Uma década fora da UE: Qual o balanço depois de 10 anos do Brexit?
Por Caio Ponce de Leon Ribeiro Freire 27/06/2026 26 min
Nesta semana, completa-se uma década desde que os eleitores do Reino Unido decidiram em um referendo histórico pela saída da União Europeia. O Brexit, que venceu com quase 52% dos votos válidos, prometeu “trazer de volta a independência ao Reino Unido”, tirando as decisões políticas de Bruxelas e devolvendo-as a Westminster. No entanto, qual o balanço que se tira desses últimos dez anos?
Um casamento de início conturbado e comprometimento duvidoso
Antes de falar do que aconteceu posteriormente, é importante saber o que aconteceu anteriormente. A história do Reino Unido com a União Europeia, ou com as “Comunidades Europeias”, como se chamavam à época, nunca foi uma de grandes amores. Nos primórdios da integração europeia, na década de 1950, Londres não se uniu aos países do continente, por exemplo. À época, ainda tendo seu Império, o Reino Unido não considerava vantajoso entrar em uma associação de países que estavam abrindo mão da soberania nacional em relação a decisões que concerniam a um produto tão importante para a economia nacional: o carvão. Assim, no primeiro acordo que deu início à integração europeia, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), Londres preferiu ficar de fora. Para além disso, o governo britânico não era favorável a políticas supranacionais, como os seis países da CECA. Ao invés disso, preferia acordos intergovernamentais, onde os governos nacionais tinham o papel principal1. Por isso, o Reino Unido uniu-se a alguns outros países europeus que também não haviam aderido aos planos supranacionais das Comunidades e fundou a “Associação Europeia de Livre Comércio”, um projeto quase que oposto ao das Comunidades Europeias, baseado no intergovernamentalismo ao invés do supranacionalismo.
A visão imperialista do Reino Unido começaria a ruir bem em breve. A Crise do Canal de Suez em 1956 mostrou que o poder e a influência do Reino Unido estavam se esvaindo. Como consequência, territórios do Império começaram a obter independência cada vez mais rápido. Ainda na década de 1950, Londres cedeu o controle do Sudão, Gana e Malásia. No início dos anos 1960, foi a vez da Nigéria, a Somalilândia Britânica (atual Somália), o Chipre, Sierra Leone e Tanganica, todos entre 1960 e 1961. Essas mudanças que estavam se acelerando fizeram Londres tomar uma mudança radical em sua política exterior e começar a entender que seu futuro econômico estava mais ligado ao continente europeu que ao ultramar. Foi assim que o governo do Reino Unido aplicou-se para se juntar às Comunidades Europeias ainda em julho de 1961.
No entanto, a entrada britânica não seria tão simples. À frente do Palácio do Eliseu estava o presidente Charles de Gaulle que, tendo sua própria visão bastante nacionalista e anti-estadunidense, barrou o pleito de Londres. Para de Gaulle, o Reino Unido era um “Cavalo de Tróia” para a influência dos EUA na Europa, além de ser “anti-Europeia”. Por esse e outros motivos, vetou em duas ocasiões (1963 e 1967) a entrada do país no bloco. Somente após sua saída da presidência francesa, a partir de 1969, é que o Reino Unido conseguiu, em sua terceira tentativa, unir-se aos demais países das Comunidades, entrando oficialmente em janeiro de 1973.
O primeiro Brexit, porém, poderia ter vindo quase dois anos depois de sua entrada. Em junho de 1975, o governo trabalhista chamou o eleitorado a responder à pergunta “Você acha que o Reino Unido deve se manter na Comunidade Europeia (Mercado Comum)?” no primeiro referendo sobre a participação do país no processo de integração europeia. Com cerca de 64% de participação, o “sim” venceu à época com 67% dos votos2, mostrando um forte apoio à manutenção do país nas Comunidades.
Como, porém, a entrada britânica no grupo de outros países europeus se deu mais pelo pragmatismo (ou necessidade de se manter junto a parceiros comerciais importantes), do que por convicção em relação a políticas supranacionais, o Reino Unido foi um claro exemplo do que muitos chamam de um “casamento sem amor” ou, como dizem alguns analistas, “querendo os benefícios de casado, mas se mantendo solteiro”. Isso se pode ver, por exemplo, no caso de Londres ter decidido ficar de fora da União Monetária, que daria origem ao Euro alguns anos depois. À época, os trabalhistas fizeram uma campanha em que prometiam tirar o país das Comunidades, caso se elegessem, mas, desta vez, sem nem mesmo convocar um referendo. Após terem perdido para Margareth Thatcher, eles mudariam sua estratégia política de colocar-se contra as Comunidades.
Outras ocasiões em que o Reino Unido se manteve de fora dos avanços mais federalistas da União Europeia (com este nome, oficialmente, a partir de 1993) foram o Acordo de Schengen, que aboliu as fronteiras internas entre a maior parte dos países-membros (o acordo responsável por hoje ser possível passar de um país da UE para outro sem necessitar de outros vistos), a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia (da qual ficaram parcialmente de fora), legislações europeias aprovadas na área de “liberdade, segurança e justiça” (que inclui a harmonização do direito internacional privado, acordos de extradição, vistos e política de migração).
Conturbações levando ao divórcio
A relação de Londres com Bruxelas sempre foi mais diferente do que a com outros Estados-membros. O acadêmico Stephen George designou o Reino Unido como “parceiro estranho” em seu livro de 19903. Isso porque os britânicos se consideram ter uma identidade e cultura diferente da Europa continental, uma “relação especial” com os EUA (já mencionada por de Gaulle como motivo para barrar a entrada do país anteriormente) e uma associação maior com os países da chamada “anglosfera” (que incluem muitas das ex-colônias).
A opinião pública britânica em relação à União Europeia foi variável ao longo da história da relação dos dois atores. Como mostram dados do Eurobarômetro, o total de entrevistados que consideravam que o país não se beneficiava em sendo membro da UE se manteve à frente do total daqueles que viam a participação na UE com bons olhos. No fim dos anos 2000, à época da crise financeira de 2009, a lacuna entre os dois lados se alongou, com quase 60% dos entrevistados britânicos afirmando que o país não se beneficiava estando na União.
Já a imagem da União Europeia entre os cidadãos britânicos tendeu a ser majoritariamente negativa durante os anos 2000 e 2010, antes do referendo, atingindo seu pico por volta de 2011, após o ápice da Crise do Euro de 2010.
Um sinal político dessa relação não tão amistosa entre os britânicos e a UE se vê no papel que o “UKIP” (Partido da Independência do Reino Unido), um partido eurocético, teve desde a década de 1990. Formado no mesmo ano da entrada em vigor do Tratado de Maastricht, que oficialmente criou a União Europeia em 1993, o UKIP logrou “furar” a hegemonia dos dois partidos tradicionais britânicos, o Trabalhista e o Conservador, chegando ao terceiro lugar nas eleições para o Parlamento Europeu em 2004, depois segundo lugar em 2009 e, finalmente, primeiro lugar em 2014 (com cerca de 27% dos votos dos eleitores britânicos). Nigel Farage, o político mais proeminente do partido, tornou-se uma figura que encarnava o sentimento britânico anti-UE. Apesar de ter força nas eleições para o Parlamento Europeu, das oito eleições nacionais britânicas em que participou, o UKIP só conseguiu um assento uma única vez, em 2015, quando alcançou 12% dos votos4.
Finalmente, um novo referendo seria proposto, desta vez, pelos Conservadores. Após crescente pressão no partido já desde 2012, o então primeiro-ministro conservador David Cameron prometeu que, se seu partido ganhasse as próximas eleições gerais em 2015, que ele iria negociar melhores condições para a manutenção do país na União Europeia e, posteriormente, convocaria um voto popular sobre a questão. Foi nesse período que o UKIP conseguiu sua maior vitória nas eleições europeias e, no ano seguinte, o primeiro assento na Casa dos Comuns, o parlamento britânico. Os Conservadores saíram à frente, obtendo cerca de 37% dos votos, contra 30% dos Trabalhistas. Cameron se manteve como primeiro-ministro e, como prometido, levou a ideia do referendo adiante.
Nas negociações com Bruxelas, Cameron trouxe as demandas do Reino Unido: que o país tivesse mais influência na governança econômica (ditada, via de regra, pelo Banco Central Europeu), que a UE reconhecesse oficialmente que políticas da Zona do Euro não se aplicavam a países que não tivessem o Euro (que já não se aplicavam), que países fora da Zona do Euro não tinham obrigação de socorrer economias com dificuldades que tivessem o Euro como moeda, que o Reino Unido ficasse isento legalmente de qualquer avanço federalista da UE (o que, na prática, já era uma realidade), que parlamentos nacionais pudessem vetar leis europeias (o que, de acordo com o Tratado de Lisboa de 2009, já era possível) e, finalmente, que o Reino Unido pudesse impedir outros cidadãos da UE, que emigrassem para o Reino Unido, de requerer moradia social ou benefícios para trabalhadores até que tivessem passado no mínimo quatro anos no país (algo que era vetado pelas leis europeias, já que todo cidadão da UE deve ser tratado igual em todos os países-membros)5. A maior parte dessas demandas foram, de fato, acordadas ao Reino Unido por Bruxelas. No entanto, como era promessa de campanha, o referendo se manteve de pé.
A legislação passada na Casa dos Comuns para aprovar o referendo foi o chamado “Ato do Referendo da União Europeia” e foi aprovado no fim de 2015. A lei previa a realização de um referendo antes do fim de 2017, mas não foi desenhado para ser vinculante. Ou seja, o resultado do referendo não tinha validade legal e o governo não tinha a obrigação de considerar o resultado para legislar. Esse fato mostrava como o referendo foi planejado, originalmente, mais como uma forma de “sondar” o eleitorado britânico do que de fato pedir para que o povo legislasse. A Suprema Corte britânica reafirmou esse caráter não vinculante após o voto em 2016.
Finalmente, a data foi escolhida: 23 de junho de 2016. A cédula de votação perguntava: “O Reino Unido deveria permanecer um membro da União Europeia ou deixar a União Europeia?”, com as opções de: “Permanecer membro da União Europeia” e “Deixar a União Europeia”.

Cédula de votação
Em fevereiro de 2016, o governo do premiê conservador David Cameron declarou apoio à permanência do Reino Unido na União Europeia. Isso deu início, oficialmente, à campanha para o “Brexit” (termo cunhado a partir de “Britain”, Grã-Bretanha, e “Exit”, saída, em inglês).
Oficialmente, a comissão eleitoral declarou o movimento “Britain Stronger in Europe” (“a Grã-Bretanha mais forte na Europa”) como o cabo eleitoral oficial para o lado de “permanecer” e o movimento “Leave.EU” (“Deixar.União Europeia”), liderado por Nigel Farage, como a campanha oficial do voto para “sair”. Isso fez com que esses comitês recebessem um financiamento público no valor de sete milhões de libras para angariar votos no eleitorado para seu lado. O governo, manteve-se a favor do lado de manter o Reino Unido na União Europeia, mas liberou seus ministros para votar e fazer campanha para o lado que decidissem.
Como o governo estava a favor de manter o Reino Unido na UE, ele preparou um panfleto informativo sobre os argumentos para que o país continuasse como membro da União. Essa decisão foi criticada por membros da campanha para deixar a UE, sobretudo Farage, que afirmou que se o “permanecer” ganhasse, seria necessário fazer outro referendo, porque o governo havia tido uma vantagem injusta6. Por outro lado, a campanha a favor do Brexit foi fortemente criticada por praticar uma campanha de desinformação, aproveitando a falta de conhecimento da maior parte do eleitorado britânico sobre o funcionamento da União Europeia e instrumentalizando-o a favor da saída do país do bloco78. Especialmente tablóides, que costumavam aproveitar-se de manchetes sensacionalistas e explorar o medo como forma de monetizar suas operações, foram vistos como fatores importantes para alavancar a campanha em favor da saída do país da UE9.

Ônibus da campanha para sair (Leave), com Boris Johnson (que viria a ser primeiro-ministro anos depois) à frente, afirmando que 350 milhões de libras enviadas para a UE seriam investidas no sistema público de saúde (NHS) em caso de saída da União Europeia
Finalmente, o eleitorado britânico expressou-se favorável à saída do Reino Unido da União Europeia, com o voto pela saída tendo angariado 51,8% dos votos, contra 48,1% a favor da permanência. A participação do eleitorado foi de 72%. Olhando o mapa de votação, percebe-se que o voto pela saída da UE ficou mais centralizado na Inglaterra e no País de Gales. A Escócia e a Irlanda do Norte, por outro lado, votaram majoritariamente a favor da permanência no bloco, o que, posteriormente, acenderia novamente os interesses desses territórios em tornarem-se independentes do Reino Unido.
Voto de 1975 ![]() | Voto de 2016 ![]() |
Fonte dos mapas: Wikipédia
Uma década depois, qual o balanço?
Vamos agora avançar 10 anos no futuro para olhar em retrospecto o que mudou nos indicadores do Reino Unido desde o voto. É importante salientar, no entanto, que não faz ainda 10 anos que o Reino Unido saiu de fato da União Europeia.
Após o voto de junho de 2016, as negociações para se desvincular da União Europeia foram, como esperado, bastante árduas. Em se tratando de uma organização supranacional que está fortemente vinculada ao dia a dia do funcionamento de seus Estados-membros, e vice e versa, sair da União Europeia não é uma tarefa tão simples como simplesmente se desvincular de um clube.
Questões adormecidas como a da divisão das Irlandas que haviam sido pacificadas com a entrada do Reino Unido na União Europeia anteriormente ressurgiram, visto que este é o principal território do país (a Irlanda do Norte) que faz fronteira terrestre com um membro da União Europeia (a República da Irlanda). O trânsito de pessoas e mercadorias com a recriação de uma fronteira dura entre os dois territórios foi uma questão por si só que demorou anos para ser negociada.
A desvinculação (majoritária, mas ainda não completa) da estrutura econômica, política e social do Reino Unido da União Europeia só veio a se concretizar quase quatro anos depois, em fevereiro de 2020. Ou seja, dos dez anos desde o referendo, o Reino Unido só está fora da União Europeia oficialmente há seis anos e meio. Os outros quatro foram apenas para negociar a saída de fato. Peguemos, então, alguns pontos cruciais da campanha do Brexit para analisar os efeitos da saída no quotidiano britânico desde então.
Migração
Sem dúvidas, a migração foi um dos pontos principais da campanha do Brexit. Isso porque, afinal, 2016 estava no auge do que ficou conhecido como “Crise dos Refugiados”, quando milhões de pessoas cruzaram o Mediterrâneo e fronteiras terrestres da União Europeia, em busca de refúgio e fugidas das guerras na África e no Oriente Médio. Culpando Bruxelas por não permitir tomar conta de suas próprias fronteiras, coisa que o Reino Unido já fazia não sendo um membro da Zona de Schengen, por exemplo, o Brexit seria uma forma de “retomar o controle das fronteiras nacionais”, como prometia a campanha pela saída do país da União. Os dados mostram uma história bem diferente do esperado:
À época do referendo, em junho de 2016, os dados oficiais do escritório britânico de estatística apontavam para um saldo de cerca de 321 mil pessoas a mais no país. Um número quase 2 vezes maior que o da mesma época de quatro anos antes, em 2012. Desses, porém, apenas 82 mil eram pessoas provenientes de fora da União Europeia (os dados aqui consideram o número total de estrangeiros, independente se refugiados ou não). 322 mil pessoas que entraram no país àquela época (a maioria esmagadora) eram, na verdade, pessoas provenientes de outros países da União Europeia. Em um número maior que o dos estrangeiros de fora da UE chegando ao Reino Unido, 83 mil britânicos deixaram o país naquele ano.
O gráfico mostra um dado curioso: após uma queda esperada durante a pandemia, o período depois da efetivação do Brexit (ou seja, depois de fevereiro de 2020) foi o que mostrou um aumento abrupto nos números de migração. Um pico de entrada de mais de um milhão de estrangeiros de fora da União Europeia foi registrado em junho de 2023, elevando o gráfico mais de três vezes mais que os números da época do referendo. Mesmo em 2025, ano dos últimos dados, os números de estrangeiros de fora da UE ainda era 4,6 vezes maior que os números de 2016. Nesse mesmo período, o número de britânicos deixando o país foi estável, mas aumentando levemente, enquanto que os cidadãos da União Europeia passaram a deixar o país em números cada vez maiores.
O balanço de 10 anos do referendo do Brexit em termos de migração é, logo, completamente oposto àquilo que tinha como intenção o campo que lutou pela saída. A explicação para este aumento de migração é bem clara.
Com o fim da livre circulação de cidadãos da UE, o governo (ainda dos Conservadores) passou a ter uma política mais aberta à migração, o que fez com que houvesse um boom de entradas no país de pessoas de fora da União10. O governo de Boris Johnson, à época, facilitou a obtenção de vistos para estudantes (permitindo que trabalhassem incondicionalmente após dois anos de estudos) e trabalhadores da saúde. Isso incentivou tanto universidades, precisando de financiamento de estudantes estrangeiros, como do sistema de saúde público, NHS, a começar a buscar mais pessoas de fora do país11. Basicamente, o Reino Unido trocou uma migração mais “certa” com origem em países da UE, por uma mais “solta” vinda de qualquer outra parte do mundo.
Produto Interno Bruto
Outro ponto focal da campanha era a economia britânica. A campanha pró-saída da UE acusava Bruxelas de estar “atrasando” o Reino Unido, fazendo com que o seu potencial comercial estivesse muito abaixo do que poderia ser. Saindo da União faria, então, com que o Reino Unido pudesse ter relações bilaterais com outros países, aumentando sua prosperidade econômica. Assim, vale a pena olhar para indicadores da economia britânica dez anos após a vitória do bloco a favor da saída.
Começando com o PIB, um dos indicadores mais importantes em comparações internacionais. O período logo após o referendo foi afetado por dois grandes choques: a pandemia e o início da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Assim, seria de se esperar que a economia britânica não se desenvolvesse de maneira muito positiva. De fato, no ano do referendo, a economia do país cresceu 2,2% e, no ano seguinte, mais 3%. Nos anos seguintes, porém, ela passou a crescer abaixo dos 2%, antes de cair abruptamente no primeiro ano da pandemia (mesmo que tenha se recuperado rapidamente no ano seguinte). Da época em que o Brexit chegou a se efetivar, a partir de fevereiro de 2020, em diante, porém, os números voltaram a ficar no patamar abaixo dos 2% anuais. É claro que os efeitos da pandemia e da guerra continuada na Ucrânia, bem como os efeitos da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã em 2026 tem tido e terão um efeito negativo na economia britânica independentemente se o país tivesse se mantido ou não no bloco. A Alemanha, por exemplo, está em recessão há pelo menos dois anos. A França também não tem crescido tanto, assim com a Itália que já performava mal antes da pandemia e das guerras. No entanto, é importante notar que, na comparação de mais longo prazo, o Reino Unido, que antes do referendo chegou a ter o maior crescimento anual do PIB desses países, passou a ter um crescimento mais próximo às notas mais baixas. O Brexit, assim, pode não ter tornado o Reino Unido a economia mais debilitada da Europa, mas, e em meio às tantas adversidades desde o voto de 2016, tampouco fez o país despontar.
A Libra Esterlina
Um outro marco importante para a economia britânica é a moeda nacional, a Libra Esterlina. Um dos orgulhos nacionais, motivo de contenda à época da formação da União Monetária, quando Londres, com Thatcher à frente do governo, se opôs fortemente contra abandonar sua moeda nacional em prol da futura moeda da União. O próximo gráfico mostra a evolução diária da libra em relação ao euro (com cotação introduzida a partir de 1999, apesar de o dinheiro físico só começar a circular a partir de 2002). o que se vê é que houve dois grandes e claros momentos em que a libra perdeu força expressiva frente à moeda da UE: no período que antecedeu o pico da crise financeira de 2009 (e durante a crise) e logo após o referendo do Brexit. A crise financeira que culminou em 2009, na verdade, iniciou-se já em 2007, o que justifica a perda de força da libra já a partir desse período, visto que a moeda tinha fortes relações com o dólar estadunidense e a economia britânica também estava fortemente vinculada aos fatores que levaram à crise. No período posterior à crise, porém, o que se viu foi uma forte recuperação da libra frente ao euro, chegando a um pico por volta de 2015. Esse crescimento se reverteu, no entanto, rapidamente com o anúncio do referendo e, finalmente, com a vitória do campo pró-saída da UE. Desde então, a libra tem ficado no mesmo estado, sem mostrar sinais de recuperação aos níveis anteriores ao referendo. Assim, o que os dados mostram é que o Brexit parece ter tido um impacto direto e claro na desvalorização da moeda britânica frente à moeda da União. A campanha de saída do Reino Unido afirmava categoricamente que argumentos sobre a perda de poder da libra eram “projeto de medo” da campanha pró-UE12. Os dados, no entanto, mostram que não foi tanto “terrorismo” da parte dos favoráveis a se manter na União.
Balança Comercial
Um outro ponto sensível, sobretudo recentemente na política mundial, é a balança comercial do Reino Unido. A campanha favorável ao Brexit prometia que, fora da União Europeia, o país conseguiria fechar mais acordos com mais países ao redor do mundo, melhorando a posição do Reino Unido. Um olhar nos dados nacionais em relação à balança comercial do país, no entanto, mostra uma história diferente e oposta àquilo que se tinha intenção.
Desde o fim da crise financeira de 2009, o que se vê é um aumento expressivo das importações do país, sobretudo de países da União Europeia. No fim de 2016, ano do referendo, o Reino Unido importou o equivalente a 317 bilhões de libras em produtos com origem em países da União Europeia. Neste mesmo período, exportou para a UE um equivalente a 205 bilhões de libras. Curiosamente, o pico do gráfico se vê logo antes da pandemia e da efetivação da saída do país da União. Em 2019, Londres teve importações da UE no valor de 330 bilhões, 13 bilhões a mais que no fim do ano do referendo, enquanto suas exportações para a União Europeia já estavam em declínio. Após o primeiro ano da pandemia, as importações de países da UE continuaram a subir, alcançando patamares similares aos de 2019, e bem acima daqueles de 2016, enquanto as exportações do Reino Unido para a UE foram diminuindo ainda mais, somando o equivalente a 184 bilhões de libras no fim de 2025, 20 bilhões a menos que em 2016.
O que os dados mostram é que, saindo da União Europeia, o Reino Unido continuou a depender de produtos do bloco, aumentando até as importações após a pandemia, enquanto passou a exportar menos para ele (sem aumentar consideravelmente as exportações para outros países). Logo após a pandemia, as importações de outros países do mundo até aumentou drasticamente, quase se igualando às importações originárias da UE em 2021, mas ainda não as passaram, por mais que a tendência desde 2023 seja de crescimento.
Além disso, um relatório de 2021 apontou que mais de 400 empresas estavam realocando suas operações do Reino Unido para países da União Europeia, optando majoritariamente para escritórios em Dublin, na Irlanda, país vizinho do Reino Unido. O fluxo, porém, não foi de uma mão só, já que vários negócios de outros países da União Europeia também passaram a abrir escritórios no Reino Unido, a fim de impedir que os negócios parassem abruptamente13. Uma análise após os 10 anos do referendo aponta que o Brexit não causou um desastre econômico para o Reino Unido, mas teve seus impactos significativos na economia do país, sobretudo de sua metrópole, Londres14. A cidade, porém, reinventou-se e gerou novas formas de se desenvolver.
Cisão Social do Reino
Como mencionado anteriormente, o voto a favor do Brexit não foi igual entre as quatro nações dentro do Reino Unido. Enquanto o voto a favor da saída da União Europeia ganhou na Inglaterra e no País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte votaram majoritariamente contra o Brexit. Este fato, claro, teve um impacto na opinião pública local.
No caso da Escócia, que havia realizado um referendo dois anos antes sobre a independência e votado com uma maioria de 55,30% contra a separação do Reino Unido, o apoio à independência voltou a alcançar 50% após a decisão de sair da União Europeia e atingiu um pico após a saída efetiva do bloco no início de 2020, alcançando um pico de 56% de entrevistados se mostrando favoráveis à independência em 2021. Os números, porém, estabilizaram-se novamente no período pós-pandemia, mostrando-se próximo aos 50%, mas, em vários momentos, sem demonstrar força suficiente para aprovar uma separação do Reino Unido.
A queda expressiva no apoio à independência a partir de 2021 pode ser explicada pelos grandes escândalos envolvendo o Partido Nacional Escocês (SNP), pró-independentista, a partir desse ano. Ainda em 2018, a então presidente do partido e premiê escocesa, Nicola Sturgeon, acusou um dos fundadores do partido (e ex-premiê escocês) Alex Salmond de abuso sexual. Em 2020, ele foi declarado inocente pelos tribunais e passou a acusar Sturgeon de fazer uma “perseguição política” contra ele. Este foi o primeiro grande desgaste do partido. Logo depois, em 2021, a polícia escocesa acusou o SNP de usar mais de 600 mil libras, arrecadadas para um segundo referendo de independência, com outras atividades. Sturgeon, ainda como primeira-ministra da Escócia, renunciou logo após as denúncias. Seu marido, diretor executivo do partido, foi preso em seguida. A própria Sturgeon foi presa posteriormente e liberada sem que passasse por mais processos. Os processos em torno do SNP continuam até hoje, sendo que em uma sentença nesta semana, o marido da ex-premiê foi condenado a cinco anos de cadeia por envolvimento no escândalo. Sendo o SNP um dos grandes bastiões pela independência da Escócia, esses episódios não só mancharam a imagem do partido como também da causa independentista, o que se reflete nos números das pesquisas.
Na Irlanda do Norte, um efeito similar aconteceu. Além de ser o único território das ilhas britânicas que tem uma fronteira terrestre com um membro da União Europeia (a República da Irlanda), o território tem uma história complexa que, em parte, teve uma resolução facilitada pelo fato de que ambas as Irlandas pertenciam à União Europeia. À época do Acordo de Belfast (também chamado de Acordo da Sexta-Feira Santa, pela data em que foi assinado), o fato de que ambos os países, tanto a Irlanda quanto o Reino Unido, faziam parte da União Europeia facilitou15 a cooperação que levaria, finalmente, ao fim de décadas de conflito que levaram à morte de milhares. E, mesmo que a UE não tenha sido responsável diretamente pela paz entre as duas Irlandas, o fato de sua existência facilitar o processo ficou mais claro que nunca no período pós-referendo do Brexit. Como mostra o gráfico abaixo, foi após o voto de 2016 que, pela primeira vez desde a assinatura do Acordo, que o número de entrevistados no território que apoiavam uma reunificação com a República da Irlanda subiu abruptamente, alcançando mais de 30% do total. Em meio às negociações de se se criaria uma fronteira “dura” (com controles de passaporte e bens) entre os dois territórios, o apoio a uma Irlanda unificada cresceu e, pela primeira vez na história, passou levemente a quantidade de contrários.
O número voltaria a cair novamente logo depois e sobretudo no período de efetivação do Brexit e início da pandemia, no começo de 2020. No entanto, o número de favoráveis não voltou a ficar abaixo dos 30%, tornando-se uma constante nos últimos anos. Por outro lado, a quantidade de pessoas contrárias a uma Irlanda unificada manteve-se abaixo dos 60% constantemente, chegando em muitos momentos a ficar abaixo dos 50%.
Este é um dos efeitos mais claros do Brexit em um território que votou massivamente contra a separação com a União Europeia e tem um contato diário mais próximo com um membro da União.
Opinião pública geral
Finalmente, dez anos após terem ido às urnas e votado para deixar a União Europeia, como os eleitores britânicos se sentem em relação à sua decisão? Dados do YouGov, que tem conduzido pesquisas desde o resultado do referendo em 2016, mostra que a opinião pública britânica inverteu-se consideravelmente. Com o Brexit tendo vencido o referendo com cerca de 51,8% dos votos, o número de entrevistados que consideravam a saída da União Europeia como boa ou ruim variou de maneira muito próxima nos primeiros anos, enquanto as condições da saída ainda eram negociadas. Já em 2018, porém, o número de pessoas que afirmavam que não consideravam que tinha sido correto votar para sair começou a se tornar a maioria, um número que foi crescendo ao longo de 2019. Com a efetivação do Brexit, em fevereiro de 2020, os números voltaram a se encontrar, algo que ocorreu novamente em meados de 2021. Este período em diante, porém, uma lacuna considerável entre aqueles que consideravam o Brexit como um erro deixou de retroceder. Em 2026, dez anos depois, 57% dos entrevistados consideram que ter votado para deixar a UE foi um erro, contra apenas 30% que consideram que foi um acerto.
Este gráfico final mostra como a questão, mesmo uma década depois, ainda não parece estar resolvida.
Em termos políticos, o Reino Unido foi chamado de “ingovernável” desde o voto, tendo colecionado um total de seis primeiros-ministros. Todos com governos que não se sustentaram o suficiente, tendo índices de aprovação que caíam um após o outro. O mais recente a deixar o cargo, Keir Starmer, do partido Trabalhista, chegou a afirmar que gostaria de uma relação mais “estreita” com a União Europeia, mas que não se deveria olhar para trás, desconsiderando uma volta do país ao bloco. Sua saída, porém, vem, entre outros motivos, em meio a uma pressão de dentro do seu partido para fazer com que o Reino Unido volte para a União Europeia16.
Isso mostra que as cicatrizes que esses dez anos deixaram são sentidas pelo povo britânico e se refletem nos interesses de políticos. No final, o Brexit pode não ter destruído a economia britânica, como alguns alarmistas podem ter imaginado, mas tampouco foi algo que fez com que o Reino Unido despontasse como um país líder de comércios internacionais e extremamente “soberano”. Isso porque, em um mundo multipolar, países menores (e isso inclui o Reino Unido que não se encontra na posição dos EUA ou China) apenas têm chances de progredir e ter influência na cena internacional se cooperarem com aqueles que lhe são mais próximos.
No afã de voltar a uma grandeza de uma época imperialista, que acabou com o fim do Império Britânico no fim do século passado e parecia ter ficado claro com a mudança de foco da política britânica em prol da União Europeia, os britânicos embarcaram em um experimento político-social-econômico e pagaram para ver. O pagamento não parece ter sido, de todo, extremamente caro, mas também se fez sentir em diversos aspectos do reino.
Em seu jubileu de 10 anos, o Brexit pode, talvez, ensejar em um futuro não tão distante, uma volta do único país que se aventurou a deixar a União Europeia.
Notas de rodapé e fontes
- ↑ Blair, Alasdair, 'The United Kingdom and the European Union' (27 Aug. 2020), in Erin Hannah (ed.), Oxford Research Encyclopedia of Politics (New York, NY, online edn, Oxford Academic, 7 Apr. 2016 - ), https://doi.org/10.1093/acrefore/9780190228637.013.157, acessado em 23 Junho 2026.
- ↑ Miller, Vaughne (2015). The 1974-75 UK Renegotiation of EEC Membership and Referendum. House of Commons Library. https://researchbriefings.files.parliament.uk/documents/CBP-7253/CBP-7253.pdf
- ↑ Stephen, George (1990). An Awkward Partner: Britain in the European Community. 1990. Oxford University Press.
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