Em uma continuação da análise apresentada na coluna “A Operação Resolução Absoluta e o conflito interno americano”, iremos tomar como ponto de partida a operação que ocorreu no dia 03 de janeiro de 2026. Esse episódio foi responsável não por uma ruptura, mas por um reposicionamento estratégico importante dos Estados Unidos no tabuleiro geopolítico das Américas – ou como eles intitulam, o Hemisfério Ocidental. Nesse sentido, é importante frisar o termo “reposicionamento estratégico” à medida que o posicionamento adotado pelo gabinete do atual presidente Donald Trump é apenas um capítulo de uma complexa e multifacetada relação entre os Estados Unidos (EUA) e a América Latina e o Caribe (ALC).
Para melhor compreender como o episódio da captura, prisão e deposição do até então presidente Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, está inserido no espectro que compõe as relações EUA-ALC, é preciso compreender o panorama histórico das relações entre as regiões que compõem o continente americano e o ressurgimento da Doutrina Monroe como instrumento de política externa durante o primeiro (2017-2021) e segundo governos (2025 – atual) do presidente Donald Trump.
A National Security Strategy de 2025
Em meio ao acirramento da crise diplomática entre Washington e Caracas no segundo semestre de 2025, a Casa Branca torna público no dia 05 de novembro de 2025 a sua Estratégia de Segurança Nacional – US National Security Strategy (NSS), no original. Esse é um documento publicado ao fim do primeiro ano de cada nova gestão presidencial dos Estados Unidos e que estabelece a leitura do gabinete presidencial acerca do cenário da política mundial, como o país se posiciona em meio às mudanças na conjuntura geopolítica e onde ele deseja está em um cenário de curto a médio prazo.
Portanto, a NSS é um documento de suma importância para a organização do aparato burocrático interno do país, ou seja, a partir dos objetivos e prioridades delimitados no documento, as principais agências governamentais devem traçar suas estratégias e prioridades de maneira a atingir os objetivos nacionais que lhes cabem. Isso pois, embora a NSS trate, principalmente, de temas das áreas política, econômica e militar, a mesma também versa sobre temas correlatos e importantes para a Segurança Nacional como inovação e tecnologia e autonomia energética. Além disso, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA pode ser uma ferramenta valiosa na análise de como o país percebe o cenário de segurança mundial e regional e, mais importante, quais são as principais ameaças detectadas e ordenadas, geralmente, em lista de prioridade estratégica.
No que se refere a uma análise comparada entre a NSS de 2017, na primeira gestão Donald Trump, e a NSS de 2025, podemos perceber uma evolução de um discurso que já era assertivo em 2017. Isso pois apresentava uma leitura da política global como um cenário de retorno da multipolaridade, da incerteza e insegurança em um mundo cada vez mais interdependente e complexo, no qual a liderança dos EUA na ordem mundial liberal – ordem estabelecida pelos mesmos no pós Segunda Guerra Mundial – estaria em risco e sendo fortemente ameaçada por grandes potências adversárias, que seria o caso de Rússia e China, para uma postura mais reativa no que se refere a reação do questionamento da liderança americana. É nesse momento que a América Latiana e o Caribe, que antes ocupavam um papel secundário na NSS de 2017, assumem um papel prioritário no que se refere à garantia da Segurança Nacional dos Estados Unidos. No documento de 2025 temos uma sessão destinada a elencar os principais interesses na política externa do governo Trump II, nela o Hemisfério Ocidental aparece como primeira região discutida e seu subtítulo “Hemisfério Ocidental: o Corolário Trump da Doutrina Monroe” situa rapidamente o tom da relação entre as regiões vizinhas.
Sob a premissa de que a estabilidade e boa governança do Hemisfério Ocidental contribuirão para a Segurança Nacional por meio da diminuição da migração em massa para os Estados Unidos e o combate aos efeitos negativos do narcoterrorismo e outras organizações criminosas transnacionais a economia e a saúde do país. Além disso, o documento também ressalta o desejo do governo americano em conter e impedir a associação de países latino americanos com países extrarregionais, principalmente no que se refere a posse de “assets” essenciais para a manutenção de cadeias de abastecimento críticas ao funcionamento da economia estadunidense. A noção de que a estabilidade e segurança das regiões estariam diretamente conectadas se faz presente, também, no discurso do Secretário de Estado, Marco Rubio, ao afirmar que o Hemisfério Ocidental “pertencia” aos Estados Unidos e que eles não iriam permitir que a região servisse como base para a operação de adversários, competidores e rivais aos interesses estadunidenses. Essa concepção de que os EUA seria a única potência – de acordo com os mesmos – que poderiam interferir na América Latina e Caribe, não é algo recente na história da política externa norte-americana. A volta da competição geopolítica entre grandes potências trouxe consigo a divisão do mundo em zonas ou áreas de influência. A seguir, faremos uma breve recapitulação de quando e como a ALC se tornou a área de influência geopolítica clássica dos EUA.
Da Doutrina Monroe ao Corolário Trump
Embora o conceito de Segurança Nacional tenha surgido no vocabulário americano apenas durante a Segunda Guerra Mundial, a premissa de que a segurança dos Estados Unidos só poderia ser garantida através da segurança e estabilidade do hemisfério como um todo está presente na política externa do país muito antes disso, no começo do século XIX. Naquele momento, a política externa dos EUA era fundamentalmente orientada pelo isolacionismo, ou seja, o país evitava se envolver nas disputas e conflitos externos – a Europa naquele momento se encontrava dividida em um intricado jogo de alianças que permeava o período das Guerras Napoleônicas (1789-1802) – e focava sua atenção para a resolução de conflitos internos. Todavia, nenhum país consegue se isolar completamente da comunidade internacional, principalmente em momentos de conflitos. Portanto, o presidente americano James Monroe, em 1823, decidiu exercer uma postura diplomática neutra, mas ainda assim estratégica, de não se envolver em assuntos estrangeiros desde que, em troca, nenhuma potência europeia interferisse nos assuntos de seu país e estendendo a região de não intervenção para a parte central e sul das Américas, protegendo o hemisfério como todo de investidas europeias.
Embora os EUA ainda não possuíssem capacidades militares de defender todo o Hemisfério Ocidental de uma investida estrangeira, a Doutrina Monroe foi a primeira centelha de uma postura mais assertiva dos Estados Unidos e a “semente” de um futuro imperialismo estadunidense. Algumas décadas mais tarde, em 1890, o oficial da marinha dos EUA, Alfred Thayer Mahan, lançava seu livro “The influence of Sea Power upon History” – o livro se tornou, com o tempo, uma das obras que deu origem a uma das teorias da geopolítica clássica, a teoria do poder marítimo. Nele Mahan estabelece que os americanos deveriam tomar proveito da sua principal vantagem estratégica, a sua posição insular – após a expansão para o oeste e a conquista dos territórios que antes pertenciam ao México, os EUA conseguiu um feito raro, o de estabelecer fronteiras nacionais de uma ponta a outra do continente, reafirmando seu controle sobre a costa leste e conquistando o controle da costa oeste, com acesso aos Oceanos Atlântico e Pacífico.
Logo, Mahan defendia que os Estados Unidos deveriam eclipsar a marinha britânica na região do Hemisfério Ocidental e, a partir daí, projetar poder através da expansão de suas forças navais e frotas mercantes. Longe dos principais centros de tensão mundial e “superada” as divisões internas com o fim da Guerra de Secessão (1861-1865), os EUA tinha em mãos a oportunidade perfeita para expandir a sua área de influência imediata para além de suas fronteiras e a América Latina e Caribe passariam a fazer parte da “fortaleza americana”, possibilitando assim que os americanos assumissem a sua posição de hegemonia regional.
A abordagem mahaniana teve uma forte influência no governo e na elite intelectual americana, chegando a inspirar o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) no que viria a ser chamado em 1904 como Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe. Nele, o presidente reforçar o dever dos Estados Unidos de defender o hemisfério das políticas imperialistas de potências extrarregionais em troca do seu direito exclusivo (autodeclarado) de intervenção na região. Na época, Roosevelt justificou sua nova política externa em argumentos como o atraso cultural da América Latina e a missão civilizatória, também conhecida como Destino Manifesto, de que os EUA possuíam o dever divino de levar a democracia ao resto do mundo. Mais de 120 anos depois, as justificativas mudaram, mas o objetivo permanece o mesmo, manter o controle da região do Hemisfério Ocidental, principalmente em tempos de insegurança global.
Mas e o Corolário Trump? Antes mesmo do anúncio do corolário na NSS de 2025, já haviam especulações acerca da volta do uso da Doutrina Monroe como artifício discursivo de reafirmação da posição dos Estados Unidos na América Latina durante a primeira administração de Donald Trump. Essas especulações ganharam força em 2019, quando o então Secretário de Estado, Mike Pompeo, afirmou que os EUA não mediriam esforços para restabelecer a democracia no hemisfério em uma clara oposição ao governo Maduro e reiterando as acusações do governo americano de fraudes nas eleições venezuelanas no ano de 2018. Vale ressaltar que, durante a administração Obama, o Secretário de Estado, John Kerry, havia declarado o fim da Doutrina Monroe em 2013, marcando uma nova era de cooperação e parceria entre as regiões. Essa breve interlúdio da Doutrina Monroe chegou ao fim com a eleição de Donald Trump a presidência e a ameaça já no seu primeiro ano de mandato, 2017, quando o presidente afirmou que não descartava a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela em resposta a aproximação do país caribenhos a países adversários dos Estados Unidos como Rússia, China e Irã. Naquele momento, Trump limitou-se à imposição de sanções econômicas, ameaças e operações anti-narcóticas no Mar do Caribe, próximo à costa venezuelana, mas no seu segundo mandato palavras tomaram a forma de ações entre o final de 2025 e começo de 2026.
Em suma, podemos concluir que a Venezuela já possuía um papel central na política externa dos Estados Unidos para a América Latina durante o governo Trump I. Todavia, foi apenas durante o seu segundo mandato que a América Latina e o Caribe assumiram um papel de maior destaque na National Security Strategy e que o presidente cumpriu as ameaças que já vinham sendo feitas desde 2017. Ademais, a Doutrina Monroe foi e continua sendo uma importante ferramenta para a análise das relações entre Estados Unidos e América Latina em perspectiva histórica mas com contornos e consequências que se fazem presentes na atualidade. Ainda é cedo para afirmar ao certo o que é o Corolário Trump, mas o seu anúncio oficial na NSS de 2025 foi importante para sinalizar a importância estratégica da América Latina para os Estados Unidos no atual cenário de competição geopolítica entre grandes potências.
Referências
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