Artigo de Opinião Panorama geral

Drones, Mercenários e Terras Raras: As Novas Dinâmicas do Conflito no Leste do Congo

Por Nicolas Zupardo Dutra 21/06/2026 9 min

Drones, Mercenários e Terras Raras: As Novas Dinâmicas do Conflito no Leste do Congo

“Grite ‘Devastação!’ e solte os cães de guerra!”. A célebre frase de Marco Antônio em Júlio César parece descrever com precisão o atual estágio do conflito no leste da República Democrática do Congo. Mais de duas décadas após o fim formal da Segunda Guerra do Congo, a região permanece marcada pela disputa por recursos minerais estratégicos. Nos últimos anos, o recrudescimento das operações do movimento rebelde M23, apoiado por Ruanda, coincidiu com a entrada de novos atores estrangeiros no teatro de guerra congolês, incluindo empresas militares privadas, e novas tecnologias, como drones. É dentro desse contexto que o conflito armado no leste do Congo vem despertando cada vez mais atenção no espaço internacional. 

Soldados das Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) durante operações nos arredores de Goma em 2025. Crédito: Jaspin Mwisha/AFP


As raízes do conflito no Congo

O conflito no leste da República Democrática do Congo tem suas raízes no Genocídio de Ruanda de 1994, que gerou um enorme fluxo de refugiados hutus para o território congolês, incluindo milicianos extremistas. Esse processo desencadeou a Primeira Guerra do Congo (1996–1997), na qual Ruanda e aliados derrubaram o ditador Mobutu Sese Seko e levaram Laurent Kabila ao poder. A relação entre Kabila e Ruanda rapidamente se deteriorou, provocando a Segunda Guerra do Congo (1998–2002), um conflito de escala continental que envolveu múltiplos países e resultou em mais de três milhões de mortes. Apesar dos acordos de paz firmados entre 2002 e 2003 e da subsequente eleição de Joseph Kabila em 2006, a instabilidade no leste do país persiste. Grupos rebeldes como o M23, composto majoritariamente por membros da etnia tutsi e apoiado por Ruanda, continuaram a alimentar o conflito nas décadas seguintes. A isso se soma a disputa por minerais estratégicos como cobalto e cobre, abundantes na região e essenciais para a indústria global de eletrônicos, o que criou novos incentivos para que atores locais e estrangeiros perpetuem a violência. 

Atualmente, o conflito se encontra ativo apesar dos esforços políticos apoiados pelos Estados Unidos e seus parceiros para garantir um cessar-fogo e um acordo de paz negociado. A República Democrática do Congo e o M23 assinaram, em novembro de 2025, um acordo-quadro de paz mediado pelo Catar, que traçou um caminho para se chegar a um acordo abrangente e de longo prazo. No entanto, nenhum cessar-fogo se consolidou, e a situação de segurança na região continua a se deteriorar, apesar dos esforços de organismos internacionais e africanos, como a União Africana e a MONUSCO, para apoiar a implementação de um cessar-fogo. As duas partes se reuniram novamente para uma nova rodada de negociações de paz na Suíça, em meados de abril, pela primeira vez desde o início de fevereiro, e assinaram novos acordos técnicos para ajudar a implementar os dois primeiros pilares do acordo, incluindo uma troca de prisioneiros inicialmente acertada no final de 2025. No entanto, o governo congolês estaria atrasando o processo de troca de prisioneiros, e diversos desacordos teriam bloqueado o avanço em direção ao terceiro pilar nas negociações na Suíça, enquanto as duas partes continuam trocando acusações de violações do cessar-fogo. 

As negociações de paz permanecem em grande parte em impasse devido a disputas processuais, desconfiança mútua e divergências profundas. Observadores da ONU avaliam que tanto a RDC quanto o M23 continuam a priorizar a força militar como meio de resolução do conflito. É nesse contexto que ambos os lados estão buscando ampliar suas capacidades militares por meio da introdução de drones, recorrendo frequentemente a mercenários estrangeiros para operar esse tipo de armamento.

Civis congoleses participam de uma demonstração exigindo justiça após o assassinato de manifestantes protestando contra a Missão de Estabilização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) em Goma, 2023. Crédito: Arlette Bashizi/Reuters

Novos atores e novas armas 

É dentro desse quadro que um novo contingente de mercenários latino-americanos contratados por uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos (EAU) e ligada a crimes de guerra no Sudão teria sido enviado para o leste da República Democrática do Congo (RDC) para apoiar o governo congolês em sua guerra contra os rebeldes do M23, apoiados por Ruanda. O veículo de investigação Intelligence Online, com sede em Paris, informou em 22 de abril que agentes ligados à empresa militar privada Global Security Services Group (GSSG), sediada nos EAU, têm recrutado pilotos de drones da América Latina que operam em Kiev, na Ucrânia, para combater o M23 na RDC. A reportagem informou que um contingente inicial de mercenários foi recentemente enviado para a região de Kivu, no leste da RDC. 

Esse desenvolvimento recente levanta duas preocupações centrais. Primeiramente, devido ao potencial de violações de direitos humanos pelos combatentes estrangeiros durante suas operações no Congo. Essa preocupação se justifica pelo histórico do GSSG, pois conta com o apoio do governo dos Emirados Árabes Unidos e no último ano foi implicado no envio de mercenários ao Sudão para apoiar as Forças de Apoio Rápido (RSF) contra as Forças Armadas do país na guerra civil sudanesa desde o final de 2024. A organização de análise de segurança Conflict Insights Group avaliou que os combatentes ligados ao GSSG estiveram envolvidos em atrocidades em massa cometidas durante o cerco e a captura de El Fasher, no Sudão, pelas RSF, em outubro de 2025. O Departamento do Tesouro dos EUA impôs duas rodadas de sanções contra redes de recrutamento de empresas e indivíduos colombianos, incluindo um coronel colombiano aposentado radicado nos Emirados Árabes Unidos com ligações ao GSSG, relacionadas ao conflito no Sudão entre dezembro de 2025 e abril de 2026.

Além disso, a mais recente mobilização de empresas militares privadas (PMCs ou private military companies em inglês) no conflito no leste da RDC indica um aprofundamento da dependência histórica do governo congolês em combatentes estrangeiros. O presidente congolês começou a aumentar ainda mais a dependência em PMCs e forças armadas aliadas em dezembro de 2025, quando a RDC sofreu um grande revés militar após o grupo rebelde M23 ter capturado a cidade de Uvira, na província de Kivu do Sul, com o apoio do Exército Ruandês (RDF). Mercenários argelinos, colombianos, israelenses e turcos foram avistados na principal base aérea do exército congolês (FARDC) em Kisangani, no centro da RDC, desde o final de 2025, operando caças e drones para as forças armadas congolesas. 

Drone DJI Mavic 3 voando nos arredores de Goma, 2025. Autor desconhecido.

Merece destaque ainda o envolvimento de PMCs ligadas a Erik Prince, um empresário norte-americano, fundador da extinta Blackwater e assessor informal do atual presidente dos EUA, Donald Trump. De acordo com a Reuters, mercenários ligados a Prince foram enviados ao Kivu do Sul para auxiliar militares congoleses na retomada de Uvira, e, desde então, têm apoiado as forças pró-governo congolês contra a coalizão do M23 no Kivu do Sul. Esse desenvolvimento é significativo devido ao interesse de longa data de Erik Prince nas jazidas minerais presentes no Congo. 

Ainda em 2023, Prince foi associado a uma proposta que veria o envio de mais de 2.000 mercenários da Colômbia, do México e da Argentina ao Kivu do Norte, com o objetivo de proteger áreas de mineração e conter o avanço dos rebeldes do M23. Esse plano, mediado pelos Emirados Árabes Unidos, não se concretizou, e nenhum acordo formal foi alcançado. Da mesma forma, discussões anteriores sobre o envio de milhares de combatentes para o leste do Congo também não resultaram em um contrato. Mais recentemente, em 2025,  Erik Prince fechou um contrato de cerca de US$ 700 milhões com o governo congolês para auxiliar na proteção e tributação dos recursos minerais da RDC, especialmente na província de Katanga, rica em cobre. Com a recente confirmação da presença de mercenários ligados a Prince na linha de frente em Kivu, é possível afirmar que esse envolvimento sugere uma preocupante convergência entre iniciativas de segurança privada e interesses ligados à exploração mineral no leste da RDC. 

Soldado das Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) em frente a uma residência danificada por um ataque de drone, Goma, 2026. Crédito: Jospin Mwisha/AFP


Ruanda, drones e o conflito no leste do Congo

Posto isso, o M23 também continua a reforçar suas capacidades de guerra aérea com o uso de pessoal e armamento fornecidos por países estrangeiros, sendo esse apoio proveniente majoritariamente de Ruanda. Esse apoio militar por parte de Ruanda é de longa data e inclui uma ampla gama de sistemas bélicos, entre mísseis terra-ar, artilharia e equipamento de guerra eletrônica. Entretanto, recentemente é possível observar a gradativa introdução de drones no arsenal do M23. Em março, combatentes do M23 ou de milícias aliadas ao M23 atacaram posições das FARDC e da força Wazalendo, uma milícia aliada ao governo congolês, nas terras altas do Kivu do Sul, utilizando drones pela primeira vez.  Os drones OWA supostamente usados pelo M23 na operação se assemelham à variante Yiha III de fabricação turca, que o M23 teria usado em pelo menos dois ataques a Kisangani desde o início do ano. Fontes de mídia alinhadas ao governo congolês também afirmaram em várias ocasiões, desde meados de abril, que o M23 e a RDF realizaram ataques nas terras altas de Kivu do Sul utilizando drones TB2 de fabricação turca lançados a partir de Ruanda. 

O atual apoio militar de Ruanda é apontado como um componente crítico dos avanços militares do movimento M23, algo preocupante considerando o histórico de violações de direitos humanos do grupo. Desde sua criação, o M23 foi acusado por organismos internacionais de execuções sumárias, deslocamentos forçados, recrutamento de crianças-soldado e ataques contra civis no leste da República Democrática do Congo. Mais recentemente, após a captura de Uvira, ainda nesse ano, relatos locais e denúncias de organizações humanitárias apontaram para episódios de saques, violência sexual e represálias contra comunidades percebidas como favoráveis ao governo congolês. A crescente sofisticação militar do grupo, impulsionada pelo apoio de Ruanda, amplia significativamente a escalada do conflito e agrava ainda mais a crise humanitária na região. As implicações dessa deterioração da segurança são particularmente alarmantes diante da recente epidemia de Ebola registrada no leste do Congo, uma vez que a continuidade dos combates dificulta operações humanitárias em uma região já marcada por fragilidade institucional e deslocamentos em massa.


Conclusão

O conflito no leste da República Democrática do Congo atravessa uma nova fase marcada pela crescente internacionalização da guerra, pela introdução de tecnologias militares sofisticadas, como drones, e pela expansão do papel de mercenários e empresas militares privadas. O apoio de Ruanda ao M23, aliado à crescente convergência entre segurança privada e exploração mineral, contribui para aprofundar a instabilidade regional e perpetuar a violência no leste do Congo. Ao mesmo tempo, os impactos humanitários do conflito continuam a se agravar, comprometendo esforços diplomáticos, operações humanitárias e até mesmo a contenção de epidemias como o Ebola. Nesse contexto, a guerra no leste da RDC deixou de representar apenas uma insurgência regional, passando a incorporar elementos característicos dos conflitos contemporâneos, combinando competição geopolítica, disputa por recursos estratégicos, atores armados transnacionais e crescente sofisticação tecnológica.