A tecnologia não nos salvará, mas quem nos salvará dela? Uma crítica ao determinismo tecnológico nos Estudos Estratégicos
Por Cinthya Araújo Gomes 10/06/2026 9 min
Em março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque com a mais sofisticada força militar da história. Sistemas de posicionamento global, munições guiadas por laser, redes de comunicação em tempo real, drones de reconhecimento e bombas penetradoras de bunker compunham um arsenal que parecia ter saído de ficção científica. A campanha inicial durou apenas 21 dias. George W. Bush pousou num porta-aviões sob um banner que dizia “Mission Accomplished”, e o mundo acreditou, por um momento, que a tecnologia havia mudado a natureza da guerra.
Oito anos e quatro mil e quinhentas mortes americanas depois, para não mencionar as estimativas de centenas de milhares de civis iraquianos, o Iraque era um país fragmentado, tomado por insurgência, guerra sectária e o caos que daria origem ao Estado Islâmico. A tecnologia havia funcionado perfeitamente. A guerra, não.
Esse paradoxo é o ponto de partida desta discussão. E ele importa hoje mais do que nunca, uma vez que a ideia de que a superioridade tecnológica resolve conflitos, garante vitórias e produz segurança não morreu no Iraque. Ela ressurgiu com os drones no Afeganistão, com a guerra centrada em redes (network-centric warfare) dos anos 2000, com a inteligência artificial nos estudos de defesa dos anos 2020, e aparece agora em cada artigo que promete que o próximo sistema de armas mudará tudo. Essa ideia que dá espaço ao determinismo tecnológico acaba distorcendo a forma como pensamos sobre segurança e conflito.
O que é o determinismo tecnológico e por que ele seduz
O determinismo tecnológico, ao se constituir como corrente de pensamento, sustenta que a tecnologia é o motor primário da transformação social e histórica: são as ferramentas que moldam as sociedades, e não o contrário. Na sua versão mais ingênua, ele aparece no senso comum “a internet mudou tudo”, “o smartphone transformou o mundo”. Na sua versão mais sofisticada e perigosa, acaba migrando para áreas do conhecimento, e tendo nos estudos estratégicos a forma de uma hipótese quase sempre implícita: que avanços técnicos determinam resultados em conflitos.
Essa hipótese tem uma longa genealogia militar. Em 1998, Arthur Cebrowski e John Garstka publicaram o artigo fundador da Network-Centric Warfare, argumentando que a capacidade de compartilhar informações em tempo real entre unidades militares produziria uma vantagem decisiva e irreversível sobre qualquer adversário. A ideia era elegante: transformar a “névoa da guerra” de Clausewitz, em algo administrável pela tecnologia. A informação substituiria a incerteza e a precisão substituiria a massa.
Os resultados da Guerra do Golfo de 1991 pareciam, até então, confirmar a tese. A coalizão liderada pelos EUA destruiu o exército iraquiano em cem horas de operações terrestres, com perdas mínimas, utilizando precisamente essa combinação de superioridade de informação e armamentos guiados. Analistas ao redor do mundo decretaram uma “Revolução nos Assuntos Militares” (Revolution in Military Affair - RMA). O futuro da guerra seria limpo, rápido e tecnologicamente determinado.
O problema, como Stephen Biddle argumenta em seu livro Military Power: Explaining Victory and Defeat in Modern War (2004), é que a tecnologia, apesar de ter sido uma parte importante para a vitória, não foi a única variável no cálculo. Como argumenta Biddle, a vitória na Guerra do Golfo não provou a RMA, mas demonstrou que um exército com doutrina superior e bem treinado derrota um exército mal organizado, independentemente da diferença tecnológica. A tecnologia amplificou a vantagem, mas não a criou. E quando, poucos anos depois, os EUA aplicaram o mesmo arsenal contra insurgentes no Iraque e no Afeganistão, a “revolução” simplesmente não funcionou.
A sedução da precisão e seus limites políticos
Poucas tecnologias militares têm encarnado a promessa determinista com mais eloquência do que munições guiadas de precisão (PGMs) e em última instância: os drones. A ideia de um míssil que acerta exatamente o alvo pretendido, sem danos colaterais, sem risco para o operador, sem as “sujeiras” morais da guerra convencional, é politicamente sedutora.
Por outro lado, precisamos enfrentar o “paradoxo da precisão”. Em março de 2003, os EUA miraram 13 lideranças políticas e militares iraquianas seniores em ataques de decapitação. Em todos os casos, saíram de mãos vazias. As tentativas de eliminar Saddam Hussein resultaram na morte de mais de cem civis, sem atingir o alvo. A tentativa de “obliterar” o programa nuclear iraniano em junho de 2025, utilizando a bomba GBU-57, com 14 toneladas, capaz de penetrar dezenas de metros de rocha, levou o Alto Comissário da AIEA a advertir sobre riscos de contaminação radiológica, sem que houvesse garantia de que o know-how nuclear iraniano havia sido destruído. O conhecimento não é uma instalação. Ele não pode ser bombardeado.
O determinismo tecnológico nos estudos militares comete um erro de nível de análise. Ele trata a tecnologia como uma variável independente – algo que age sobre a guerra – quando na realidade ela está sempre inserida em contextos complexos, nos quais doutrina, cultura organizacional, moral das tropas, contexto político e legitimidade perante a população civil são igualmente determinantes.
A mística da vitória tecnológica e sua função ideológica
Há algo que o argumento puramente analítico não capta: o fato de que o determinismo tecnológico não é apenas um erro intelectual. Ele é também uma ideologia — e cumpre funções políticas e econômicas muito concretas.
O pesquisador Héctor Saint-Pierre, em artigo “Da essência da tecnologia à dependência estratégica: uma agenda para os Estudos de Defesa”, argumenta que a crença na “vitória tecnológica” opera como uma mística que justifica e sustenta a demanda por sistemas de armamento cada vez mais sofisticados. A lógica funciona assim: quanto maior a sofisticação tecnológica, maior o desempenho estratégico; quanto maior o desempenho estratégico, maior a autonomia política. Portanto, estados que queiram autonomia política devem adquirir tecnologia de ponta. Saint-Pierre argumenta que essas três hipóteses são falsas, e que elas obedecem primariamente à lógica da oferta mundial de armamentos, não à lógica da segurança nacional.
Não é coincidência que cada nova “revolução” tecnológica militar seja anunciada justamente quando a indústria de defesa precisa de novos contratos. A RMA dos anos 1990 foi simultaneamente uma doutrina estratégica e um argumento de vendas para sistemas de armas caros. A atual narrativa sobre inteligência artificial na guerra segue o mesmo padrão: empresas de tecnologia investem massivamente em contratos de defesa, think tanks produzem relatórios sobre a “próxima revolução”, e governos alocam orçamentos crescentes, frequentemente à custa de capacidades mais básicas e comprovadas.
A Ucrânia oferece uma lição importante, apesar de incômoda, para o campo. Por décadas, o pensamento estratégico ocidental apostou na ideia de guerras curtas, decididas por superioridade tecnológica e ataques de precisão. O Pentágono planejou suas forças para conflitos que seriam resolvidos por sensores, comunicações e ataques precisos. O resultado é que os EUA produziam em média (até 2025) cerca de 40 mil projéteis de artilharia por mês, uma taxa que parecia suficiente até que se descobriu que a Ucrânia os consumia em questão de semanas durante operações intensivas. O retorno à guerra de atrito em solo europeu contestou essa aposta em vitórias rápidas.
O que a tecnologia não pode fazer
É importante frisar que a crítica ao determinismo tecnológico não é uma crítica à tecnologia em si. Sistemas de armas de precisão, drones, inteligência artificial, tudo isso tem valor real em contextos específicos. A questão não é se a tecnologia importa. Definitivamente importa. A questão é se ela determina resultados, e a resposta é não.
A tecnologia pode amplificar capacidades. Não pode substituir doutrina. Pode aumentar a precisão. Não pode criar legitimidade política. Pode reduzir as baixas próprias. Não pode construir confiança entre comunidades. Pode destruir uma instalação nuclear e atrasar o desenvolvimento de armas nucleares. Não pode destruir o conhecimento de como construir uma bomba. Pode-se monitorar uma fronteira com drones. Não pode resolver os motivos pelos quais as pessoas cruzam a fronteira.
Apesar de ser um homem de seu tempo, Clausewitz já havia identificado essa limitação no século XIX: a guerra é a continuação da política por outros meios. Ou seja, a guerra não tem lógica própria, separada da política que a move. Um exército tecnologicamente superior pode vencer todas as batalhas e perder a guerra, como aconteceu com os EUA no Vietnã, no Afeganistão e, de certa forma, no Iraque, se a dimensão política do conflito não for adequadamente compreendida e endereçada.
O caso do Afeganistão é paradigmático nesse sentido. Por vinte anos, os EUA e a OTAN aplicaram ali a mais avançada tecnologia militar disponível: drones Predator e Reaper, sistemas de vigilância de última geração, armas de precisão, análise de big data para identificação de insurgentes. E o Talibã, organização que não possuía força aérea, que não tinha satélites, cujos combatentes usavam frequentemente sandálias e fuzis Kalashnikov, tomou Cabul em onze dias depois que as forças americanas partiram. Como John Pike havia advertido décadas antes: os problemas eram de uma categoria que a tecnologia não consegue resolver.
Para além do determinismo
A alternativa ao determinismo tecnológico não é o seu oposto, uma espécie de determinismo social igualmente simplista, que ignora a agência da técnica. É uma perspectiva sociotécnica, que reconhece que tecnologia e contexto social se co-constituem de forma complexa e não linear.
Aplicada aos estudos estratégicos, essa perspectiva significa algumas coisas concretas. Primeiro, que a avaliação de capacidades militares deve sempre considerar a doutrina, o treinamento e a cultura organizacional com o mesmo peso dado aos sistemas de armas. Um F-35 na mão de uma força aérea com doutrina fraca e pilotos mal treinados não é um ativo estratégico, é um passivo caro. Segundo, que a legitimidade política, perante a população doméstica e a internacional, é uma variável estratégica de primeira ordem, não um apêndice moral a ser gerenciado pela assessoria de comunicação. Terceiro, que a proliferação tecnológica é estruturalmente assimétrica: o que hoje é vantagem exclusiva de uma grande potência, amanhã estará disponível para cartéis mexicanos e facções criminosas no Rio de Janeiro, como os artigos anteriores já argumentaram (Recomendo ver: Drones sobre o Sudão; A Militarização Criminal na América Latina.
Quarto, e talvez mais importante, que a pergunta fundamental não é “qual tecnologia precisamos adquirir?”, mas “qual problema estamos tentando resolver?”. São perguntas diferentes. A primeira leva a uma corrida armamentista sem fim e a um complexo industrial-militar que se retroalimenta. A segunda obriga a uma análise das ameaças reais, dos interesses em jogo e dos instrumentos, tecnológicos ou não, mais adequados para endereçá-los.
O título deste artigo pergunta quem nos salvará da tecnologia. A resposta, por mais anticlimática que seja, é: o pensamento político. A capacidade de fazer perguntas sobre finalidade, legitimidade e consequência antes de tomar decisões sobre meios. Não é uma resposta que vende contratos de defesa ou gera manchetes sobre a próxima revolução militar. Mas é a única que tem alguma chance de funcionar, como a história, repetidamente, tem tentado nos ensinar.
Referências
Saint-Pierre, Héctor e Jonathan Assis. "Da essência da tecnologia à dependência estratégica: uma agenda para os Estudos de Defesa." Revista Brasileira de Estudos de Defesa, 2025. https://rbed.abedef.org/rbed/article/view/75416
Biddle, Stephen. Military Power: Explaining Victory and Defeat in Modern War. Princeton University Press, 2004.
Precision Paradox and Myths of Precision Strike in Modern Armed Conflict. Journal of Strategic Studies, 2024. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/03071847.2024.2343717
America's Scale Problem. RealClearDefense, outubro de 2025. https://www.realcleardefense.com/articles/2025/10/07/americas_scale_problem_1139242.html
Clausewitz, Carl von. Da Guerra. Tradução de Maria Teresa Ramos. Martins Fontes, 1996.
Smith, Merritt e Leo Marx (eds.). Does Technology Drive History? The Dilemma of Technological Determinism. MIT Press, 1994.