Artigo de Opinião

Quo Vadis Democratas?

Por Giulliano Molinero 01/07/2026 9 min

Quo Vadis Democratas?

Quo Vadis Democratas?

Em 2017 fui intercambista, ou como me corrigiam em boa fé meus colegas lisboetas com suas referências europeias, fazia meu “Erasmus” pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, ocasião em que tomei aulas de quem considero uma das mentes contemporâneas mais brilhantes da ciência política lusófona: André Azevedo Alves. Apesar de nos posicionarmos politicamente em campos distintos, o que certamente causa discordância constante, aprecio suas colocações, me sinto instigado por suas reflexões, e confesso que, por vezes, me convence de seus pontos. Desde que nossas aulas chegaram ao fim, sempre que posso, leio suas colunas no Observador. Essa coluna é inspirada por, e dialoga com, sua coluna recente intitulada “Lições de Budapeste”, em que Alves descreve os acontecimentos em Budapeste não como uma falha do conservadorismo, mas sim de Orbán, e nos descreve dois modelos do conservadorismo global, um capitaneado pelo próprio Orbán, outro por Meloni, premiê da Itália.

A discussão é mais que mero preciosismo acadêmico ou curiosidade. A Hungria constitui um dos casos mais estudados da última década na literatura sobre erosão democrática. Sendo o primeiro caso de “democracia iliberal”, termo popularizado pelo próprio Orbán, é também o modelo exportado para vários cantos do globo, inclusive na América Latina e EUA. É o primeiro caso dentro da União Europeia, e também o mais longevo, de um processo sustentado de concentração de poder executivo e enfraquecimento de mecanismos de controle institucional. É também palco da construção de uma rede transnacional de forças conservadoras e iliberais, com eventos que contam com a participação de nomes como Carlos Bolsonaro, Le Pen, Meloni, CPAC Europa e vários outros. 

Mas calma, comecemos pelos fatos. Após a queda do regime comunista na Hungria, em 1989, o país se tornou, como a vasta maioria dos países no continente europeu, uma república parlamentarista. Isto é dizer que os cidadãos elegem os representantes para o parlamento, e dessa maioria parlamentar emerge o governo. O primeiro-ministro, escolhido com base no apoio da maioria dos deputados, é quem efetivamente conduz a política interna e externa do país, nomeia ministros e toma as decisões executivas do dia a dia. É justo dizer que a escolha do líder político é feita pela coalizão partidária em maioria no parlamento, não pelos cidadãos, ou ao menos não diretamente por voto civil, como no Brasil. Diferentemente do Brasil também, o presidente possui funções sobretudo institucionais e simbólicas na Hungria, e portanto não governa diretamente. Essa é a função do primeiro-ministro.

Viktor Orbán então tomou posse como primeiro-ministro pela primeira vez em 1998, perdeu para a coalizão socialista em 2002, retomou o poder através de eleições livres e justas em 2010, e desde então venceu todas as eleições nacionais subsequentes, permanecendo no cargo de forma contínua por 16 anos. Isto é, venceu todas as eleições até a de 2026, ocasião em que Peter Magyar (sobrenome que em húngaro significa Húngaro) conseguiu 53.18% dos votos para seu partido Tisza, um total de 141 dos 199 assentos no parlamento húngaro. Fidesz, o partido de  Orbán, conseguiu apenas 38.61% dos votos, ou 52 assentos. Com uma supermaioria, Magyar tem condições de alterar vários dos postos e leis da era Orbán que uma simples maioria não seria capaz.

Orbán tentou de tudo. Campanhas de difamação, especialmente as que associavam Magyar com Zelensky, com George Soros, ou com Ursula Von der Layen, a publicação de um vídeo em que Magyar tem relações sexuais com a própria esposa, distribuição de dinheiro antes das eleições, comícios transformados em eventos públicos abertos, e o medo de que a guerra na Ucrânia se espalharia pela Europa. Orbán foi endossado por Trump, Milei, Meloni, Le Pen, JD Vance e muitos outros membros da aliança conservadora transnacional (com exceção de Bolsonaro, que não conseguiu romper a tornozeleira eletrônica e não pode usar a internet).

Com uma rede de apoio internacional contando com nomes tão célebres da “direita” global (direita aqui fazendo um trabalho semântico gigantesco para abarcar na mesma denominação o libertarianismo radical de Milei, o nacional-conservadorismo de Meloni, o populismo de direita Trumpista, e o “antiglobalismo” de Alice Weidel - esse mesmo que encontrou expressão tupiniquim no nosso ex-ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo), uma máquina de campanha tão poderosa e 16 anos no governo, o que pode ter acontecido para que Orbán fosse tão categoricamente derrotado nas urnas? Será esse o início do fim do conservadorismo europeu? Alves argumenta que não, e acho que deveríamos ouvi-lo. 

Veja, no ano passado, a Hungria cresceu economicamente apenas 0,4%, enquanto a Polônia, por exemplo, cresceu 3,6%. Serviços públicos como saúde e educação têm se deteriorado quase tanto quanto o poder de compra dos húngaros, que diminui com a inflação voraz. A grande maioria dos contratos governamentais soa estranha, com apenas um concorrente em média, e geralmente acaba por beneficiar um pequeno grupo de aliados do Fidesz. Quando vazamentos tóxicos na fábrica de baterias da Samsung ao norte de Budapeste foram encobertos, a sensação de impunidade cresceu ainda mais. Essas, argumenta Alves, são as razões do sucesso eleitoral de Magyar.

Mas tem mais. Magyar não é um sindicalista socialista, nem um professor da esquerda liberal. Não é um aristocrata centrista nem um dono de empresa da direita liberal. Não. Entre 2002 e 2024, Magyar fez sua carreira política no Fidesz, o partido de Orbán, e ficou conhecido por suas posições conservadoras nos quadros do partido. Ele rompeu com o partido governista não por diferenças políticas, mas por causa da estagnação dos padrões de vida e da corrupção sistêmica, algo que Alves declara um “retorno aos princípios ideológicos centrais do próprio Fidesz”. 

Logo nos primeiros meses de governo, Magyar adotou uma posição mais dura do que Orbán em relação a vistos de trabalho temporários para cidadãos de fora da União Europeia, e após sua vitória, citou o Império Austro-Húngaro como motivo para fortalecer as relações com Viena. Exigiu do primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, que revogue os Decretos Beneš, um conjunto de medidas implementadas na Tchecoslováquia do pós-guerra que permitiram a expulsão e expropriação de húngaros. Até aceitou se encontrar com Zelensky, apesar de ser contra a entrada da Ucrânia na União Europeia, desde que fosse em Berehove, uma cidade ucraniana onde a maioria dos habitantes é etnicamente húngara. Nem o acordo UE-Mercosul se salva, já que os membros do Parlamento Europeu de Magyar votaram contra o acordo.

O ponto que espero ter passado com clareza é o de que, ao contrário do que disseram as vozes eufóricas da esquerda, a vitória de Magyar não é o fim da direita europeia, nem mesmo do conservadorismo europeu. Talvez não seja nem mesmo uma mudança de regime, ou a democratização da Hungria, mas um regime personalista substituindo outro. Assim como democratas eufóricos chamaram erroneamente a queda da URSS do fim da história, e vitória completa da democracia, imagino que agora erroneamente olhem para a vitória de Magyar da mesma forma.

Isso não é dizer, claro, que não houve avanço democrático. Orbán passou 16 anos agigantando o executivo, colonizando o legislativo e o judiciário, a mídia e os movimentos sociais. Agora como oposição, a luta por influência produzirá ou conluio, ou reverterá muitas das movimentações orbanitas. É apenas dizer que o ganho não é tal quanto se descreve.

Ok, mas o que fazemos com isso?

É aqui que eu e meu estimado professor naturalmente divergimos em nosso caminho. Meu caro Alves pensará nas lições que Budapeste ensina para uma direita que aprendeu a aprender, enquanto eu me pergunto “e agora, democratas?”, uma pergunta complexa que lida com um grupo aparentemente menos capaz de reagir a tempo às mudanças impostas pela modernidade (e que fique claro, nem toda a direita é autoritária, mas como argumenta Svolik e colegas, quase toda). Ainda assim, tenho algumas ideias.  

A primeira já é de comum conhecimento, proposta por autores como Applebaum, e parece simples quando posta dessa forma: se autoritários formaram entre si uma liga autoritária, por que não formamos nós democratas uma liga de apoio mútuo também? Essa é a ideia por trás da Mobilização Progressista Global, uma reunião progressista (o que nem sempre quer dizer democrata, mas parece cada vez mais se equiparar) encabeçada pelo premiê espanhol Pedro Sánchez, e que reuniu nomes como Lula, a presidente do México Claudia Sheinbaum, o líder sul-africano Cyril Ramaphosa, o colombiano Gustavo Petro, o portugues António Costa, o  ex-primeiro-ministro da Suécia, Stefan Löfven e Elly Schlein, líder da oposição italiana. Nas palavras de Owen Jones para o The Guardian, “uma esquerda capaz de se unir em torno de um programa convincente de justiça econômica, um que redirecione a raiva contra a riqueza e o poder estabelecidos, em vez de contra os migrantes, continua sendo a alternativa mais plausível em uma era de pressão econômica e instabilidade geopolítica. Seria excessivamente otimista declarar que Barcelona marcou o seu renascimento. Mas ela ofereceu, ao menos, um vislumbre de como isso poderia parecer”.  

Antes tarde que nunca. Se progressistas aprendem devagar, ao menos aprenderam (ou reaprenderam) a importância de uma liga transnacional. O que parecem ainda não ter aprendido, ou ao menos não de forma tão eficiente, é a comunicação nas redes sociais, um domínio quase exclusivo da direita autoritária. Talvez parte desse processo seja se apropriar da narrativa nacionalista (o que infelizmente não tenho terei espaço para discutir sobre nesta coluna, mas recomendo fortemente artigo de meu outro brilhante professor, Filip Milačić, referenciado abaixo, que esmiuça as potencialidades e caminhos para tal) algo que Lula começou a fazer no Brasil pós tarifaço trumpista, mas que ainda demanda trabalho.

Similarmente, outra parte do processo é a defesa, geral, global e inabalável, da democracia. Isso significa dizer que o apoio transnacional não pode nem deve se estender para ditaduras de esquerda pelo mundo, mesmo se alinhadas ideologicamente. Mais ainda, a defesa de um sistema global baseado em valores como os Direitos Humanos, e não apenas no comércio ou na balança de poder.

Entendo, a esquerda se preocupa com a responsabilidade em proteger (e com razão, vide o histórico latino americano com intervenções estrangeiras). Teme o que se faz em nome de valores universais como democracia e Direitos Humanos. Justo. No entanto, a experiência histórica mostra que o princípio da soberania, quando absolutizado, frequentemente protege elites autoritárias em detrimento das populações que sofrem sob elas. Não se trata de lutar contra os princípios, mas sim contra seu mau uso.  

Somente os próprios democratas (não só no poder, mas em oposição, na sociedade, nas organizações internacionais, ONGs, nas urnas, etc) serão capazes de responder quo vadis. Enquanto não respondem, autoritários o fazem por nós.

Referências

Alves, A.A. (2026, abril 29). Lições de Budapeste. Observador. 


Applebaum, A. (2024). Autocracy, Inc.: The dictators who want to run the world. Doubleday. 


Bremmer, I. (2026, April 8). Viktor Orban will probably lose. What then? GZERO Media. 


Fukuyama, F. (1992). The end of history and the last man. Free Press. 


Grandi, G., & Ramalho, R. (2025, November 23). Bolsonaro diz que queimou tornozeleira por “certa paranoia” e “alucinação”; apoiadores voltam a protestar em frente à PF. Gazeta do Povo. 


Jones, O. (2026, April 23). The international right has CPAC. Has the left finally found its answer? The Guardian. 


Levy, H. (2026, April 14). Peter Magyar wins a landslide victory in the Hungarian general election and ushers in a new era. Robert Schuman Foundation. 


Milačić, F. (2025, November 19). Only liberal nationalism can defeat the far right. Project Syndicate. 


Schroeder, L. (2025, August 5). Bolsonaro pode usar celular e receber visitas? Veja perguntas e respostas. CNN Brasil. 


Svolik, M. W., Avramovska, E., Lutz, J., & Milačić, F. (2023). In Europe, democracy erodes from the right. Journal of Democracy, 34(1), 5–20.


Weisz, Z. (2026, May 1). What Hungary’s new leader really wants. GZERO Media.