drone-threat-us-struggling-fight-back-4236287

https://diario.mx/el-paso/2025/nov/23/imparables-ataques-de-carteles-con-drones-1094910.html

https://www.wsj.com/world/americas/colombia-cocaine-drones-drug-trafficking-7f9642d9

https://www.infobae.com/america/mundo/2025/10/14/carteles-mexicanos-se-infiltraron-en-la-legion-internacional-de-ucrania-para-aprender-tacticas-de-guerra-con-drones/

https://www.portaltela.com/noticias/politica/2025/05/07/aumento-de-apreensoes-de-armasfantasmas-feitas-em-impressoras-3d-preocupa-autoridades/

https://theconversation.com/a-verticalizacao-do-conflito-urbano-como-drones-de-guerra-migraram-da-ucrania-para-o-crime-no-brasil-268557

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/projeto-que-criminaliza-uso-de-drones-pelo-crime-organizado-avanca-na-camara/

https://en.sociedademilitar.com.br/2026/02/carteis-mexicanos-drones-espionagem-trafico-brasil-2025.html

https://www.elimparcial.com/mexico/2026/02/28/al-menos-cinco-carteles-en-mexico-han-utilizado-drones-con-explosivos-en-221-ataques-entre-2021-y-2025-segun-acledp

Andreas, Peter. Smuggler Nation: How Illicit Trade Made America. Oxford University Press, 2013.