Afinal de contas, por que o Trump quase implodiu a relação transatlântica?

Protesto contra a política de Trump para a Groenlândia em frente ao Consulado norte-americano em Nuuk, Groenlândia. 2026. Crédito: AP Photo/Evgeniy Maloletka

“Eis que é a praga destes tempos que os cegos são guiados por loucos”. A frase do quarto ato de Rei Lear se mostra estranhamente contemporânea diante do mais recente episódio de uma crise política latente que ameaça afundar a relação transatlântica sem nenhuma motivação aparente. Dentro de um mês, declarações de Donald Trump e de figuras de seu entorno arrastaram os Estados Unidos e seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para um dos piores momentos da relação entre ambos desde a crise de Suez, em 1956, inclusive gerando comentários sobre um possível realinhamento da ordem internacional vigente. Até o momento da elaboração desse texto, no dia 27 de janeiro, toda essa movimentação apresenta  uma aparente desescalada na retórica por parte da Casa Branca. Nesse sentido, é necessário entender algumas questões em torno dessa crise: o porquê de ela ter começado, como exatamente ela começou e as reações dos países envolvidos.

Donald Trump em uma reunião com o secretário-geral da OTAN em Davos, Suíça, 2026. Crédito: Evan Vucci/AP

A obsessão de Donald Trump pela Groenlândia 

Essa história se inicia com uma reunião em 2017 entre Donald Trump e o herdeiro de uma fortuna de cosméticos, Ron Lauder. Na ocasião, o mesmo teria proposto a Trump a ideia de uma aquisição da Groenlândia, inclusive se oferecendo como um intermediário para qualquer negociação. Trump, com seu histórico de negócios no ramo imobiliário, rapidamente ficou obcecado com a ideia, considerando ela como um acordo monumental que poderia garantir um lugar único para ele na história dos Estados Unidos. Na época, funcionários do Conselho de Segurança Nacional, incluindo a diretora para assuntos europeus e russos Fiona Hill, foram designados para estudar e pesquisar a ideia. Apesar da ideia ter interessado algumas figuras do gabinete de Trump como seu conselheiro John Bolton, devido aos supostos benefícios geoestratégicos da aquisição do território em reforçar o posicionamento dos EUA no Ártico, a vasta maioria considerava inviável a ideia de comprar a Groenlândia.

Em entrevistas ao New York Times, membros do gabinete de Trump relataram tanto a apreensão deles quanto esquemas concebidos pelo próprio Trump para adquirir o território. Entre eles, merece destaque a proposta de trocar a Groenlândia pelo território estadunidense de Porto Rico com a Dinamarca. Ainda em 2019 essas discussões geraram o primeiro de vários incidentes diplomáticos quando o conteúdo das reuniões foram publicizados pelo Wall Street Journal. Trump cancelou uma visita à Dinamarca após a primeira-ministra dinamarquesa rejeitar publicamente a ideia de qualquer venda do território. Apesar da ideia ter sido formalmente abandonada, a administração Trump manteve um interesse na ilha, reabrindo um consulado norte-americano em Nuuk e mostrando um interesse em “cooperação estratégica no Ártico com aliados”.

Com a reeleição de Trump em 2024, o mesmo voltou a sua ideação ao redor de uma aquisição territorial que pudesse “engrandecer” os Estados Unidos. No início de 2025, Donald Trump novamente mostrou um interesse na Groenlândia, agravando a retórica e questionando a jurisdição dinamarquesa enquanto ameaçava o uso de tarifas e até de força militar contra o país. Esses comentários novamente geraram um incidente diplomático, com lideranças europeias lançando notas de repúdio à ideia de uma anexação do território, enquanto lideranças dinamarquesas anunciaram planos de reforçar sua presença militar no Ártico. As medidas incluíam uma renovação da infraestrutura militar da ilha e dos meios de patrulha na região, entre navios, drones e aviões.

Essa saga continuou ao longo de 2025 com um gradual aumento das tensões.  Congressistas norte-americanos propuseram legislação visando facilitar a anexação da ilha. Figuras como o vice-presidente norte-americano J.D. Vance e Eric Trump visitaram a Groenlândia reforçando o interesse em uma aquisição territorial. Ocorreram até casos de espionagem estadunidense no território, com 3 americanos sendo acusados por serviços de inteligência dinamarqueses de fomentar separatismo na região. Como resposta, a Dinamarca anunciou um exercício militar na Groenlândia denominado “Luz Ártica” em parceria com a Alemanha, França, Noruega e Suécia, mobilizando cerca de 550 militares e dobrando os investimentos planejados para defesa no Ártico. Em dezembro de 2025, essas ações culminaram com a ida de Jeff Landry à Groenlândia, como enviado especial dos EUA, cuja missão seria explicitamente negociar a aquisição da ilha, o que pode ser visto como um ponto de escalonamento da crise. 

Militares dinamarqueses na Groenlândia, 2026. Crédito: Forsvaret

A Groenlândia (não) é importante

Antes de qualquer discussão sobre a crise atual e suas consequências para a ordem internacional é importante reafirmar um fato crucial. Apesar da Groenlândia ser um elemento de interesses dos Estados Unidos no Ártico, o interesse atual em uma aquisição é quase completamente proveniente de uma obsessão pessoal do atual presidente norte-americano. Muito está sendo escrito sobre os interesses estratégicos dos EUA no círculo ártico que motivariam a aquisição da Groenlândia. No entanto, a realidade é bem menos emocionante. Algumas figuras dentro da administração ofereceram tentativas de justificar mais um ato de cretinismo norte-americano no cenário internacional. Entre elas as vastas reservas minerais, a importância do território para a arquitetura de defesa dos Estados Unidos e a suposta competição com outras potências. Porém, deve ser enfatizado que elas surgem essencialmente post factum ao interesse de Donald Trump no território. 

A ilha com cerca de 60 mil habitantes, que é um território autônomo dinamarques,  de fato possui uma relevância estratégica devido a sua posição no Círculo Ártico, permitindo o rastreamento de submarinos e lançamentos de mísseis russos, facilitando a defesa do Atlântico Norte. Os Estados Unidos estão cientes desse fato desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1951 os EUA negociaram com a Dinamarca um acordo que autorizava uma presença militar norte-americana no território. Hoje em dia essa força se encontra bem reduzida do seu ápice durante a Guerra Fria, com os EUA mantendo uma estação de radar e comunicação em Pituffik com cerca de 150 militares. Ainda assim, o acordo de 1951 permite a ampliação da presença militar, desde que Copenhague seja previamente notificada. Essa cláusula ajuda a explicar a perplexidade europeia diante da tentativa de aquisição. Washington já possui o direito de expandir suas operações, e a Dinamarca jamais se opôs a pedidos nesse sentido.

Além disso, existe um porém: qual é a ameaça que supostamente justificaria a aquisição? A principal ameaça aos interesses norte-americanos no Ártico, a Rússia, de fato passou anos investindo e consolidando uma presença militar no extremo norte. Eles então decidiram enviar essas tropas para um moedor de carne no leste ucraniano. A consequente necessidade de reconstruir o exército russo e salvar a economia russa atrasou as ambições russas no Ártico por anos, para dizer o mínimo. A posição fragilizada russa consequentemente abriu uma porta para a China aproveitar seu investimento na máquina de guerra russa para pressionar por um maior acesso ao Ártico, através de maiores investimentos e acordos conjuntos de segurança marítima. Entretanto, Pequim está distante de qualquer presença militar ou econômica significativa na região. Tentativas anteriores de investimento direto na Groenlândia fracassaram diante da resistência do governo dinamarquês. Até o momento, não há projetos chineses bem-sucedidos na ilha. Novamente, a ameaça a interesses norte-americanos que justifique a aquisição  não existe. 

Outro argumento recorrente envolve os recursos minerais da Groenlândia. Autoridades norte-americanas frequentemente destacam as chamadas terras raras, consideradas essenciais para a competição tecnológica no século XXI e cuja produção é predominantemente controlada por Pequim. Existem de fato reservas minerais significativas no território, com o território possuindo cerca de 1.5 milhões de toneladas de minérios de terras raras. Isso o coloca entre os dez maiores detentores globais, embora muito atrás de países como China, Brasil, Índia, Vietnã e os próprios Estados Unidos. Ainda assim, a exploração desses recursos enfrenta obstáculos consideráveis. A extração seria realizada em regiões com temperaturas extremas, que podem chegar a −40 °C, e que exigem investimentos bilionários em infraestrutura. Em comparação, projetos em países de clima mais ameno são significativamente mais baratos e lucrativos, algo apenas reforçado pela baixa de preços dos recursos minerais. Por essa razão, a viabilidade econômica da mineração na Groenlândia é limitada.

Além disso, algo que deve ser ressaltado é que o termo “terras raras” é um pouco inadequado. Os minerais em si não são escassos, pelo contrário, são relativamente abundantes. O problema é que raramente são abundantes em uma concentração que valha a pena ser explorada. Mesmo quando a concentração é elevada, o processo de extrair os elementos do minério é caro e muito poluente. É por isso que a China controla o mercado. Além de ter mais reservas do que qualquer outro país, o gigante asiático atualmente controla a vasta maioria do processo de refinamento dos minérios, cerca de 90%. Portanto, mesmo que todos os desafios presentes na exploração de minérios na Groenlândia sejam superados, a possibilidade de que os mesmos minérios cruciais para a “competição estratégica” acabem  em uma refinaria chinesa é alta. Os Estados Unidos simplesmente não possuem uma indústria de refino significativa.

Protesto contra política de Donald Trump para Groenlândia em Copenhagen, Dinamarca, 2026. Crédito: Jens Cederskjold

Deu a louca na Casa Branca

Posto isso e compreendendo de onde surgiu essa crise, bem como o grau de cretinismo envolvido, o que aconteceu no último mês para criar uma das piores crises da história da relação transatlântica? Essencialmente, após Jeff Landry ser nomeado como enviado especial dos EUA, o governo norte-americano drasticamente escalonou sua retórica ao redor da Groenlândia. Figuras como Stephen Miller, Scott Bessent, Marco Rubio e o próprio Donald Trump começaram a discutir publicamente a necessidade de adquirir o território. Em diversas ocasiões falaram abertamente sobre o suposto “direito” dos Estados Unidos em controlar o território. Em parte encorajados após a intervenção estadunidense na Venezuela no início deste ano, essas figuras se engajaram em uma campanha extensa que buscava justificar uma possível anexação. Em várias ocasiões chegou-se a afirmar que “talvez seja uma escolha entre a OTAN e a Groenlândia”. 

Esse panorama se agrava em 15 de janeiro com algumas capitais europeias anunciando o início do exercício militar “Perseverança Ártica”. Pequenos destacamentos militares foram enviados para a Groenlândia em conjunto com a Dinamarca.  As equipes consistiram de cerca de 40 militares de países como França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Suécia. O objetivo era visitar o território, iniciar o planejamento para o envio posterior de forças maiores e sinalizar apoio à Copenhagem. Essa pequena presença de militares europeus na ilha gerou uma reação desproporcional em Washington D.C., com Trump ameaçando todos os países envolvidos com retaliação tarifária. Além disso, anunciou que caso a Dinamarca não concordasse até o início de junho com a aquisição, o país seria alvo de uma retaliação econômica mais abrangente.

Essa troca de farpas gerou um dos incidentes mais peculiares de toda a crise. Em 19 de janeiro Donald Trump enviou uma mensagem para o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Støre. No texto, Trump reiterou sua exigência de “controle total e completo da Groenlândia” e atribuiu sua própria atitude a não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz de 2025, escrevendo que não sente mais a “obrigação de pensar exclusivamente na paz”. A mensagem foi recebida com perplexidade nas capitais europeias. O Comitê Nobel é independente, com o governo norueguês não tendo controle sobre quem recebe o prêmio. O próprio prêmio é concedido pelo trabalho dos laureados no ano anterior e Trump sequer ocupava o cargo presidencial em 2024.

Enquanto a Casa Branca reagia de forma errática à questão do Prêmio Nobel, a Dinamarca agravou sua resposta militar. No âmbito do exercício militar previamente anunciado, o governo dinamarquês anunciou que cerca de 1.000 militares seriam enviados para a Groenlândia. O reforço incluiria fragatas e caças, e seria implementado de forma gradual ao longo das semanas seguintes, em coordenação com parceiros europeus. O objetivo era claro: dissuadir qualquer ação militar hostil contra o território. Discretamente militares dinamarqueses receberam munição real e ordens para reagir contra qualquer tentativa de invasão da ilha. As instruções incluíam, de maneira inequívoca, a possibilidade de confronto com forças estadunidenses. No âmbito econômico, o Parlamento Europeu suspendeu a aprovação de um acordo comercial proposto entre a UE e os EUA em 21 de janeiro. Em paralelo, foram preparadas tarifas retaliatórias contra os EUA.

No entanto, ainda em 21 de janeiro, durante as reuniões do Fórum Econômico Mundial em Davos, a crise pareceu perder fôlego de forma abrupta. Enquanto lideranças europeias discursavam sobre a emergência de uma nova ordem internacional, Donald Trump fazia ameaças veladas a Bruxelas. O presidente norte-americano afirmou que os Estados Unidos “se lembrariam da reação europeia”. Ainda assim, naquele mesmo dia, foi anunciado por Trump que ele e Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, teriam chegado à “estrutura de um futuro acordo” com relação à Groenlândia. O anúncio incluiu a retirada da ameaça de tarifas retaliatórias contra países europeus, marcando uma inflexão inesperada na escalada da crise. Até o momento da escrita deste artigo não existe clareza sobre o que exatamente seria incluído no acordo. Trump afirmou ter extraído concessões significativas ao redor da construção de bases militares e direitos de mineração, mas não detalhou quais seriam essas concessões nem de que forma seriam implementadas. O próprio governo dinamarquês reagiu com certa confusão ao suposto acordo com figuras dentro do mesmo afirmando que o suposto acordo não passou de uma conversa entre duas pessoas. Sinceramente existem mais perguntas do que respostas sobre o suposto acordo.

Um exercício envolvendo militares suecos, franceses e italianos em Sorstraumen, Noruega, 2024. Crédito: Jonathan Nackstrand/AFP/Getty Images

Quase destruímos a relação transatlântica: e agora?

E agora? Depois de um dos piores momentos na relação transatlântica essa pergunta não parece ter uma resposta clara. A súbita escalada da crise seguida pela desescalada igualmente repentina deixou capitais em ambos lados do Atlântico sem direção. Além de reforçar que os Estados Unidos é nos últimos anos um aliado inconstante, a crise abriu a possibilidade dos EUA serem uma ameaça sem precedentes para a OTAN. Por todas as medidas possíveis, a Dinamarca era uma aliada norte-americana ferrenha, disposta a aceitar uma presença militar estadunidense maior no Ártico, afastando qualquer tentativa chinesa ou russa de se estabelecer na região e a troco de que? Sanções, ameaças e insultos por causa de uma obsessão do marshmallow laranja que ocupa a Casa Branca. 

A direção que outros aliados norte-americanos parecem ter interesse em seguir após essa crise pode ser observada no discurso do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial em Davos. Em seu discurso ele reconheceu as contradições da ordem internacional liberal e proclamou o seu esgotamento. Segundo ele, o mundo está entrando em uma era marcada por competição entre grandes potências. Nesse contexto, o Canadá como uma potência média deveria adaptar sua atuação a essa nova realidade. Carney enfatizou a necessidade de desenvolver uma forma de autonomia estratégica baseada na diversificação de parceiros e opções de política externa, com o objetivo de reduzir dependências e vulnerabilidades. Essa abordagem culminaria no que ele denominou de “realismo baseado em valores”. Essa mensagem ressoou com lideranças europeias, que parecem gradativamente caminhar em direção a uma visão similar, reavaliando a relação transatlântica e suas parcerias. 

Nos Estados Unidos, por sua vez, não houve qualquer movimentação similar. A maioria dos “intelectuais” norte-americanos não demonstrou disposição para reflexão crítica. Pelo contrário, diversos setores da mídia e dos think tanks em Washington, D.C., passaram a publicar editoriais destacando os supostos “benefícios estratégicos” de uma eventual aquisição da Groenlândia. O próprio Donald Trump mal lembra a crise que ele mesmo iniciou. Atualmente ele está preocupado em pressionar o governo sul-coreano por “demorar” em ratificar um acordo comercial com os Estados Unidos. A frase que iniciou esse texto parece resumir essa situação estranhamente bem. Uma crise internacional que ocupou diversas capitais e aparatos diplomáticos por um mês a troco de nada. Insanidade.

O que poderia ser descartado como um incidente diplomático, escalou para um cenário onde os aliados tradicionais dos EUA se viram compelidos a calcular riscos reais de rupturas econômicas e de segurança, motivados pelo que parecem ser desconectados da lógica geopolítica contemporânea. A própria agressividade retórica direcionada aos parceiros da OTAN, seguida por uma tentativa de retorno à normalidade sem resoluções concretas, sugere uma erosão da confiança mútua que, até então, fundamentava a ordem liberal internacional vigente. Como observado nas declarações do primeiro-ministro canadense em Davos, esses eventos não são isolados, mas sintomáticos de um enfraquecimento estrutural das normas que regem o sistema internacional desde o pós-Segunda Guerra. A política externa dos EUA, nesse contexto, parece então se render aos impulsos personalistas em detrimento da estabilidade institucional.Conclui-se, portanto, que a ausência de racionalidade estratégica tradicional não diminui o cenário de risco, ao contrário, a imprevisibilidade começa a se tornar uma nova norma. Para encerrar a análise sobre a natureza anárquica e, por vezes, absurda das relações de poder contemporâneas, recorre-se à observação atemporal de Tucídides em a História da Guerra do Peloponeso: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos fazem o que devem”. A frase remete ao episódio de Melos, quando Atenas, amparada por sua superioridade militar no Egeu, impôs sua vontade por meio da força. Porém, esse poder sem contenção não garantiu a vitória final. Após anos de aventuras militares erráticas e do progressivo afastamento de seus parceiros, Atenas viu sua posição estratégica se deteriorar. Esparta, sua rival, por sua vez, conseguiu articular uma coalizão capaz de infligir uma derrota militar decisiva. Se Atenas caiu ao confundir poder com impunidade, resta saber por quanto tempo os Estados Unidos resistirão à mesma ilusão.