Artigo de Opinião

Paraguai: O novo refúgio da direita brasileira?

Por Djalma de Souza da Silva Filho 06/06/2026 6 min

Paraguai: O novo refúgio da direita brasileira?

Durante décadas, a migração de brasileiros em direção ao Paraguai esteve associada sobretudo a motivações econômicas. Nesse contexto, a busca por produtos de menor custo para revenda no Brasil, assim como o ingresso em universidades privadas — principalmente nos cursos de medicina e saúde no geral — constituíram alguns dos principais fatores e motivadores responsáveis pelo fluxo migratório em direção ao país vizinho. Nos últimos anos, entretanto, observa-se o surgimento de uma nova dinâmica migratória, marcada não apenas por interesses econômicos, mas principalmente por motivações políticas e ideológicas.

Assim sendo, Impulsionado por discursos propagados em redes sociais, canais de vídeo e grupos digitais — como o Youtube, Tiktok, Telegram e outros mais —, o Paraguai passou a ser apresentado por determinados segmentos da direita brasileira como uma alternativa que poderia oferecer maior liberdade econômica, menor carga tributária, menor índice de intervenção estatal e um ambiente político entendido como mais conservador. Nesse imaginário, o país surge como um contraponto ao cenário político brasileiro contemporâneo, frequentemente retratado por esses grupos como excessivamente regulado, tributado ou distante de seus valores políticos.

Esse fenômeno ganha ainda mais relevância no contexto das transformações recentes da política brasileira. Dessa forma, a volta do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo federal, os desdobramentos institucionais relacionados aos eventos de 8 de janeiro de 2023 e a crescente polarização política contribuíram para que parte desse eleitorado passasse a considerar alternativas de migração internacional. Diante das barreiras econômicas e burocráticas impostas por destinos tradicionalmente desejados, como Estados Unidos e países europeus, o Paraguai apresenta vantagens evidentes: proximidade geográfica, custos relativamente baixos, facilidade de deslocamento e uma significativa presença da comunidade brasileira em seu território.

Dessa forma, um fluxo migratório historicamente consolidado desde a construção da Ponte Internacional da Amizade passa a incorporar novos perfis de migrantes, incluindo aposentados, pequenos empresários e profissionais liberais atraídos por promessas de menor tributação e maior liberdade econômica. Contudo, para além das narrativas difundidas nas redes sociais e dos discursos políticos que cercam esse movimento, permanece uma questão fundamental: o modelo paraguaio corresponde, de fato, ao refúgio político e econômico imaginado por parte da direita brasileira?

Somente no ano de 2025 foram concedidas pelas autoridades paraguaias 23,5 mil autorizações de residências a brasileiros. Constituindo, segundo os dados da Direção Nacional de Migrações, um processo de crescimento constante desde o ano de 2020. Devido ao alto movimento migratório, que vale salientar passou a se consolidar a partir de motivações de alinhamento político e econômico, neste ano as autoridades locais necessitaram realizar mutirões de atendimento para dar vazão a  quantidade de brasileiros solicitando a entrada no país (Tavares, 2026). 

Nesse contexto, a imagem do Paraguai como um “paraíso da desburocratização” passou a ganhar força nos círculos liberais e conservadores brasileiros, especialmente nas redes sociais. Para esse público, o país representa uma alternativa ao modelo econômico brasileiro, frequentemente criticado por sua elevada carga tributária, complexidade regulatória e forte presença estatal em diversos setores da economia. A ideia de um Estado mais enxuto e menos intervencionista encontra, portanto, no caso paraguaio, um exemplo frequentemente mobilizado como símbolo de liberdade econômica e de maiores oportunidades para empreendedores e investidores.

Um dos principais pilares desse discurso está relacionado principalmente à política tributária adotada pelo Paraguai desde o início dos anos 2000. Nesse sentido, a Lei de Maquila tornou-se um dos instrumentos centrais da estratégia nacional de atração de investimentos estrangeiros. Inspirado na política industrial implementada no México, o regime permite que empresas voltadas à exportação operem sob condições tributárias altamente favoráveis, pagando apenas uma taxa reduzida sobre o valor agregado gerado no país e usufruindo de benefícios para a importação de máquinas, equipamentos e insumos produtivos. O objetivo dessa política foi transformar o Paraguai em um pólo competitivo para a instalação de indústrias voltadas aos mercados regionais e internacionais.

Paralelamente, o chamado sistema tributário "10-10-10" — baseado em alíquotas de 10% para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), para o imposto de renda das empresas e para o imposto de renda da pessoa física — consolidou a imagem do país como uma das economias com menor carga tributária da América do Sul. Somam-se a isso a baixa tributação sobre determinados rendimentos e a inexistência de alguns tributos presentes em outros países da região, fatores que reforçam a percepção de um ambiente favorável ao empreendedorismo e à acumulação de capital privado.

Não por acaso que essas características passaram a atrair não apenas investidores estrangeiros e empresas industriais, mas, considerando o atual contexto migratório aqui explorado, também aposentados, profissionais liberais e pequenos empresários brasileiros que enxergam no Paraguai uma oportunidade de ampliar sua renda e reduzir seus custos operacionais. Nesse sentido, a migração recente não se pauta por afinidades ideológicas e o modelo econômico liberal do país procurado por parte da direita brasileira.

Entretanto, as mesmas características que tornam o país atraente para determinados segmentos econômicos também levantam questionamentos sobre os limites estruturais desse modelo de desenvolvimento. A manutenção de uma carga tributária reduzida restringe a capacidade arrecadatória do Estado e, consequentemente, sua possibilidade de realizar investimentos de longo prazo em áreas estratégicas, como infraestrutura, educação, saúde, ciência e tecnologia. Embora a atração de capital externo possa impulsionar o crescimento econômico no curto e médio prazo, sua capacidade de promover um processo sustentável de desenvolvimento nacional permanece objeto de debate entre economistas e cientistas políticos.

Em outras palavras, a competitividade tributária pode funcionar como um mecanismo eficiente para atrair investimentos, mas dificilmente substitui a necessidade de um Estado capaz de planejar, coordenar e financiar políticas públicas voltadas à diversificação produtiva e ao aumento da competitividade econômica. Dessa forma, a questão central não reside apenas na capacidade do Paraguai de atrair empresas e migrantes, mas em saber se esse modelo será capaz de sustentar, ao longo do tempo, níveis mais elevados de desenvolvimento econômico e bem-estar social para sua população.

Assim, embora o Paraguai tenha se consolidado como um destino atrativo para investidores, empreendedores e brasileiros identificados com pautas conservadoras e liberais, os resultados desse modelo econômico ainda apresentam limitações significativas quando observados a partir dos indicadores sociais e de desenvolvimento do país. A baixa carga tributária, a menor burocracia e a reduzida intervenção estatal constituem fatores capazes de atrair capital e novos moradores, mas não necessariamente garantem melhores condições de vida para a população em geral. Nesse sentido, os benefícios oferecidos pelo país parecem ser mais relevantes para aqueles que possuem renda externa, capacidade de investimento ou atividades econômicas que se beneficiam diretamente dos incentivos tributários paraguaios.

Dessa forma, a imagem do Paraguai como um possível “refúgio” para a direita brasileira deve ser analisada com cautela. Mais do que uma alternativa política ou ideológica, o país representa uma experiência que combina oportunidades econômicas específicas com desafios estruturais persistentes. Resta observar se esse movimento migratório recente se consolidará como uma tendência duradoura ou se o Paraguai permanecerá apenas como uma promessa construída por discursos políticos e expectativas que, na prática, podem encontrar limites na realidade econômica e social do próprio país.

Referências:

BARROS, Duda Monteiro de. Com altas taxas de pobreza e informalidade, Paraguai vira o novo sonho da direita brasileira. 2026. Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/com-altas-taxas-de-pobreza-e-informalidade-paraguai-vira-o-novo-sonho-da-direita-brasileira/. Acesso em: 29 maio 2026.

FICHER, Alisson. Adeus, Brasil: brasileiros se dizem ⠸oprimidos⠹ e partem para o paraguai em busca de ⠸sonho de direita⠹ com impostos de 10%, energia até 2,8 vezes mais barata e 23,5 mil pedidos de residência em 2025. brasileiros se dizem ‘oprimidos’ e partem para o Paraguai em busca de ‘sonho de direita’ com impostos de 10%, energia até 2,8 vezes mais barata e 23,5 mil pedidos de residência em 2025. 2026. Click Petróleo e Gás. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/adeus-brasil-brasileiros-se-dizem-oprimidos-e-partem-para-o-paraguai-em-busca-de-sonho-de-direita-com-impostos-de-10-energia-ate-28-vezes-mais-barata-e-235-mil-pedidos-de-residencia-em-afch/. Acesso em: 29 maio 2026.

TAVARES, Vitor. 'Somos oprimidos no Brasil': a onda de brasileiros rumo ao paraguai em busca de 'sonho de direita'. a onda de brasileiros rumo ao Paraguai em busca de 'sonho de direita'. 2026. BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwyw7696n1zo. Acesso em: 29 maio 2026.