Artigo de Opinião

Não é inédito, mas também não é o mesmo: Big Tech, história e os limites do nosso imaginário político

Por Giulliano Molinero 28/10/2026 6 min

Não é inédito, mas também não é o mesmo: Big Tech, história e os limites do nosso imaginário político

Na coluna intitulada "E se o fim da democracia não vier do povo nem do governo? Big Tech e a captura do Estado Americano", argumentei que as Big Techs americanas não são apenas prestadoras de serviço ao Estado, mas infraestrutura crítica dele, e que essa dependência estrutural configura uma forma inédita de captura, com implicações diretas para a soberania brasileira. A reação mais comum a esse tipo de argumento, especialmente entre leitores com formação histórica, é um ceticismo saudável: isso realmente é novo? A pergunta merece uma resposta honesta, porque dela depende não apenas o diagnóstico, mas a capacidade de agir.

A resposta curta é: não, e sim. Mas calma, comecemos do início.


O passado também teve suas Big Techs


A atuação de atores privados exercendo funções tipicamente estatais não é novidade histórica. A Companhia Britânica das Índias Orientais governava territórios, arrecadava impostos, mantinha exércitos próprios e conduzia relações diplomáticas em nome, e por vezes à revelia, da Coroa Britânica. A VOC holandesa exercia poderes quase soberanos em partes da Ásia. Bancos privados moldaram sistemas monetários muito antes de qualquer banco central. Organizações religiosas forneceram assistência social (anterior ao estado de bem estar social), educação e formas de governança por séculos. Empresas militares privadas como a Blackwater desempenharam funções de segurança em zonas de conflito que nenhum Estado queria assumir publicamente.

Se o argumento fosse apenas que "entidades privadas às vezes desempenham funções estatais", ele não seria particularmente inovador. Um historiador do capitalismo poderia dizer, com razão, que o mundo sempre foi construído também por corporações, e que esquecer isso nos priva de ferramentas analíticas já desenvolvidas para compreender soberania corporativa, império, poder de monopólio e autoridade transnacional.

Essa crítica é legítima e vale ser levada a sério. Tratarmos o presente como absolutamente inédito tem um custo, o de obscurece continuidades importantes e nos impedir de aprender com ciclos que já se repetiram. Mas se ciclos existem, e devem ser levados a sério, então de fato o que mudou?

Os estudiosos Rebecca Adler-Nissen e Tobias Liebetrau argumentam, e eu concordo, que o papel das Big Techs difere dos precedentes históricos não apenas em grau, mas em tipo. Quatro dimensões ajudam a entender por quê.

A primeira é a diferença entre território e infraestrutura. As Companhias das Índias Orientais governavam lugares específicos, com fronteiras geográficas delimitadas. As Big Techs governam infraestruturas digitais utilizadas simultaneamente por bilhões de pessoas em diferentes jurisdições, sem que nenhuma delas precise ter "cedido" território algum. O poder não emana de uma concessão territorial, mas da indispensabilidade técnica.

A segunda é o poder epistêmico. Empresas como Google e Meta não apenas executam funções, mas sim moldam como a informação é encontrada, classificada, circulada e validada. Isso vai além da autoridade administrativa, mas é a capacidade de intervir nas próprias condições de produção do conhecimento. Como argumentei na coluna já citada, quando o Estado passa a depender de algoritmos privados para interpretar dados, analisar riscos e priorizar decisões, ele internaliza uma visão de mundo corporativa como base para ação pública.

A terceira é a diluição das fronteiras entre público e privado. As companhias coloniais operavam sob concessões explícitas dos Estados, havia um contrato, por mais tortuoso que fosse. As Big Techs cooperam com os Estados, resistem a eles e competem com eles ao mesmo tempo, frequentemente na mesma semana. Essa ambiguidade torna a regulação mais difícil porque não há uma relação clara de concessão ou subordinação a partir da qual o poder público possa agir.

A quarta é a inserção no cotidiano. A maioria das pessoas interagia apenas indiretamente com a VOC ou com o Banco dos Medici, por exemplo. As plataformas digitais mediam diariamente a comunicação, o trabalho, a sociabilidade, a navegação, as compras e o acesso à informação de metade da humanidade. Isso cria uma dependência difusa, dispersa e quase invisível, algo bem mais difícil de politizar do que um porto controlado por uma companhia estrangeira, por exemplo.

A conclusão mais honesta me parece ser, portanto, uma posição de meio-termo: a Big Tech não é nem radicalmente inédita nem simplesmente mais do mesmo. É uma forma contemporânea de um fenômeno muito antigo, atores privados participando da construção da ordem política, no entanto com uma configuração suficientemente nova para exigir atenção analítica própria.

Aceitar esse meio-termo tem consequências práticas. O verdadeiro problema não é que não sabemos nomear o que está acontecendo, mas sim que as ferramentas que temos para reagir foram desenhadas para um mundo diferente. O antitruste foi concebido para regular mercados de bens físicos, onde a concentração de poder se mede em fatias de mercado e preços ao consumidor. Aplicá-lo a plataformas cuja lógica é a de monopólios de atenção, dados e infraestrutura cognitiva é como tentar regular uma usina nuclear com o código de obras de um edifício residencial. Não é que seja inútil, necessariamente. Simplesmente, os instrumentos foram calibrados para outro problema.

A soberania westfaliana pressupõe que as ameaças vêm de fora, de outros Estados. Ela não tem categorias para atores que operam simultaneamente dentro de múltiplas fronteiras, sem exércitos mas com satélites, sem declarações de guerra mas com controle sobre infraestruturas críticas.

Há um conceito em teoria política que chamo aqui de imaginário político, adaptando o que Charles Taylor (2004) designa como imaginário social: o conjunto de categorias, metáforas e esquemas conceituais a partir dos quais uma sociedade pensa o poder, a legitimidade e a ação coletiva. Esse imaginário não é neutro: ele define o que parece possível e o que parece impensável, o que merece regulação e o que escapa dela, quem pode ser responsabilizado e quem opera acima da accountability.

O imaginário político dominante ainda é, em larga medida, o do século XX: Estados nacionais como atores centrais, mercados como espaços reguláveis por normas jurídicas, cidadãos como titulares de direitos perante um Estado identificável. Esse imaginário é hoje insuficiente. Ele não captura a soberania sem território, o poder sem concessão, a governança sem governo, ou ao menos não adequadamente.

O risco concreto é esse: continuamos respondendo a perguntas do século XXI com respostas do século XX. Regulamos plataformas como se fossem empresas de telecomunicações, sempre atrasados frente as inovações contínuas desses espaços. Tratamos a dependência de nuvem como se fosse uma questão de procurement. Debatemos inteligência artificial como se fosse apenas mais uma tecnologia a ser incorporada ao aparato estatal existente. Em todos esses casos, o enquadramento subestima a profundidade da transformação em curso.

Para o Brasil, assim como para qualquer país que não controle essa infraestrutura, as implicações são diretas. Não basta desenvolver políticas de soberania digital se o próprio conceito de soberania que orienta essas políticas foi construído para um mundo de fronteiras físicas e Estados como únicos atores relevantes. A soberania que importa hoje é também epistêmica, infraestrutural e algorítmica. 

Antes mesmo dos parlamentos ou tribunais lidarem com o problema, é necessário que o repertório conceitual a partir do qual imaginamos o que é possível fazer seja atualizado. É com isso em mente que escrevo essa coluna.


Referências


Adler-Nissen, Rebecca, e Tobias Liebetrau. 2026. "Big Tech as World Makers: A Research Agenda for International Political Sociology." International Political Sociology 20 (3): olag021. https://doi.org/10.1093/ips/olag021.


Molinero, Giulliano. 2026. “What If the End of Democracy Doesn’t Come from the People or the Government? Big Tech and the Capture of the American State.” DPolitik, March 31, 2026.


Späth, Jonas, e Giulliano Molinero Junior. 2025. "Infrastructural Capture: How Big Tech's Dependency Loop Is Reshaping American Statecraft." Policy Analysis 13/2025. Viena: Österreichisches Institut für Internationale Politik.


Taylor, Charles. 2004. Modern Social Imaginaries. Durham: Duke University Press.