Artigo de Opinião

Interesses externos e soberania: a reeleição de Lula e a geopolítica latino-americana 

Por Djalma de Souza da Silva Filho 03/11/2026 9 min

Interesses externos e soberania: a reeleição de Lula e a geopolítica latino-americana 

A América Latina é uma região historicamente marcada pela violência política, econômica e institucional, cuja formação da democracia e da soberania se deu a partir da luta de base. Entretanto, essa violência histórica ao território deixou marcas que ainda são evidentes em sua conjuntura política. Assim, as veias abertas da América Latina, termo apresentado por Eduardo Galeano, simboliza esse processo histórico de exploração e violência na formação política do território latinoamericano, marcas estas que ainda estão abertas e representam a contínua exploração da região no Sistema Internacional (Galeano, 1983). O contexto da região permeado pelas marcas do intervencionismo, regimes de poder e interesses externos que expressam a constante ferida aberta, refletem também no recente processo eleitoral à presidência dos países na região, que desde 2023 se caracteriza pela retomada da onda azul e o alinhamento político aos interesses dos Estados Unidos. O resultado das eleições brasileiras com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva representa, assim, um importante elemento de análise para o redesenho do mapa geopolítico da região no debate sobre soberania e interesses externos. 

A análise da formação territorial e econômica da América Latina não pode ser dissociada da violência colonial que permeou a construção política da região. Assim, o subdesenvolvimento latinoamericano não representa uma simples etapa atrasada do processo de desenvolvimento econômico, mas está diretamente relacionada à forma subordinada da sua inserção no Sistema Internacional. Nesse sentido, a América Latina não foi somente conquistada pelos seus invasores, mas foi historicamente governada para atender aos interesses externos dos países dominantes, sejam eles econômicos ou políticos. Portanto, entende-se que a forma de dominação e exploração mudaram, mas algumas estruturas de poder e dependência ainda permanecem no âmago do debate na busca pela autonomia e o fortalecimento da soberania.

O retorno da onda azul da região, caracterizada pela retomada do pêndulo político voltado para governos de direita, iniciada a partir da eleição de Javier Milei na presidência da Argentina em 2023 e fortalecida com a ascenção de governos de direita nas eleições presidenciais na América Latina em 2025 e 2026, representa um novo alinhamento da política externa aos interesses de Whashington para a região. Nesse contexto, debates sobre os temas de terrorismo e narcoterrorismo na região como um problema internacional que necessita de ajuda externa para o seu combate, o gerenciamento de recursos naturais pelo capital externo e a diminuição do papel do Estado no processo de desenvolvimento e crescimento econômico do país estiveram no centro das discussões. Enquanto que o outro espectro político convergia na defesa de uma política externa mais autônoma e multilateral voltada para o fortalecimento da soberania nacional.

No caso brasileiro, a disputa presidencial também evidenciou a polarização entre projetos políticos distintos para a inserção do país no cenário internacional e para a condução de suas políticas econômicas e sociais. De um lado, o projeto representado pelo então candidato Flávio Bolsonaro, derrotado nas eleições, apresentava como eixos centrais o alinhamento político com os Estados Unidos, a redução da intervenção estatal na economia, o fortalecimento de uma agenda de segurança pública e a ampliação da participação do capital estrangeiro em setores estratégicos, incluindo a exploração dos recursos naturais. De outro, o projeto representado pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva fundamentava-se na defesa da soberania nacional, na ampliação das políticas públicas e sociais e na promoção de uma política externa orientada pelo multilateralismo e pela diversificação das relações internacionais. Nesse sentido, considerando que a configuração geopolítica regional apresentava, naquele momento, uma predominância de governos identificados com o espectro político da direita — sete países, em contraste com quatro governos de esquerda —, a continuidade do governo Lula adquire relevância para o equilíbrio político da América do Sul. Isso porque o Brasil, em razão de sua dimensão econômica, territorial e de sua influência diplomática, constitui um ator central na configuração das relações políticas regionais.

Entretanto, a permanência de um governo de esquerda na Presidência da República do Brasil não representa, por si só, uma reversão da tendência de ascensão da direita na América Latina, tampouco significa um recuo efetivo da chamada onda azul no cenário brasileiro. Haja vista que o resultado da disputa presidencial não se reproduziu de maneira equivalente na composição do Poder Legislativo, cuja configuração passou a apresentar expressiva representação de partidos e parlamentares vinculados ao espectro político da direita. Destaca-se, assim, o desempenho do Partido Liberal (PL), que ampliou sua presença na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, alcançando 36% das cadeiras dos parlamentares do Senado. Dessa forma, embora a reeleição de Lula represente a continuidade de um projeto político que prioriza a soberania nacional e o multilateralismo, a composição do Congresso Nacional evidencia a permanência e a força institucional da direita na política brasileira. Estabelece-se, assim, uma conjuntura de coexistência entre um governo federal de orientação à esquerda e um Legislativo com significativa predominância de forças políticas à direita, cenário que impõe desafios à governabilidade e à implementação da agenda governamental, especialmente no que diz respeito à condução das políticas nacionais e à definição dos rumos da política externa brasileira.

Outrossim, é importante mencionar que a dependência estrutural da América Latina e do Brasil não se reproduz somente na conjuntura externa, mas também nas estruturas internas do país. Nesse sentido, há uma articulação interna entre o bloco no poder e os interesses externos, que por vezes escolhe regimes políticos autoritários e diminuir a ascensão social de parte da população — a partir do corte de políticas assistencialistas e de inclusão — para não perder privilégios econômicos do seu status social (Albuquerque, Meneses; 2017). Elemento este que parcialmente explica o movimento de ascensão de parlamentares de direita no país. Ademais, considerando o histórico de intervencionismo, regime militar, o recente golpe de Estado de 2016 e a nova tentativa de golpe em janeiro de 2023, a democracia brasileira apresenta fragilidades que necessitam de atenção, uma vez que a atuação de interesses e tentativas de interferências externas, assim como o forte ativismo empresarial, já corroboraram para o enfraquecimento da soberania nacional. 

Considerando os aspectos da análise geopolítica, até antes do resultado das eleições no Brasil, o país representava um medidor político importante para confirmar a mudança no eixo ideológico na região da América Latina, haja vista que durante o ano de 2026 o resultado da disputa presidencial na Colômbia e no Peru corroboraram para a prerrogativa da retomada da onda azul no território. Como uma das estratégias internacionais da candidatura de Flávio Bolsonaro, na disputa pela presidência no Brasil, foi a presença do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL em São Paulo, que tinha o objetivo de fortalecer a ideia de um movimento conjunto na região para eleição de presidentes da direita. 

Durante as políticas de taxação aplicadas por Donald Trump à economia brasileira ao longo dos anos de 2025 e 2026, é possível destacar a participação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro — filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro condenado por tentativa de golpe de Estado, e irmão do então candidato não eleito Flávio Bolsonaro — junto à política externa estadunidense com apoio à política de taxação. O objetivo da sua articulação política nos Estados Unidos para aplicação de taxas comerciais ao Brasil, segundo o mesmo, representava um “sacrifício” necessário da economia brasileira em nome da liberdade política que supostamente defendia. Nesse contexto, a liberdade que se refere diz respeito à anistia dos prisioneiros da tentativa de golpe de Estado do dia 08 de janeiro de 2023, e da defesa por uma liberdade econômica maior. Entretanto, essa articulação política de um parlamentar brasileiro contribuindo para a aplicação de taxas comerciais com o interesse de enfraquecer a conjuntura econômica do país que representa institucionalmente, devido ao cargo que ocupa, representa uma controversa significativa do movimento bolsonarista no Brasil e expõe novamente como as veias da América Latina continuam abertas e pulsantes. 

Durante a disputa à presidência no Brasil, além da narrativa do interesse externo e do fortalecimento da soberania nacional, estava presente também elementos externos que buscavam dar vantagens a um dos candidatos. Nesse sentido, foi possível notar a articulação entre Big Techs — representada principalmente pela empresa Meta — e apoio dos Estados Unidos na candidatura de Flávio Bolsonaro. Outrossim, durante os dois meses que antecederam o primeiro turno das eleições presidenciais, precisamente no final do mês de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) divulgou um relatório para a Presidência da República e para o Supremo Tribunal Eleitoral (TSE) do país confirmando o nível de criticidade sobre o risco de interferência externa dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. Elementos estes que se tornaram evidentes para a própria base eleitoral brasileira que buscou alternativas para contornar as tentativas de interferência que buscavam dar vantagens ao candidato apoiado por Washington. 

Nesse sentido, dentre outras razões, é possível atribuir a vitória eleitoral de Luís Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil em seu quarto mandato à mobilização em rede ocorrida pela população nas redes sociais, e pela grande mobilização nas ruas. Observou-se, assim, a formação de um “exército” popular contra o movimento da extrema direita no país. A reeleição de Lula, portanto, representou um símbolo da luta contra o intervencionismo e os interesses dos Estados Unidos no país e na região da América Latina, configurando o mapa geopolítico do território como um importante ator regional na defesa da soberania. 

Diante desse cenário, a fuga do candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, para os Estados Unidos apenas 48 horas após o resultado eleitoral, somado aos episódios de articulação política com atores externos e às tentativas de interferência anteriormente discutidas, reforça a permanência das disputas em torno da soberania e da autodeterminação dos países latino-americanos. Nesse sentido, as veias abertas de Galeano permanecem como uma metáfora importante para compreender uma região cuja história de exploração e dominação não se encerra com a independência política ou a redemocratização, mas continua a se manifestar nas disputas contemporâneas pelo controle dos recursos, pela autonomia institucional e pela definição de seus próprios projetos políticos. Assim, embora o resultado eleitoral brasileiro represente a continuidade de um projeto político orientado pela defesa da soberania nacional, as marcas históricas do intervencionismo e da dependência permanecem presentes, evidenciando que a luta pela autonomia latino-americana continua em aberto.

Referências: 

ALBUQUERQUE, Newton de Menezes; MENESES, Ecila Moreira de. O golpe no Brasil como construção da “democracia” da subcidadania. Polis: Revista Latinoamericana, n. 46, 2017

CARMO, Wendel. Algoritmos das big techs viram o novo campo de batalha da eleição. Carta Capital. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/algoritmos-das-big-techs-viram-o-novo-campo-de-batalha-da-eleicao/. Acesso em: 01 nov. 2026.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Galeno de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

G1. Eduardo Bolsonaro diz que EUA devem impor novas tarifas ao Brasil e que família de Moraes pode sofrer sanção, diz agência. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/08/14/eduardo-bolsonaro-diz-que-eua-devem-impor-novas-tarifas-ao-brasil-e-que-mulher-de-moraes-pode-sofrer-sancao.ghtml. Acesso em: 01 nov. 2026.

PÉCHY, Amanda; SAAD, Caio. Direita, volver: a onda conservadora que varre a américa do sul com incentivo de trump. a onda conservadora que varre a América do Sul com incentivo de Trump. 2026. Elaborado por Veja. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/direita-volver-a-onda-conservadora-que-varre-a-america-do-sul-com-incentivo-de-trump/. Acesso em: 01 nov. 2026.

RIBAS, Sílvio. Como a direita do Brasil quer consolidar a onda conservadora na América do Sul. 2026. Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/como-a-direita-do-brasil-quer-consolidar-a-onda-conservadora-na-america-do-sul/. Acesso em: 01 nov. 2026.