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Drones sobre o Sudão: como aeronaves não-tripuladas aprofundaram o conflito e a crise humanitária

Por Cinthya Araújo Gomes 15/05/2026 8 min

Drones sobre o Sudão: como aeronaves não-tripuladas aprofundaram o conflito e a crise humanitária

O Sudão é o terceiro maior país da África. Com mais de 47 milhões de habitantes espalhados por um território marcado por desertos, planícies férteis e uma das maiores bacias hidrográficas do continente, o país carrega décadas de instabilidade política que culminaram, em abril de 2023, em um conflito aberto entre as duas maiores forças armadas do país: o Exército sudanês (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês). O que começou como uma disputa de poder entre generais que antes governavam juntos rapidamente se transformou em uma guerra devastadora, e nos últimos dois anos recebeu a adição no arsenal de ambos os lados.

Desde 2024, os drones passaram a dominar o campo de batalha sudanês. Segundo dados do Projeto de Dados de Eventos e Localização de Conflitos Armados (ACLED), pelo menos 2.200 mortes já foram atribuídas a ataques de drones desde o início do conflito, com 80% delas ocorrendo apenas em 2025. Em números absolutos, os ataques saltaram de 277 registrados em 2024 para 472 em 2025, o que representa uma escalada significativa na história dos conflitos armados africanos.

O que são drones e por que eles fazem a diferença

Antes de entrar nos detalhes do conflito, vale uma pausa para entender a tecnologia em questão. O termo “drone” abarca uma vasta gama de aeronaves não-tripuladas (UAVs, do inglês Unmanned Aerial Vehicles), que vão desde aparelhos comerciais de poucos quilogramas até sofisticadas plataformas militares capazes de voar por horas carregando mísseis de precisão.

No contexto militar moderno, os drones costumam ser divididos em algumas categorias principais. Os chamados MALEs (Medium-Altitude Long-Endurance) são grandes, caros e equipados com armamento guiado — como o iraniano Mohajer-6 ou o turco Bayraktar TB2. Os FPVs (First Person View) são pequenos e baratos, pilotados em tempo real por um operador que enxerga pelo ângulo da câmera do aparelho. Já os drones kamikaze, também chamados de munições vagantes são projetados para se chocar diretamente contra o alvo e explodir (para mais detalhes sobre a classificação de drones, recomendo a leitura do artigo: Por que os drones pequenos importam e por que o Brasil não pode perder (ainda mais) o timing)

O que torna os drones especialmente atraentes para atores em conflito é uma combinação de fatores: custo relativamente baixo, capacidade de operar sem risco à vida do operador e precisão superior à de armamentos convencionais de baixo custo. Quando adaptados a contextos de guerra urbana, como é o caso do Sudão, tornam-se multiplicadores do poder destrutivo, mesmo nas mãos de forças com orçamentos limitados.

O arsenal de cada lado

O conflito sudanês tem demonstrado uma sofisticação crescente no uso dessas tecnologias por ambos os lados, o que, por si só, já levanta questões sobre as cadeias de fornecimento internacionais.

O exército sudanês conta com o Mohajer-6 iraniano como espinha dorsal de sua ala aérea não-tripulada. Trata-se de um drone de média altitude capaz de voar por até 12 horas e atingir alvos a 18 mil pés de altitude, carregando até quatro munições guiadas de precisão (mísseis Qaem). Complementam o arsenal sudanês os drones turcos Bayraktar TB2 e seu irmão mais pesado, o Akinci, este último especialmente útil para destruir sistemas de defesa aérea e infraestrutura estratégica. Relatórios da ONU e da Anistia Internacional indicam ainda o envolvimento do Irã, da Turquia e da Rússia no fornecimento de equipamentos ao exército.

Do outro lado, as RSF operam principalmente com os drones chineses CH-95 (também chamados de FH-95), plataformas de ataque de longo alcance capazes de realizar vigilância e guerra eletrônica. Mas uma de suas apostas mais devastadoras tem sido a modificação de drones comerciais da marca DJI para carregar e lançar morteiros de 120mm. Baratos, fáceis de operar e difíceis de rastrear, esses aparelhos têm se mostrado extraordinariamente eficazes em ambientes urbanos. Segundo informes, as RSF recebem apoio dos Emirados Árabes Unidos por meio de corredores logísticos na Líbia e no Chade.

Há ainda o uso disseminado de FPVs e drones kamikaze por ambos os lados, observado em intensidade especialmente em Cartum, Al-Jazirah e El Fasher. Segundo pilotos ouvidos pelo Sudan Tribune, esses aparelhos têm sido usados para atacar concentrações de tropas, blindados leves e atiradores de elite, além de restringir a movimentação de indivíduos em zonas urbanas.

O custo humano

Um homem observa a fumaça após um ataque com drones em Port Sudan, maio de 2025 (Foto: AFP - Getty Images)

A distribuição geográfica das vítimas revela que nenhuma região do Sudão ficou imune: Darfur do Norte registrou 577 mortes atribuídas a drones, seguido por Kordofan Ocidental (567), Kordofan do Norte (548), Cartum (403) e Kordofan do Sul (396).

Entre os episódios mais chocantes está o massacre de Kaluqi, em dezembro de 2025, quando um drone atingiu uma escola de anos iniciais em Kordofan do Sul. Ao contrário do que se poderia imaginar, o ataque não parou por aí: os primeiros socorristas que chegaram ao local e o hospital para onde as vítimas foram levadas também foram atacados na sequência. A ONU documentou 104 civis mortos em uma série de ataques na região de Kordofan em uma única semana daquele mês.

Outros episódios igualmente graves incluem o ataque ao campo de deslocados de Abu Shouk, em 19 de setembro de 2025, que matou cerca de 75 pessoas; o strike em Dar al-Arqam, em El Fasher, em 10 de outubro, que deixou 60 mortos; e um ataque a um aglomerado de deslocados em Samasim, no último dia de 2025, com 41 vítimas fatais.

O projeto Sudan Witness, que mantém o maior banco de dados conhecido sobre ataques aéreos militares no conflito iniciado em abril de 2023, documenta que o exército sudanês realizou operações de bombardeio que mataram pelo menos 1.700 civis em bairros residenciais, mercados, escolas e campos de deslocados. Mohamed Salahuddin, da Ordem dos Advogados de Emergência, contabiliza cerca de 129 ataques de drones contra objetivos civis por ambos os lados, resultando em 218 mortos e 112 feridos apenas em 2024 e 2025.

O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertou repetidamente para a escalada das hostilidades e classificou os ataques de drones a instalações civis como possíveis crimes de guerra. Em declaração recente, Türk documentou mais de 90 mortes e 142 feridos entre o final de janeiro e 6 de fevereiro de 2026, mesmo período em que o exército rompia cercos prolongados em cidades anteriormente controladas pelas RSF.

Sudão como laboratório

O general reformado Walid Ezzedine Abdel Majid, membro do Alto Comando Central de Oficiais Reformados, afirma que o que segue ocorrendo no Sudão representa o primeiro modelo africano de uso em larga escala de drones em um contexto de guerra civil. A afirmação não é hiperbólica: enquanto drones já foram utilizados em outros conflitos africanos, no Mali, na Líbia e na Etiópia, a escala, a sofisticação tecnológica e a variedade de plataformas empregadas no Sudão não têm precedentes no continente.

Há aqui uma lição que ecoa debates já travados a partir das guerras na Síria e na Ucrânia: a democratização dos drones. Se antes esses equipamentos eram privilégio de potências militares com grandes orçamentos de defesa, hoje qualquer ator com acesso a mercados internacionais, formais ou informais, pode adquirir capacidade aérea não-tripulada. No caso das RSF, a modificação de drones comerciais DJI para uso bélico é um exemplo cristalino dessa tendência: tecnologia de prateleira, adaptada de forma artesanal, capaz de causar destruição significativa.

O general aposentado Jamal al-Shahid aponta que os drones se tornaram parte indispensável da guerra moderna justamente porque combinam baixo custo operacional com capacidade de ataque preciso a longas distâncias, algo inviável para aeronaves tripuladas em muitos cenários. Contudo, ele ressalta um limite importante: drones podem destruir, mas não podem ocupar território. O controle de áreas continua exigindo infantaria.

Esse argumento é corroborado pelo general reformado Mutasim Abdel Qader, que observa que as RSF recorrem aos drones especialmente quando sofrem pressão terrestre do exército, usando-os como ferramenta de compensação por perdas no campo. O emprego de drones, portanto, não substitui a força terrestre, mas pode ser um multiplicador de capacidade destrutiva com efeitos devastadores sobre populações civis.

A ilusão da vitória militar

Fouad Osman, pesquisador de assuntos políticos e do Chifre da África, resume bem o dilema que cerca o conflito: desde o início da guerra, ambos os lados têm alimentado a narrativa de que uma resolução militar está próxima. Para Osman, isso é um “mito custoso”, uma das maiores ilusões que as partes tentam incutir na consciência pública. A decisão de parar a guerra, ele argumenta, tornou-se refém do consenso entre os apoiadores de ambos os lados, e o uso massivo de drones não fez mais do que elevar o número de mortos e corroer o senso de segurança da população.

A análise de Osman ressoa com a literatura clássica sobre o poder aéreo. Robert Pape, em sua obra Bombing to Win, argumenta que o sucesso de campanhas de bombardeio em obter concessões políticas depende da estratégia adotada, punição, decapitação ou negação. No caso sudanês, nenhuma das estratégias parece estar produzindo resultados definitivos: as RSF continuam operando apesar das perdas, e o exército, apesar de retomar algumas cidades, não conseguiu desarticular o inimigo. A guerra continua, e os drones continuam voando.

Como Osman conclui: apesar de toda a destruição, ainda há uma oportunidade de parar a guerra se a vontade de paz superar a “ilusão da vitória militar”. O caminho das balas, ele diz, é um beco sem saída.

Referências

https://sudantribune.com/article/310795

https://sudantribune.com/article/313822

https://acleddata.com/conflict-watchlist-2025/sudan/

https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/10/sudan-un-expert-alarmed-escalating-drone-attacks-urges-protection-civilians

https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/05/turk-issues-high-alert-widening-sudan-conflict-amid-increased-use-drones

https://www.amnesty.org/en/latest/research/2024/07/new-weapons-fuelling-the-sudan-conflict/

https://www.aljazeera.com/news/2025/12/17/drone-attacks-kill-over-100-civilians-across-war-torn-sudans-kordofan